Na semana passada, em um artigo publicado aqui mesmo no Notícias da Hora, fiz um convite à reflexão sobre como a educação — especialmente a Medicina — tem sido transformada em privilégio e não em direito. Nele, uma pergunta ficou no ar. Ela é simples e incômoda: quem vigia os mercadores do saber? Hoje, essa pergunta ganha contornos ainda mais complexos diante da iniciativa do Ministério Público Federal de fiscalizar cursos privados de Medicina no Acre após os resultados alarmantes do Enamed.
O MPF é, sem dúvida, uma instituição fundamental na defesa do interesse público. Mas também é parte da engrenagem estatal que, historicamente, ajudou a sustentar o mesmo status quo que agora se vê questionado. Há aqui um fenômeno curioso e revelador: uma instituição burguesa sendo levada a confrontar os efeitos de um modelo igualmente burguês de mercantilização da educação. Uma espécie de autofagia institucional, em que o sistema passa a devorar as próprias contradições.
A fiscalização é necessária, urgente e legítima. Mas ela também expõe uma pergunta desconfortável: por que só agora? Por que foi preciso que avaliações nacionais escancarassem o óbvio — cursos caríssimos, formação precária e riscos sociais reais — para que o Estado agisse? Quantas turmas se formaram antes disso? Quantos estudantes se endividaram? Quantas comunidades ficaram à mercê de profissionais mal formados?
Do ponto de vista sociopolítico, o que vemos não é ruptura, mas reação tardia. O Estado não questiona o modelo, apenas tenta conter seus excessos mais visíveis. Não enfrenta a lógica de mercado que transforma o sonho em mercadoria; apenas corrige quando o produto começa a comprometer a própria legitimidade do sistema.
Ainda assim, a ação do MPF abre uma fresta. Mostra que nenhuma engrenagem é totalmente imune às pressões da realidade. Cabe à sociedade, sobretudo aos que sempre ficaram fora desses espaços de privilégio, empurrar essa fresta para que vire porta. Porque fiscalizar é necessário, mas transformar é urgente. E o Acre não pode mais pagar o preço de um modelo que exclui, lucra e só reage quando o problema já está posto.
*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre
