A conjuntura política no início dos anos 80 do século passado, ou seja, há mais de 40 anos, justificava plenamente a luta pelas eleições diretas nas Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil. O momento legitimava essa modalidade de escolha dos seus dirigentes, a justificativa fundamental era a luta pela autonomia das Universidades.
Fui o primeiro Reitor eleito no Brasil, salvo engano, sou um dos responsáveis pela luta pelas eleições diretas nas Universidades. O momento histórico exigia essa atitude.
Nós, professores universitários, participantes ativos desse movimento passamos a ocupar o nosso espaço com mais intensidade com a liberdade que a plena democracia nos propicia.
Os financiadores das Universidades, sejam públicos ou privados, consideram acima de tudo a capacidade de execução desses recursos, e só dessa forma a valorização da Instituição se torna o ponto alto. Qualidade acima de tudo.
À época, visitamos Instituições na Amazônia peruana que faziam pesquisas em laboratórios cobertos de palha juntamente com membros de comunidades indígenas onde aprendiam a adaptar tecnologias tradicionais com novas tecnologias na agricultura. Pesquisadores de alta qualificação e de nível invejável, uniam o compromisso com a tecnologia em benefício das comunidades.
Os tempos mudaram, no final dos anos oitenta o país começou o processo de redemocratização com a reorganização dos movimentos sociais. Surgem novos partidos e com eles o direito livre de escolha dos cidadãos por qualquer linha política ou ideológica a seguir. Novos tempos, o sentimento de liberdade prevaleceu no Brasil.
Porém houve um efeito colateral que perdura por quase cinquenta anos nas Universidades “A Partidarização”. Hoje a eleição direta nas Universidades passou a ser tão promíscua quanto qualquer eleição municipal em qualquer recanto do nosso país. Conchavos, alianças espúrias, favores e compromissos que tiram a necessária impessoalidade para uma gestão séria, e competente. Deixando no campo secundário o grande objetivo de uma Universidade que é a Universalização do Conhecimento onde Política e Ideologia são ciência e não ideologia partidária.
Nos processos eleitorais das Instituições públicas observamos que as bandeiras políticas estão velhas e superadas. O que nos interessa saber não é o prometido mas o como fazer. Os apadrinhamentos políticos na busca de recursos dificilmente deixarão de exigir algo em troca que, de uma forma ou de outra só irá alimentar a dependência dos gestores das Instituições. O Reitor não deve fazer da Instituição um trampolim político, a sua ambição deve ser pela academia a qual precisa produzir ensino de qualidade, geração de conhecimentos com pesquisas de bom nível.
Universidade é vanguarda, não deve ser atrelada de fora para dentro, a obrigação da Universidade é fazer a leitura crítica do ambiente político, social, econômico e apresentar alternativas de solução, jamais ser manipulada pelo ambiente externo.
Não se produz conhecimento pintando meio fio o construindo chafariz, mas com qualidade e compromisso com a comunidade que nos sustenta. Universidade não se atrela a sindicatos, o movimento sindical deve acontecer fora dos muros da Instituição a qual pode ser chamada para assessorar o movimento como vanguarda, nunca atrelada a ele.
A escolha do Reitor deve, na minha opinião, ser escolha de um colegiado com um peso substancial de participação dos professores e com um peso menor para funcionários, quanto aos alunos coloco a participação em discussão, tenho restrições. No perfil do gestor deve ser considerado o fato de que ser doutor não qualifica ninguém para ser gestor. O perfil do professor Dr. Deve ter o maior peso, da mesma forma que ser médico não o qualifica para gestor de hospital.
Os conchavos internos na oferta de cargos para angariar votos são negativos, esse procedimento não permite que os mais qualificados exerçam cargos como pró-reitores, etc. O perfil gerencial da Instituição fica mais parecido com o de qualquer município e bem distante de um Instituição de Ensino Superior. Para agravar esta tendência um dos erros mais negativos foi a instituição da reeleição para reitores o que colocou a gerência da Instituição negociável para garantir uma reeleição, o que aumentou consideravelmente, os conluios internos e externos.
Hoje considero fundamental que esse processo de escolha seja repensado, não tenho uma solução, mas considero que esse debate deva ser retomado, tenho convicção que o modelo atual está superado, levando a partidarização das universidades.
Considero este texto apenas uma reflexão e uma tentativa de repensarmos o nosso papel acadêmico, Universidade é, acima de tudo, o nosso grande arsenal com todos os aparatos necessários para viabilizar as mudanças que este mundo precisa.
