Há “males que vêm para o bem”

Há “males que vêm para o bem”

Quantas vezes você não ouviu o ditado: há “males que vêm para o bem”. Embora se afirme ser uma expressão dos mais antigos, arrisco a dizer que tal afirmação se faz tão presente, quanto o sol que iluminou os 365 dias do ano, e que se finda ou a chuva que castiga a Bahia. Entre os fenômenos da natureza e outros fenômenos, o coronavírus chegou como um raio.

Esse raio que atingiu um país após o outro sem classificar nível social, fechou fronteiras, escolas, obrigou trabalhadores a produzirem a partir de home-office, além de um isolamento social, com cinemas e restaurantes de portas fechadas. O mundo sucumbiu ao minúsculo vírus deixando no ar muitos questionamentos, respostas que ainda hoje buscamos do fundo do coração.

Em meio a um tsunami e imaginando não haver frestas para novas oportunidades, várias comunidades tradicionais de terreiro, do catolicismo, do Islã, dos evangélicos e do judaísmo se transformaram em buscas para reflexão sobre a vida. As religiões tiveram que repensar seus modelos estruturais e passaram a serem realizadas no campo tecnológico, menos centradas e dependentes de lideranças. O novo normal.

A casa voltou a ser um lugar sagrado.

Se é que podemos dizer que a pandemia teve um legado, a empatia foi o nosso maior desafio. Aprendemos a cuidar de nós mesmo e a pensar na vida do vizinho. Tivemos que pensar na fé, na relação com as pessoas, na vida comunitária. Essa foi a grande lição: “olhar” outros humanos com respeito. Mera coincidência com o modelo de vida desenvolvido há milênios pelos Incas? Essa nação que viveu à frente do seu tempo afirmava que “o universo criado e ordenado atua em diferentes planos e distintas funções de uma série de espíritos superiores que reagem com as forças da natureza, facilitando ao homem o sustento assegurado pela convivência em grupo. A pandemia trouxe a necessidade de uma profunda reflexão sobre a vida em comunidade.

Essa crise de saúde pública também revelou os maiores problemas do país e do mundo. A maior convivência em casa aumentou a violência contra a mulher. O Estado não foi capaz de resolver os problemas trazidos pelo isolamento social. Enquanto uma parcela da sociedade comeu mais carne, outra passou fome. A pobreza cresceu. A religião mediou grande parte desses conflitos levando a mensagem de se repensar os “valores” que orientam as decisões pessoais e coletivas. Os políticos debateram, embora, sem aprofundamento, sobre “uma nova sociedade”.

Podemos, então, afirmar que a pandemia foi um mal que nos fez bem?

Se pensarmos que essa não foi a primeira vez que o mundo sucumbiu a uma peste ou praga, em quantos problemas nós já enfrentamos na vida, os dissabores que surgiram na jornada, obstáculos que foram superados de uma maneira ou de outra, podemos afirmar que sim, estamos evoluindo para nos transformarmos em novas criaturas. Deixamos o individualismo para viver em uma sociedade coletiva, deixamos de lado o “eu” e construímos o “nós”. Fomos educados pelos efeitos do vírus a colaborar e competir menos.

Que pós-pandemia queremos ou podemos ter?

O ser humano caminha a passos largos para viver com o essencial. A crise imposta pelo modelo econômico vigente é cruel. O capitalismo que estimula o consumismo está sendo repensado. Uma nova classe se insurge, que defende sustentabilidade. Cuidar do planeta é a grande ordem. A ciência começa a produzir conhecimento a favor da vida.

A proposta é de profunda reflexão sobre um novo modelo de vida, o ser humano precisa valorizar a cultura da paz e do respeito.

A fé é o caminho a ser seguido. Deus é capaz de revelar esperança para hoje, amanhã, em todos os momentos. É a base segura de um mundo doente, inseguro. Encoraja nosso coração e a nossa razão para a tomada de decisões, para a percepção de que não estamos sozinhos. É preciso comunicar esperança.

Jairo Carioca é jornalista, assessor de imprensa.
Atualmente coordena a Rede Aldeia de Rádios FM, é ancora do programa Cidadania que tem o quadro Papo de Cafezinho.