..::data e hora::.. 00:00:00
gif banner de site 2565x200px

ARTIGOS

Impostos: o Brasil cobra mal — e quem paga mais é quem tem menos

Impostos: o Brasil cobra mal — e quem paga mais é quem tem menos

Quando o imposto incide sobre o que se come, sobre o que se veste e sobre o combustível do ônibus velho que leva alguém ao trabalho, o sistema deixa de ser apenas técnico, ele se torna desigual na prática. Porque consumo não é escolha, é sobrevivência. E quem vive com menos renda gasta praticamente tudo no básico. Isso significa que, proporcionalmente, paga mais.

Na prática, criou-se um cerco difícil de ignorar: paga-se para ter, paga-se para consumir e paga-se para produzir. O problema não é a existência desses impostos, toda economia funcional depende deles. O problema é o desequilíbrio. No Brasil, o peso recai justamente onde a renda é mais apertada: nos pobres.

Esse modelo é regressivo. E isso não é uma opinião, é uma característica mensurável. Quanto menor a renda, maior a fatia comprometida com tributos indiretos. O sistema, que deveria equilibrar, acaba ampliando a desigualdade que diz combater.

Enquanto isso, a tributação sobre renda e patrimônio, que poderia corrigir parte dessa distorção, tem participação menor do que poderia. Não se trata de aumentar o imposto de forma indiscriminada, mas de redistribuir melhor a lógica de cobrança.

Existe um argumento comum de que países desenvolvidos prosperaram porque cobram menos impostos. Isso não se sustenta quando olhamos os dados. Muitos deles cobram tanto quanto ou mais. A diferença está em dois pontos: onde se cobra e o que se entrega.

Nesses países, o consumo básico tende a ser menos penalizado, enquanto a renda e o patrimônio têm papel mais relevante. E, principalmente, há retorno percebido: serviços públicos funcionam, a infraestrutura existe e as regras são claras. O imposto deixa de ser apenas custo e passa a ter sentido.

No Brasil, a sensação dominante é outra. Paga-se muito e entende-se pouco para onde o recurso vai. E isso corrói a confiança no sistema.

A crítica ao Estado também precisa ser feita com precisão. Há, sim, um ambiente hostil para quem produz: burocracia excessiva, complexidade tributária e insegurança jurídica. Isso encarece o crescimento e desestimula quem tenta avançar.

Mas reduzir o problema a "o Estado é o inimigo" simplifica demais a questão. O ponto central não é apenas o tamanho, é a eficiência. Um Estado que cobra muito e entrega pouco é um problema; mas um Estado ausente também não resolve. Desenvolvimento exige equilíbrio institucional, não ausência.

O que parece cada vez mais evidente é a necessidade de reequilibrar a estrutura. Reduzir o peso sobre o consumo e aumentar a progressividade sobre renda e patrimônio não é radical, é um ajuste lógico.

Porque, no fim, a discussão não é sobre ser contra o imposto. Nenhuma sociedade funciona sem arrecadação. A questão real é outra: quem está pagando a conta e se isso faz sentido.

Hoje, no Brasil, a conta continua chegando primeiro para quem menos pode pagar. E isso não é só ineficiente: é insustentável, é pouco inteligente e é injusto!