Existe algo de profundamente perverso no cotidiano. Não a perversidade cinematográfica, escancarada, violenta e barulhenta. Mas aquela silenciosa, fria e socialmente aceita. A perversidade do “não me importo”. A do olhar que atravessa o outro como se ele fosse invisível. A do coração endurecido que aprende, todos os dias, a conviver com a dor alheia sem sentir absolutamente nada.
Foi impossível não pensar nisso ao presenciar uma cena simples, dessas que acontecem diariamente em Rio Branco, mas que revela muito sobre o que estamos nos tornando enquanto sociedade.
“Me ajuda, moço. Compra umas pastilhas para ajudar em casa. Tenho uma mãe desempregada e dois irmãos. Nosso pai foi embora.”
A frase saiu da boca de um adolescente de apenas 14 anos, parado na saída de um supermercado, segurando pequenos drops para vender. Não havia revolta em sua voz. Nem vitimismo. Apenas necessidade. Apenas fome disfarçada de tentativa de dignidade.
O garoto abordou um homem que saía de um carro de luxo — luxo para os padrões acreanos, é verdade — e ouviu, sem sequer receber um olhar de volta: “Não tenho.”
A resposta não foi cruel pelo conteúdo. Foi cruel pela indiferença. O homem respondeu enquanto conversava com outra pessoa, como quem afasta um mosquito. O menino sequer existiu naquele instante.
Minutos antes, eu havia comprado algumas pastilhas e perguntado se ele estudava. Disse que sim. Frequenta a escola pela manhã e passa a tarde inteira tentando ajudar a sustentar a casa. Fica até às 20h esperando que alguma sobra de humanidade apareça entre uma compra e outra.
E talvez seja exatamente esse o retrato do nosso tempo: crianças aprendendo cedo demais o peso da sobrevivência, enquanto adultos desaprendem completamente o significado da compaixão.
Vivemos numa sociedade adoecida. E não apenas economicamente. O adoecimento é moral, emocional e espiritual. As pessoas estão cansadas, embrutecidas, egoístas. Todo mundo fala sobre ansiedade, depressão, saúde mental, mas quase ninguém fala sobre a ausência brutal de empatia que corrói as relações humanas.
As redes sociais transformaram dor em espetáculo. A miséria virou paisagem urbana. O sofrimento alheio passou a ser tratado como incômodo. E talvez o mais assustador seja isso: a naturalização da frieza.
Jesus, em João 13:34, deixou um mandamento que parece cada vez mais incompatível com o mundo moderno: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.”
O chamado cristão nunca foi sobre discursos prontos ou religiosidade de aparência. Sempre foi sobre ação. Sobre enxergar o outro. Sobre repartir. Sobre servir. Sobre se incomodar com a dor de alguém.
Mas o ser humano moderno quer falar de prosperidade sem falar de solidariedade. Quer ostentar fé sem praticar misericórdia. Quer postar versículos enquanto ignora gente passando necessidade na sua frente.
É difícil admitir, mas estamos falhando como coletividade. E não, o problema não é apenas daquele homem do carro de luxo. Ele é apenas reflexo de algo muito maior. O egoísmo virou método de sobrevivência social. As pessoas aprenderam a proteger tanto o próprio mundo que já não conseguem sentir o peso do mundo do outro.
Enquanto isso, um menino de 14 anos continua na porta de um supermercado tentando vender pastilhas para colocar comida dentro de casa. E talvez a pergunta mais desconfortável não seja sobre ele. Talvez seja sobre nós.
