John Locke e sua luta pela tolerância religiosa

John Locke e sua luta pela tolerância religiosa

Em nossa civilização contemporânea convivemos com as mais variadas diferenças, isso se perpassa desde as culturas, línguas, tradições e costumes. Em meio a esse contexto suplicamos pela uniformidade para convivermos de maneira harmoniosa, sem infringir a liberdade do próximo, no intuito de conservar e manter a sociedade plena, republicana, ou seja, enaltecemos o conceito de democracia e consequentemente nos distanciamos da barbárie e do caos. Tal introdução pode soar “clichê” ao leitor, já que somos instruídos a contemplar direitos e deveres, sendo eles o alicerce de nossa cidadania.

No entanto, devemos ter humildade suficiente em saber que houve um pioneiro, um indivíduo no qual lutou por muitos direitos que usufruímos atualmente. Logo, aproveito a citação de Isaac Newton, escrita 1675 –“Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes." Meu foco neste artigo não é falar do feitos (que são muitos) do filósofo iluminista, não desmerecendo o autor, longe disso... Busco descrever a situação religiosa vigente no mundo que, infelizmente, assola vários países de diferentes continentes. Usamos exemplos dos casos da África e do Oriente Médio. Ambos sofrem por conflitos religiosos com perseguições e genocídios. Nessa situação desumana se encontram os cristãos que mais sofrem, e os praticantes do Islã que mais perseguem e abominam uma religião contrária.

A esmagadora maioria da perseguição cristã, no entanto, evidentemente ocorre em nações de maioria muçulmana. De acordo com a World Watch List 2019 [WWL] da Open Doors , que pesquisa as 50 nações onde os cristãos são mais perseguidos, “a opressão islâmica continua a afetar milhões de cristãos”. Em sete das piores dez nações, a “opressão islâmica” é a causa da perseguição. “Isso significa que, para milhões de cristãos – particularmente aqueles que cresceram muçulmanos ou nasceram em famílias muçulmanas – seguir abertamente a Jesus pode ter consequências dolorosas”, incluindo a morte.

Entre os piores perseguidores estão aqueles que governam de acordo com a lei islâmica, ou Sharia. No Afeganistão (classificado em segundo lugar), “o cristianismo não é permitido existir”, diz o WWL 2019, porque “é um estado islâmico por constituição, o que significa que funcionários do governo, líderes de grupos étnicos, autoridades religiosas e cidadãos são hostis em relação aos” cristãos.

"A perseguição cristã” em níveis próximos do genocídio” é o título de um relatório da BBC de 3 de maio, onde cita um longo estudo provisório ordenado pelo ministro britânico das Relações Exteriores, Jeremy Hunt, e liderado pelo reverendo Philip Mounstephen, bispo de Truro.

Segundo o relatório da BBC, uma em cada três pessoas em todo o mundo sofre de perseguição religiosa, com os cristãos sendo “o grupo religioso mais perseguido”. “A religião corre o risco de desaparecer em algumas partes do mundo”, observou, e “em algumas regiões, o nível e a natureza da perseguição estão chegando perto de alcançar a definição internacional de genocídio, de acordo com a adotada pelo governo.” UN.”

Diante dos dados alarmantes mencionados, buscamos refúgio ao pensamento do médico e filósofo britânico John Locke. O seguinte autor vivenciou algo semelhante enquanto esteve em vida e até mesmo sofreu consequências por manifestar sua contrariedade ao sistema político totalitário da época ao ponto de ser exilado da Inglaterra e fugir para a Holanda. Sendo ele, o primeiro da safra dos liberais clássicos, considerado por muitos, o pai do Liberalismo Político, partindo dele o anseio pela liberdade individual do homem (individualismo), causando a ruptura entre estado-indivíduo e respectivamente estado-igreja.

Seguindo em uma abordagem analógica, ambos os períodos compartilham do mesmo aspecto, no que tange aos magistrados (Estado), possuírem poderes absolutos ao ponto de oficializar, “legalizar” apenas uma religião a ser seguida pela sociedade vigente, com a recusa do conceito de estado laico, comete-se erros evidenciando conflitos e abalos nos pilares sociais. Foi o que ocorreu no cenário presenciado pelo autor, quanto presenciado pela atual conjuntura. Locke criticava ferrenhamente o governo na questão religiosa, pois o magistrado é tal falível o quanto, não cabe a ele ou não existe um critério lógico para o próprio escolher a conduta religiosa da população/súditos. Comprova-se que a história vai muito mais além de que teoria, nos servem de lições. O respectivo autor estava à frente de seu tempo.

Vale ressaltar que John Locke era protestante, em seu contexto, era a religião predominante na Inglaterra, isto é, não serviu de motivo para se esconder ou concordar com as atitudes tomadas pelo estado, pelo contrário, o impulsionou a manifestar seu posicionamento e ideais na obra: Um Ensaio Sobre a Tolerância (1667), cuja foi escrita em pleno regime monárquico, onde o pensamento político predominante era de caráter teológico, significando que, todo poder obtido pelo rei era advindo de Deus, ou seja, se opor contra o rei, seria automaticamente uma oposição a Deus, cometendo assim, uma das maiores heresias – a blasfêmia, tal ato repugnante ao ponto de vista do “status quo” resultaria em perseguição, prisão e até mesmo morte. O objetivo da obra escrita pelo autor seguiu no âmbito de defender a liberdade em questões religiosas, independentemente de crenças, fé, as escolhas são algo exclusivamente de responsabilidade do indivíduo, e não do estado. De fato, são preceitos óbvios em pleno século XXI, mas como já mencionado, houve um histórico, um processo para chegarmos à noção de liberdade, partindo da retrospectiva vivenciada por John Locke, cabe a nós valorizarmos a herança conquistada com muita bravura e “suor”!

 

*Dartaian Freire é graduando em Filosofia na Universidade Federal do Acre