No fundo do poço e cavando

No fundo do poço e cavando

Fiz meu ensino médio em escola técnica. Era um prédio grande na margem da rodovia que levava para a capital. Para a gente chegar lá, a escola mantinha um serviço de ônibus executivos que eu pegava a duas quadras de casa.

A concorrência para conseguir estudar no Colégio Técnico de Jundiaí era enorme, mesmo abrindo algumas centenas de vagas todos os anos. O 'vestibulinho' era no Bolão, um ginásio de esportes com capacidade para mais de dez mil pessoas sentadas. E as arquibancadas lotavam.

Quando as aulas começaram, lembro que nossos pais foram chamados para uma reunião com o diretor no auditório recém construído, de onde saíram com uma única certeza: se fossem chamados novamente na escola era porque o filho foi expulso.

Ali a gente podia fumar, mas raros eram os que fumavam mesmo sendo moda da época. Podia namorar, mas ninguém namorava colega da turma. Podia até ficar fora da sala se não estivesse a fim de assistir a aula. Só não podia bebida alcoólica, mas nunca soube de uma vez que revistaram nossos armários dispostos ao longo dos cem metros de corredor, cada um com um cadeado fajuto e metade deles com algum destilado para aquecer as noites viradas em claro fechando trabalhos na sala de desenho.

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Na caderneta de frequência tinha um capítulo das normas onde era grafada em negrito a regra de ouro da escola: LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE.

Tenho absoluta certeza que quem pensou aquela escola não era um discípulo de Jean-Paul Sartre ou de Friedrich August von Hayek. Mas aqueles três anos deixou na gente muito mais que os conhecimentos da física, álgebra ou topografia.

Certamente naquele período eu cultivei alguns valores liberais que trago até hoje.

Durante os anos seguintes, já na universidade, vi a inflação no Brasil na casa dos 100% ao ano, depois 200, 300… enquanto os movimentos estudantis discutiam a pauta do 'abaixo o FMI' e o calote na dívida pública.

Formado, trabalhando no Acre, vi a inflação chegar aos 2500% ao ano com sucessivos pacotes econômicos que tiravam três zeros do dinheiro e mudavam o nome da moeda. Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro (novamente), Cruzeiro Real, com congelamentos de preço, fiscais do Sarney e confisco da poupança, até que o país conseguiu debelar a praga com as medidas que culminaram no Real. Isso faz 28 anos, a partir de quando a inflação raramente passou dos 10% ao ano.

Descobri que, enfim, tínhamos saído do cheque especial, do parcelamento no cartão de crédito e da dependência dos agiotas graças a alguns fundamentos de RESPONSABILIDADE que passaram a ser caros à política econômica do país desde então.

Nessas três décadas de estabilidade houve períodos de bonança mas também crises severas na economia internacional, relativamente bem superadas internamente.
Mesmo a roubalheira fartamente documentada pelo mensalão e petrolão e a caridade do BNDES com caloteiros cubanos, venezuelanos e afins não foram suficientes para provocar um abalo tão grande na economia quanto o que vemos ocorrer hoje quando a responsabilidade fiscal é posta de lado. A inflação anual já passou dos 10% (números que só vimos em 2002 e 2015) e as medidas paliativas para contornar o aumento dos preços não têm lastro nas receitas do orçamento.

Preocupa hoje a facilidade que a classe política flerta com o populismo e o clientelismo. Ora são alguns bilhões para o financiamento de campanhas, ora são mais algumas dezenas de bilhões para emendas sem transparência, agora outras dezenas de bilhões para subsídios em época eleitoral.

Seria bom que nossos parlamentares lembrassem como era o tempo da hiperinflação. Quando a conta do supermercado quase que dobrava entre o dia do salário e o final do mês.

Independentemente de quem ganhe a próxima eleição, terá um ambiente econômico bastante conturbado para arrumar se não quiser que novamente sejamos reféns da agiotagem. Ou se dá um freio na irresponsabilidade ou o Brasil quebra de vez.

Como os liberais costumamos repetir, 'não existe almoço grátis'. Como aprendi nos tempos do colégio, liberdade e responsabilidade andam sempre juntas.

Na próxima quinta-feira, dia 7 de julho, às 19h, o Livres, juntamente com o União Juventude e Liberdade - UJL e o Students For Liberty - SFL realizam um encontro aberto no Guapo Café com a apresentação do documentário Real 25 anos: Muito além da moeda.

*Roberto Feres é Engenheiro Civil, mestre em Engenharia Urbana, doutor em Ecologia e coordenador do movimento Livres no Acre.