A cada ciclo eleitoral, uma transformação curiosa — e previsível — toma conta do cenário político brasileiro: o súbito surto de empatia, humildade e proximidade com o povo. É o período mais “fraternal” do calendário para aqueles que desejam se reeleger e também para os que sonham em conquistar, pela primeira vez, um cargo público.
Nas ruas, o roteiro se repete com precisão quase coreografada. Políticos que passaram anos distantes das comunidades reaparecem em feiras livres, mercados populares e bairros periféricos. Distribuem sorrisos, apertam mãos calejadas, abraçam moradores e, sem cerimônia, pegam crianças no colo — pouco importa se estão com o rosto sujo ou com o nariz escorrendo.
O gesto, carregado de simbolismo, é rapidamente registrado por assessores atentos e difundido nas redes sociais como prova de “humanidade”.
Não falta também o tradicional pastel ou salgado de feira, consumido em meio ao povo, como um ritual de aproximação. A cena é quase sempre acompanhada de frases ensaiadas sobre “origem humilde” e “compromisso com os que mais precisam”. Para muitos eleitores, no entanto, a dúvida é inevitável: onde estavam essas figuras nos últimos anos?
Para os que buscam o primeiro mandato, o espetáculo ganha outro tom — mais promissor, quase messiânico. Surgem discursos inflamados, repletos de soluções rápidas para problemas históricos. Prometem salvar a saúde, revolucionar a educação, acabar com a violência e gerar empregos em escala quase imediata. Tudo parece possível no palanque. Tudo parece simples no papel.
O problema é que a realidade costuma ser bem menos generosa do que a retórica eleitoral. Governar exige mais do que boa vontade e frases de efeito. Exige planejamento, responsabilidade fiscal, articulação política e, sobretudo, continuidade — algo que raramente se sustenta após o encerramento das urnas.
O eleitor, por sua vez, assiste a esse ciclo se repetir a cada dois anos. Entre o ceticismo e a esperança, muitos ainda se deixam levar pelo carisma momentâneo ou pela promessa sedutora. Outros, mais atentos, observam o comportamento fora do período eleitoral como verdadeiro termômetro do compromisso público.
Ano de eleição, no fim das contas, revela menos sobre quem o político diz ser e mais sobre o quanto está disposto a parecer aquilo que o eleitor quer ver. Entre abraços calculados e promessas grandiosas, cabe à sociedade separar o gesto genuíno da encenação — tarefa difícil, mas essencial para que a política deixe de ser espetáculo e passe, de fato, a ser serviço.
