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ARTIGOS

O amor da mulher também se cansa; ela não vai embora de repente, desiste aos poucos

O amor da mulher também se cansa; ela não vai embora de repente, desiste aos poucos

Há uma romantização perigosa sobre o amor feminino. Criou-se a ideia de que a mulher nasce com uma espécie de resistência infinita para suportar ausências, silêncios, friezas, promessas quebradas e homens emocionalmente imaturos. Como se amar fosse um sacerdócio silencioso e eterno. Mas não é. O amor da mulher também se cansa.

E talvez ele canse justamente porque, quando é verdadeiro, exige muito dela. Há mulheres que têm como ofício se apaixonar. Não no sentido banal da dependência afetiva, mas naquela capacidade rara de enxergar beleza antes mesmo de ela existir completamente. Mulheres que acreditam, que apostam, que insistem.

Elas veem o homem pequeno e imaginam nele grandeza. Veem confusão e tentam organizar. Veem feridas e oferecem abrigo. Mas isso só deveria acontecer — como diria a velha sabedoria da vida — quando o cidadão merece.

Clarice Lispector escreveu, certa vez, que “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”. Talvez porque, no amor, muitas mulheres tenham aprendido a se mutilar emocionalmente para caber na ausência emocional dos outros. Diminuem a própria luz para não constranger quem não sabe brilhar. Engolem palavras para evitar conflitos. Fingem não perceber descasos para preservar o que já está ruindo.

O amor feminino raramente acaba de repente. Ele vai adoecendo aos poucos. Morre em pequenas parcelas: numa mensagem ignorada, numa indiferença repetida, numa humilhação disfarçada de brincadeira, num esforço que nunca encontra reciprocidade. A mulher geralmente não deixa de amar primeiro; ela deixa de acreditar.

Nietzsche dizia que “não é a falta de amor, mas a falta de amizade, que faz os casamentos infelizes”. Talvez ele tivesse razão. Porque toda mulher apaixonada deseja ser amada, mas também deseja ser vista. Não apenas desejada em dias convenientes. Não apenas procurada na solidão da madrugada. Vista. Com profundidade. Com respeito. Com presença.

O problema é que muitos homens se acostumam ao amor recebido como quem se acostuma com a eletricidade da casa: só percebem sua importância quando ela falta.

E ela falta porque nenhuma mulher consegue sustentar, para sempre, uma relação em que apenas ela rega a terra. Nenhum coração permanece fértil sendo constantemente negligenciado. O amor exige troca, atenção e cuidado — coisas simples que muita gente desaprendeu.

Há mulheres que passam anos tentando salvar relações sozinhas. E isso é exaustivo. Elas lutam até o limite porque amam de verdade. Mas existe um momento em que até o sentimento mais bonito começa a se transformar em sobrevivência emocional. E ninguém deveria viver um amor em que precisa sobreviver o tempo inteiro.

Simone de Beauvoir escreveu que “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. Em muitas relações, o silêncio feminino acaba virando cumplicidade involuntária com aquilo que a machuca. Não por fraqueza, mas porque amar também nos torna pacientes demais.

Quando uma mulher se cansa, quase nunca faz escândalo primeiro. Ela silencia. E o silêncio feminino no amor é uma espécie de despedida lenta. Primeiro, ela para de reclamar. Depois, para de insistir. Em seguida, para de esperar. E então, um dia, vai embora emocionalmente antes mesmo de o corpo sair pela porta.

Quem vê de fora chama de frieza. Mas ninguém assistiu às guerras internas que ela enfrentou antes de desistir.

O amor da mulher é profundo, mas não infinito. Ele resiste muito, talvez até mais do que deveria. Porém, quando encontra desprezo constante, acaba aprendendo algo doloroso: amar alguém não pode significar abandonar a si mesma. E talvez essa seja a reflexão mais madura sobre o amor: não basta que ele seja verdadeiro. É preciso que ele encontre merecimento do outro lado.