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ARTIGOS

O câncer social da invisibilidade. Um feliz Ano Novo aos que se indignam

O câncer social da invisibilidade. Um feliz Ano Novo aos que se indignam

O câncer social me atrai não pela curiosidade mórbida ou pela tentativa de explicar, de forma simplista, as trajetórias individuais de quem vive em situação de rua. Ele me atrai porque revela, de maneira crua, o fracasso coletivo de uma sociedade que escolheu conviver com a marginalização como se ela fosse paisagem urbana. Trata-se de um submundo que não nasce do acaso, mas da exclusão sistemática de seres humanos tornados invisíveis.

Essas pessoas são invisíveis para o poder público, para grande parte da sociedade e, muitas vezes, até para aqueles que passam apressados por elas todos os dias. Pouco se importam com suas histórias, suas dores ou suas ausências. Afinal, sem documentos, essas pessoas sequer entram na fila para exercer a democracia. O voto — símbolo máximo da cidadania — nunca lhes pertenceu. Não escolhem representantes do povo porque, na prática, nunca foram escolhidas por ninguém.

A exclusão não é apenas social; é também política. Governadas pela ausência do Estado, essas vidas seguem à margem dos direitos mais básicos. As “Casas do Povo”, como a Câmara e a Assembleia Legislativa (Aleac), raramente se abrem para quem não tem endereço fixo, sobrenome influente ou voz institucional. As portas permanecem fechadas, enquanto discursos sobre inclusão ecoam apenas entre paredes climatizadas.

Como jornalista, registro quase diariamente a fluidez desses passos pelas ruas da capital. Caminham como zumbis dos filmes americanos — não por ficção, mas pela realidade brutal da fome, da dependência química, da abstinência e do abandono. São pessoas que não terão mesas fartas nem discursos ensaiados prometendo mudanças no próximo ano. E, se conseguirem chegar até lá, chegarão apenas para continuar sobrevivendo.

Enquanto a vida passa, a pobreza cresce. Crescem também os vícios, o sofrimento da abstinência e o desalento. Em contrapartida, políticos batem palmas, comemoram estatísticas, inauguram obras e discursam sobre progresso, ignorando aqueles que dormem sob marquises, calçadas e viadutos. A miséria não cabe nos relatórios oficiais, mas ocupa cada esquina da cidade.

Diante desse cenário, cabe a pergunta inevitável: quem somos nós para julgar? O ensinamento bíblico em que Jesus defende a mulher adúltera permanece atual ao lembrar que, antes de apontar o dedo, é preciso olhar para si. Cada indivíduo carrega seus próprios pecados, frequentemente camuflados sob o falso moralismo, a hipocrisia social e a indiferença coletiva.

A população em situação de rua não é fruto do acaso nem resultado exclusivo de escolhas individuais. É consequência direta de decisões estruturais, políticas públicas falhas e de uma sociedade que aprendeu a conviver com a miséria sem se indignar. Enquanto essas pessoas forem tratadas como invisíveis, continuarão existindo à margem — lembrando, todos os dias, que o maior câncer social não é a pobreza em si, mas a naturalização dela.