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ARTIGOS

Quando o Acre perde a esperança, o povo volta a olhar para quem já conhece sua dor

Quando o Acre perde a esperança, o povo volta a olhar para quem já conhece sua dor

Existe uma característica muito própria do Acre que quem vem de fora dificilmente entende. Aqui, política nunca foi apenas disputa de poder. Política, no Acre, sempre foi também uma relação de confiança, convivência e memória afetiva. As pessoas se conhecem pelo nome, sabem de onde vieram, lembram das histórias, das lutas, dos tempos difíceis e, principalmente, de quem esteve presente quando o estado mais precisou.

Talvez por isso exista um sentimento silencioso crescendo pelas ruas de Rio Branco, pelos mercados de Brasiléia, pelas conversas nas calçadas de Xapuri, Cruzeiro do Sul ou Sena Madureira. Não é apenas saudade. É comparação.

Nos últimos anos, o Acre foi se acostumando com uma política barulhenta, agressiva, baseada muito mais em disputa ideológica do que em capacidade real de resolver problemas. Enquanto isso, a vida do acreano foi ficando mais pesada. A violência avançou, a saúde passou a sobreviver no limite, o jovem perdeu perspectivas e o interior voltou a sentir aquele abandono que parecia ter ficado no passado.

E quando um povo começa a perder a esperança, ele naturalmente procura referências que transmitam segurança.

É exatamente nesse ponto que a volta de Jorge Viana ao centro do debate político ganha força emocional e simbólica.

Não se trata apenas de um ex-governador tentando retornar à cena pública. O que se percebe nas agendas recentes, nas caravanas pelo interior e no contato direto com a população é outra coisa: uma tentativa clara de reconstruir vínculo humano com um estado cansado de promessas vazias.

Jorge conhece o Acre profundo. Conhece a linguagem do seringueiro, do pequeno produtor, do comerciante da fronteira e do trabalhador que acorda cedo para enfrentar ônibus lotado e salário apertado. E isso faz diferença. Porque o acreano pode até discordar politicamente, mas dificilmente respeita quem demonstra não conhecer sua realidade.

Além disso, há um fator que pesa ainda mais neste momento: experiência.

Depois de anos vendo representantes transformarem Brasília em palco de redes sociais, cresce a sensação de que o Acre perdeu voz, influência e capacidade de articulação nacional. Jorge Viana, gostem ou não dele, nunca foi um político pequeno. Foi governador, senador e presidente da Apex-Brasil. Aprendeu a dialogar com o mundo sem deixar de falar a língua do povo acreano.

E talvez seja justamente isso que parte da população esteja procurando agora: alguém que consiga unir sensibilidade popular com capacidade real de abrir portas para o estado.

Num Acre ferido pelo desalento, pela insegurança e pela sensação de atraso, a possível volta de Jorge Viana passa a representar, para muitos, não apenas uma candidatura ao Senado, mas a esperança de que o estado volte a ter rumo, presença e dignidade política.

Porque no fim das contas, aqui no Acre, o povo ainda acredita numa coisa muito simples: quem conhece nossa dor talvez tenha mais condições de ajudar a curá-la.

*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre