Sobre esperança, faíscas e revolução

Sobre esperança, faíscas e revolução

Lembro de na minha não tão distante adolescência, no meio de uma leitura, perceber a seguinte frase (hoje fornecida ipsis litteris pelo Google) que "a esperança é a única coisa mais forte que o medo. Um pouco de esperança é eficaz, muita esperança é perigoso. Faíscas são boas enquanto são contidas". E não é que é verdade?

Naquele tempo, eu nem imaginava que estava lendo uma obra explicitamente política. O meu foco, naquele momento, era a ação, um pouquinho do romance e deixei essa parte como segundo plano, apenas um cenário.

E não é que, depois de anos, o cenário é o personagem principal e motivo do meu interesse pela série de livros a que pertence?

Sim, amiga leitora e amigo leitor, é sobre colocar uma referência de literatura infanto-juvenil de boníssima qualidade no texto. E a culpa é do amigo Luciano Tavares, que ao fazer o convite, disse que queria uma "voz jovem" para falar por aqui. E é isso. Aqui vos fala um jovem jornalista de 26 anos sem muitas paixões e muita necessidade de entender a realidade que habita.

Tudo bem. Feita a apresentação, podemos voltar para o assunto inicial.

Podemos dizer que a inserção de muita esperança acaba sendo uma arma perigosa.

A esperança, enquanto em doses homeopáticas, funciona como combustível da rotina, uma força motriz para os dias ruins, um aguardo de que "construções melhores" vem por aí. O grande perigo é que a quantidade de esperança determina o tamanho da frustração. E a frustração, meus amigos, chega a ser aflitiva e até mortal. Ela enterra projetos, estagna processos, enfraquece colunas e elimina ações. Ou seria… elimina agentes?

De todo modo, torna-se crucial manter agentes com capacidade de fazer com que faíscas continuem... faíscas. A indiferença dada a esses pontos merecedores de atenção causa o início de pequenos focos de incêndio, e muitas vezes resulta em trágicos acidentes que alteram o percurso.

A frustração, quando regada por uma esperança renovada e redirecionada, faz nascer novos sentimentos, inclusive o de mudança. É quase uma revolução.
Revolução que nasce de um foco, dois focos, três focos, até que todos estejam alcançados por aquele sentimento já citado; aquela sensação (já ouvi dizer que até nostálgica) de que dá pra ser melhor, dá pra ser ouvido, dá pra fazer funcionar… a sensação de esperança.

Aos poderosos que gostam de usar essa esperança como moeda de negociação, cuidado. A revolução pode estar sendo capitaneada pelas suas próprias palavras.

Ah, pais, presenteiem seus adolescentes com a saga Jogos Vorazes.

Aliás, leiam Jogos Vorazes.

* Vinícius Charife é um jovem jornalista acreano que muito observa, muito ouve e, (in)felizmente, muito se expressa.