Tudo Azul

Tudo Azul

O Mágico de Oz é um conto de fadas que ficou popular na atuação da menina Dorothy (Judy Garland), que percorreu a longa estrada de tijolos amarelos junto com seus três amigos anti heróis, o Leão Medroso, o Homem-de-Lata Sem Coração e o Espantalho Sem Cérebro, até a Cidade das Esmeraldas, em busca do mago que tinha poderes para levá-la de volta para casa.

Acho que todo mundo já assistiu o filme meia dúzia de vezes na Sessão da Tarde (Warner Bros, 1939).

Quando vejo essa moda de pintar os caminhos de azul ou vermelho, a primeira imagem que me vem à mente é a estradinha que levou a trupe até o tal mágico que não tinha poder algum. Era só uma fraude da propaganda.

Outro dia propus, numa brincadeira, que pegássemos cadeiras de roda para circular pelas calçadas do centro de Rio Branco. Quem conseguisse dar a volta completa em uma quadra ganharia um sorvete. E veja bem que ali é onde foram feitos os maiores investimentos em calçadas e adaptações de acessibilidade nas últimas duas ou três décadas.

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Se sair um pouco da região central, não se caminha vinte metros sem deparar com um degrau, um buraco ou até uma edificação que ocupou o espaço do pedestre.

Motoristas reclamam com razão da qualidade do pavimento, mas pedestres nem caminho têm para transitar na cidade.
Falar de mobilidade urbana em Rio Branco é quase uma piada de mau gosto.

Houve época, lá para trás, que os projetos de melhoria das ruas puseram ciclovias nos principais corredores de trânsito. Reza a lenda que conquistamos um lugar no Guinness Book de ter a maior malha proporcional de ciclovias entre as cidades brasileiras.

Com o tempo, sem manutenção adequada, muitas delas se incorporaram ao trânsito geral, às faixas de estacionamento ou perderam as condições de trafegabilidade pelo lixo depositado e a buraqueira que servem mais para furar pneus e provocar quedas dos ciclistas.

Mas a discussão que divide a opinião das pessoas é se as ciclovias e faixas pintadas devem ser azuis, da direita bolsonarista, ou vermelhas, da esquerda lulista, embora isso já tenha sido regulamentado pelo Conselho Nacional de Trânsito há mais de quinze anos (ciclofaixas são vermelhas pela Resolução Contran 236/2007 e os espaços reservados aos pedestres têm se consolidado na cor azul).

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Sinalizar trânsito é bom e tem regras. Uma das principais é a padronização e por isso há um conjunto de Manuais de Sinalização* oficiais da agência nacional que regula essa área.

Entretanto, o problema de mobilidade em Rio Branco não se resume à cor das ciclovias ou dos cruzamentos de pedestres no centro da cidade. Temos questões bem mais urgentes que essa. Calçadas com qualidade, segurança e conforto são, sem dúvida, a principal delas.

Em 1900, quando Lyman Frank Baum escreveu seu conto de fadas, nossa querida Rio Branco ainda era um vilarejo em frente de uma gameleira frondosa onde Neutel Maia amarrou seu barco. Talvez se conhecesse a cidade que construímos nesses últimos cento e vinte anos ele tivesse posto seus personagens fugindo da Bruxa Má do Oeste por ciclovias azuis que seguem paralelas a calçadas ruins por onde pessoas não conseguem andar.

(*) Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito https://www.gov.br/infraestrutura/pt-br/assuntos/transito/noticias-senatran/manual-brasileiro-de-sinalizacao-de-transito-1