“Off the rails” - Quando viver ou não é instituído pelo tribunal paralelo do tráfico

“Off the rails” - Quando viver ou não é instituído pelo tribunal paralelo do tráfico

Quando viver ou não é instituído pelo tribunal paralelo do tráfico de drogas tem algo mesmo “off the rails” ou fora dos trilhos – falando em português – nossa língua oficial.

A operação deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público Estadual, no último sábado, 2, nos estados do Acre e Tocantins, batizada como “fora dos trilhos” mostrou que mesmo o Acre figurando entre as federações que mais reduziu o número de mortes violentas intencionais (38% em 2021), isso não refletiu no poder de mobilização das facções.

Tanto que no andar de cima, enquanto os grupos políticos disputaram incessantemente novas filiações na chamada janela partidária, na outra ponta, nas zonas onde o Estado pouco se faz presente, a disputa era por “novos batismos”, as filiações de faccionados. Qualquer semelhança é mera coincidência. A operação focou exatamente na expansão das organizações criminosas através do arrebanhamento de novas lideranças para o tráfico de entorpecentes dentro dos bairros considerados “pontos quentes” em Rio Branco, Brasileia, Epitaciolândia e Sena Madureira.

Os delegados que comandaram a operação não dizem se isso foi em retaliação aos comandos de “salve geral” dados pelas facções em um suposto fim do pacto de paz que provocou uma nova onda de assassinatos na região do Alto Acre e na capital.

Veio à baila mais uma vez o debate em torno do que está por trás dessa chamada “diplomacia” entre os grupos rivais. O secretário de justiça e segurança pública, Cel. Paulo César, nega veementemente a existência de um pacto entre os dois principais grupos: Comando Vermelho e Bonde dos 13. Atribui a baixa dos índices de criminalidade às ações estratégicas da gestão, entre elas, o trabalho integrado entre o Grupamento de Fronteira (GEFRON) e o Programa Vigia do governo federal.

Na verdade, nunca se apreendeu tanto entorpecentes, em ampla maioria, pasta à base de cocaína nessa região próxima da Bolívia e Peru, países que impulsionados pela Colômbia são os maiores produtores de coca do mundo. Isso é fato, mostra o aperfeiçoamento da atuação policial e o resultado dos investimentos em inteligência.

Oitenta por cento da cocaína produzida na Bolívia é consumida no Brasil. Estudos mostram que essa pressão exercida pelas forças de segurança nas estradas na apreensão de drogas enfraquece o poder de financiamento do crime organizado. Cada quilo apreendido de cocaína refinada significa um prejuízo de R$ 25 mil às facções (SÁ, 2018a).

Porém, os estudos também apontam que o recorde de apreensões de drogas nas rodovias federais é resultado da crise no modal aéreo durante a pandemia. E ainda, que enquanto a polícia atuou firmemente nas estradas, os rios se transformaram nas grandes rotas para o tráfico de entorpecentes. Mesmo com todo esforço dos governos a droga continua chegando na ponta.

As organizações criminosas exploram as diversas vulnerabilidades existentes para atuarem na região. Em Rio Branco, um fato vem chamando atenção: a chamada ‘pacificação’ que supostamente tira as polícias dos bairros.

A regra é tão dura para evitar presença das forças de segurança nas regionais que avisos são espalhados nos locais de maior fluxo de pessoas. O exemplo em destaque é da região do Calafate, no bairro Waldemar Maciel. O muro da escola Juvenal Antunes, na esquina da rua Aracaju serviu para o aviso: “quem roubar no bairro é óbito”.

A estratégia das facções foi reforçada sargento Paz, da PM do Acre que em vídeo, mostrou uma pichação do Comando Vermelho em uma creche do conjunto Universitário em Rio Branco ameaçando ladrões na comunidade. “Proibido roubar. Sujeito a pagar com a própria vida”, alerta a facção. Paz fez duras criticas ao que chamou de “analistas de gabinete”, chamando atenção para a realidade.

No dia a dia, os moradores precisam seguir as regras e até mesmo agir fora da lei para não se tornar um alvo dos bandidos. Em alguns casos, são obrigados a guardar armas e drogas sem burlar a lei do silêncio. Os comerciantes pagam pela paz, através de cotas diferenciadas de acordo o tamanho do comércio.

Burlar a lei do silêncio, traição, roubo, estupro e até mesmo a desobediência a uma determinação do tráfico podem levar a pessoa a julgamento.

Enquanto esse café amargo segue sendo servido nos bairros periféricos da capital, na política a resenha é janela partidária. A única soma feita pelos deputados e senadores tem sido a de coeficiente eleitoral.

Jairo Carioca é jornalista e assessor de imprensa.
Estar na coordenação da Rede Aldeia de Rádios FM.