Eu sei de um segredo que ninguém mais sabe

Eu sei de um segredo que ninguém mais sabe

Eu sei de uma coisa que é segredo meu e das rosas. Eu sei de uma coisa que ninguém mais sabe, porque o que é só da gente não nos escapa facilmente, como uma lágrima que se chora por qualquer besteira. O que sei me ajuda a penetrar na minha própria fonte. Todo mundo tem um olho de fonte sagrada, o que não é nenhum segredo. Recentemente passei a testemunhar milagres, antes eram apenas “por acasos”, mas agora eu sei, o tempo muda as estações e não importa a escolha que se faça sobre a cor do vestido ou a fragrância do perfume. O segredo é a palavra secreta. 

Copo d´água ou flores?
Sonhei que não amava ninguém e era tão bom, porque eu amava o mundo inteiro e assim eu era feliz. Antes de dormir peço ao anjo que me envie uma palavra pelo copo d’água que tomo todas as manhãs antes de pensar em falar qualquer coisa a alguém. Todos os dias recebo uma palavra e a possuo, seguro-a na mão o dia inteiro, pesa feito tufo de algodão depois de algumas horas nas costas, mas depois passa e ela germina, vira rama entre meus dedos. Não desejo para as pessoas outra coisa que não seja a palavra, assim: quando alguém me diz bom dia, respondo: flores! A reação das pessoas é a coisa mais estranha e com isso a palavra é pertencida ao mundo ao som e à luz. Entre mim e a palavra, a sombra. Não gosto de sufocar a palavra em pote de vidro seco. A palavra já vem solta.

Uma história
Com a palavra crio histórias que são só minhas. Um dia desses criei uma menina e dei vida a ela, menos nome, porque não gosto muito de dar nomes a pessoas, porque elas mesmas se dão, a história foi tão breve que a menina não teve tempo de dizer, mas o eu sou basta para se contar uma história. Quando digo eu sou, é porque já estou existindo. O ministério é o fato de eu viver e saber que existo? Me aproximo das árvores para saber o que de mim vem da terra, observo os pássaros, querendo sentir alguma aproximação maior com o infinito. Criei o pai (fascinado pelos segredos da luz, era pintor), a casa (de dois pisos em madeira) em que moravam com a empregada (uma moça que veio lá do Nordeste com seu vocabulário), o cachorro louco, o terreiro de areia bem fininha, as galinhas ruivas e os pássaros saracoteando no pé de planta perto da janela. A menina era órfã e por isso criei o tio, a tia e a prima para que a menina tivesse uma história, embora não precisasse disso, depois criei o padre (a menina tinha medo da fúria de Deus), a professora tonta, o marido envergonhado e por fim criei a voz da mulher que contava a história da menina (ouvi-a em meus ouvidos, com sua respiração). Depois, dei vida à mãe morta, foi assim: o pai contou um segredo dela para a empregada, do seu jeito, terminou dizendo, “não bastava ela ser mulher”. Sem correr direito o relógio da parede, fiz a menina crescer na mente dela mesma, mas era a mulher que contava a história falando dentro da cabeça dela (me confundi, perdi o verso), fiz a menina abandonar as brincadeiras infantis, ela não gostou muito da primeira ideia. Sofreu na vida de adulta, esposa, vivia chorando pelos cantos, depois sonhava e nos seus sonhos tinha penas, ovo e canções. Depois matei o pai (nunca se soube de quê, a mãe já era morta) e, finalmente, a menina virou mulher de verdade, mas antes disso algo aconteceu que a fez ver que não era nem menina, nem mulher. A menina passou a fazer coisas horrendas, se apossou dela o espírito do demônio na forma de víbora diabólica, a mais ardil do jardim. Menina malvada. 

Magia
Eu tenho um espelho enfeitado que comprei da Deusa e nunca fui apanhar. Tenho cartas de tarô em que do mesmo modo me vejo. Cada pessoa traça seu próprio destino e eu estou tentando traçar o meu. O espelho não mente. Agora, aos cinquenta, senti fortemente a presença da morte, mas não dei atenção a ela, de vez em quando ela me assusta com mensagens simbólicas, dizendo-me o que fazer para chegar bem e pura até ela, mas eu não ligo. Tudo que aprendemos nos ensina a morrer, esse é o nosso verdadeiro destino, o grande buraco negro da vida. As estrelas me chamam e o vazio me separa dela, então fecho os olhos e desejo...

MORDIDA

Desenho: Beatriz Bentes (insta: @beatrzbentes)

Desejo
Desejar não é querer. Desejar é maior do que a força do pecado e tem o mistério dos olhos fechados (“Fecho meus olhos e vou”, ouvi essa frase um dia desses no rádio). Desejar é desde-já, como o instante que, depois de vivido, nunca morre. Desejei a eternidade, o poço fundo do medo que me paralisa. Desejei voar só para insultar a gravidade com minhas asas tenras. Desejei me banhar nas águas da palavra. Desejei penetrar cada gota e, no mergulho mais fundo, descer no lugar do impossível e beijar a boca da palavra que ainda não foi dita, porque estava sendo gestada no útero da mãe. Desejei ser a libélula (em criança chamava a libélula de zig). Desejei correr perigo, afundar e ser salva pelos cabelos no último suspiro. Desejei ver meu próprio corpo molhado pela água dos céus da palavra. Desejei ouvir a explosão das profundezas através da harpa estonteante da Rainha do mar. Desejei não cair, mas, se me fosse ao chão da palavra, que me machucasse apenas as mãos para que eu pudesse ver sem tocar no meu destino. Desejei ter a boca bem grande para comer o néctar da palavra. Desejei que os ventos fossem bravos temporais e, assim que me lavassem os pés, surgisse das sombras assombrações da fúria dos meus olhos malignos. Desejei que muitas palavras nascessem do chão totalmente despido e ressecado e que outras não tivessem nenhuma utilidade, apenas uma vaga lembrança, mas que surgissem da contemplação e apenas existissem como um vaso no silêncio do escuro. Desejei eu mesma ser a palavra. Se eu fosse uma palavra, qual seria? Se eu fosse a palavra lado, mal caberia no contorno das nuvens. E se um dia me sufocasse com a palavra mais pura, que eu não morresse de prazer ou de dor, porque a pureza é uma assassina. O abismo da palavra é grande e fundo como um hífen. O que procuro debaixo do véu da palavra? Desejo a palavra e, por um instante, a vida me parece tão natural. A verdadeira palavra não cabe na boca, então não falo, é segredo meu e das rosas.