Manifesto da menina muda

Manifesto da menina muda

Era agosto de 2020 quando uma menina ficou grávida, fora abusada sexualmente desde os 6 anos de idade pelo tio e aos 10 abortou. A família conseguiu na Justiça a autorização para interromper a gestação de aproximadamente 22 semanas. O nome da menina fora revelado em rede nacional, todo mundo ficou sabendo do pecado dela pela boca dos que falavam em nome de Deus. Na frente do hospital, pessoas enlouquecidas gritavam e, quanto mais gritavam, mais despiam a menina de sua fugaz inocência. Era tanto grito que o mundo inteiro era do tamanho do grito, só a menina estivera muda.

O “por trás” do grito
Imaginei com tristeza “o por trás do grito”, enquanto a menina entrava nervosa na sala de cirurgia, ainda límpida e cheia de candura. Não vejo como não pensar com terrível temor nas palavras que escurecem o mundo e nos segredos que elas escondem. A não palavra é a entrelinha ou é o silêncio? Calada, sei que não morro, aprendi a falar sozinha. Que estas palavras sirvam como queixa e protesto das meninas e mulheres estupradas pelos homens todos os dias, agora mesmo, enquanto você me lê, uma menina, em algum lugar do mundo, está sendo estuprada.

Tudo é palavra
A menina ficou seca, emudeceu e por isso não ligava as coisas puras com as impuras. Não se pode falar a palavra aborto, o aborto que esconde o incesto, o abuso, porque dizem que é coisa de “ideologia de gênero”. Os que levantam a voz, condenam a vítima, cegamente.

Em nome de Deus, não abusem das meninas! 
Como uma menina pequena pode se livrar de um abusador dentro da própria casa? Menina estuprada tem olhos de morto, quem já viu? Quem olha para uma, de algum modo procura vida em alguma parte do corpo, mas não tem. Em geral se pensa que, numa situação como essa, morrer por dentro é mais fácil, mas as coisas fáceis são sempre as mais difíceis. É preciso que a sociedade fale, sem pudor, sobre isso. A criança nunca é culpada pelos excessos dos adultos, tampouco pode pagar, com o pouco que ainda lhe resta de vida, por eles.

Estorvo da hipocrisia
Tudo é palavra para que a coisa possa existir. A palavra é o olho do cego, mas é preciso fechar os olhos para ver. O aborto da menina balançou os alicerces do lar, da família, da igreja. A gestação precoce foi como um estorvo na cara da hipocrisia. A menina sequer sabia o que era desejo, sexo e, se gemia, era de dor, não de prazer. Emudecida, a menina só pensava palavras que a própria boca era proibida de pronunciar, e, ainda que falasse, falasse, falasse, eram só palavras, até mesmo para ser testemunha da sua própria desgraça nos tribunais sua palavra não tinha serventia e até porque, depois do infortúnio, a menina passou a sofrer de delírios. Quem iria acreditar numa criança doida? A mudez da menina dizia tudo, sem precisar mentir.

O aborto
Os fanáticos gritavam na porta do hospital. Os gritos condenavam a menina pelo usufruto do direito que lhe é assegurado por lei. O silêncio é um direito garantido ao agressor. O homem, esquecido pela multidão que gritava lá fora, fugiu para outra cidade. O que tem de novidade na fuga de um agressor? Num instante, sob cuidados médicos, a menina abortou. Depois do escândalo do aborto, todos ficaram mudos. É o sistema. Nesse tipo de sistema, a mulher só tem serventia de pernas abertas e boca fechada. Oh, Deus, salve-nos.

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Desenho: Beatriz Bentes (insta: @beatrzbentes)

Olhando a paisagem
Pode parecer loucura falar de uma coisa e depois da outra, mas preciso dizer para desfazer o nó cego de linha de pescador da minha garganta. Na volta para casa, tomei um UBER. 

O chofer foi-me traçando um pensamento que em nada me surpreendeu, muito pelo contrário, a gente sempre se depara com um homem definindo os limites do corpo de uma mulher. 

Me perguntou se eu ia bem e, quando respondi que eu ia melhor do que a maioria dos brasileiros que passam fome, foi logo dizendo: o melhor para o Brasil é acabar com esse STF, agora deu para mandar no Presidente, ora essa! 

Depois, sem ver nem para quê, disse: eu sou contra o aborto, onde já se viu defender um absurdo desses? Pois sou contra, disse bravo olhando para trás na tentativa de me ver, fingi que estava contemplado a cidade. Andar em Brasília é o mesmo que correr numa esteira, a gente anda, anda e a paisagem continua a mesma. Nem bem se dar conta, chega-se ao destino.

O homem teceu com linha de pescador um nó cego na minha garganta, engoli seco. Depois, falei que trabalhava com meninas mortas (menti, mas era um pouco de verdade). Disse-lhe: essa semana vi uma menina de 3 anos que foi estuprada pelo padrasto, seus olhos tinham morrido, no lugar do globo ocular era um buraco terrível e impenetrável, só quem viu consegue compreender, não é coisa de se imaginar só ouvindo as palavras lançadas pela boca.
Semana passada, me contaram a história de uma jovem que foi estuprada por um desconhecido na rua, engravidou. Mesmo com o direito ao aborto garantido, alegaram questões religiosas no hospital. 

O homem me olhou arregalado e disse, se isso tivesse acontecido com minhas filhas (tenho três pequenas) eu teria matado o estuprador, do mesmo jeito que fez um fulano - contou a história de um pai que estava preso, não acreditei, porque sua reação veio logo depois que eu disse, meio ingênua sobre o assunto: pois é. 
A vida e a morte quando se cruzam em determinadas circunstâncias causam arrependimento, pensei. Nem entendi direito o que eu tinha pensado, estava olhando a cidade e pensava em como o arquiteto planejara aquelas paisagens de pedra.

Estupro no Acre
Em 2020 foram registrados 321 estupros no Acre, sendo que 199 casos eram vulneráveis, o que correspondeu a 35,9 vítimas para cada 100 mil pessoas residentes no Estado, bem acima da taxa nacional, que foi de 28,6. (Anuário Brasileiro de Segurança Pública - Fórum Brasileiro de Segurança Pública (forumseguranca.org.br)
Dados do SINAN/SESACRE informam que, em 2020, os estabelecimentos de saúde registraram 385 atendimentos de vítimas, do sexo feminino, de violência sexual. Em 2021, foram registrados 486 casos. O município do Acre que apresentou a maior taxa, ou seja, quantidade de registros proporcionais ao tamanho da população do sexo feminino, foi Assis Brasil, seguido de Brasiléia e Xapuri, três municípios pertencentes à regional do Alto Acre. Chama a tenção que mais de 15% dos estupros cometidos contra meninas e mulheres são por pessoas desconhecidas. Os dados do Anuário de Indicadores de Violência e Criminalidade do Ministério Público do Acre.

É importante dizer que há um número muito expressivo de subnotificações, ou seja, casos ocorridos sem que haja qualquer registro de denúncia nas delegacias. Em 2016, analisei os dados de ocorrências de violência doméstica e sexual do SINAN, oriundos das Fichas de Notificação Compulsória de Doenças e Agravos de Saúde, depois confrontei esses dados com os colhidos em Notícia Crime da Polícia Civil. O resultado foi que 1.184 vítimas (de 2008 a 2015) constantes do banco de dados do SINAN não apareciam no banco de dados da Polícia Civil. Não sei se esse descompasso já foi resolvido.