Manifesto loucas e bruxas ou feminismo poético

Manifesto loucas e bruxas ou feminismo poético

Senti o sopro da vida quando recebi o convite para compor o time de colunistas do Jornal “Notícias da Hora” na condição de uma voz feminina. O que pensa, faz e sente uma mulher? O mundo público, oficialmente, foi reservado ao homem na origem da acumulação primitiva do capital. O corpo da mulher foi dessacralizado e relegado à vida privada, ou melhor, ao fogão e a cama. Em “O martelo das feiticeiras: Malleus maleficarum”, célebre manual redigido durante a caça às bruxas na Idade Média, informa que ocorreram mais de 100 mil execuções de mulheres por seus conhecimentos e comportamentos inadequados aos ditames do poder político dos homens. É uma importante referência histórica para reposicionar o papel da mulher na vida pública. Complementa-se a essa visão a tese de Silvia Federici “Calibã e Bruxa: Mulheres, Corpos e Acumulação Primitiva”. Recomendo as leituras.
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Imagens da Inquisição capturadas na internet

Tudo começa na loucura
O mundo parou para mim quando me disseram que eu estava louca. Uma mulher inadequada, fora da realidade. Cedo ou tarde a gente dá de cara com a vida, e viver em si já não é uma loucura? Antes de confrontar a razão com a verdade a gente aceita resignada em culpa e pudor os padrões determinantes daquilo que é útil e nos colocamos inteiramente no lugar da loucura.

À ferro e fogo ou mimimi
Por anos a fio acreditei que a realidade estava marcada a ferro e fogo na vergonha reprimida do meu corpo, o qual é proibido mostrar para não atentar contra o sistema, é a lei. Não pode isso, não serve aquilo, não cabe aquilo outro, cuidado com a língua, sentir além do normal é diabólico, paixões têm limites. Tem um bando de gente por aí falando um monte de blábláblá, dizendo que é mimimi. Esse é um tipo de sujeira que se esconde na base do patriarcado estrutural.

Um animal adestrado não cria
O capitalismo europeu colonizou nossos corpos com dor e sofrimento, nos impôs o medo diabólico dos nossos próprios ciclos naturais, nos queimou nas fogueiras santas e nos domesticou para servir como mercadoria barata no injusto mercado competitivo. Um animal adestrado não cria.

O corpo de uma mulher
Ignorada e ignorante, amputei pernas e braços, arranquei com desapreço útero e coração, escondi as ancas, sufoquei o talento, controlei o raciocínio para não despertar a bruxa-louca ancestral. Pensei que, calada, manteria meu corpo desencantado e assim me salvaria. O que eu não sabia é que, no corpo de uma fêmea ferida, há igualmente uma força bruta ainda maior, mais selvagem e sagrada que conserva o corpo da mulher em chamas.

Se resiste é louca, se reage é bruxa
O corpo da mulher foi separado das suas propriedades místicas e é essa mitologia da bruxa-louca que nos contam sobre os nossos corpos que resistem e lutam contra a violência racista, sexista e misógina. Deus-me-livre falar dessas coisas, até em pensamento me abala. Existiria outro mito da matéria iluminada para o corpo da mulher? Se resiste é louca; se reage é bruxa. Para uma mulher, qualquer instante que se viva é perigoso e isso é naturalmente normal? Resisti como uma bruxa, lutei como uma louca.

O que torna uma mulher tão abominável?

A violência contra as mulheres no Brasil
No Brasil, cerca de 4 mulheres são vítimas de feminicídio por dia; a cada 2 minutos uma mulher é espancada e a cada 8 minutos uma criança é estuprada; o rendimento da mulher corresponde a pouco mais de 60% do que recebem os homens no mercado de trabalho, ainda que tenha maior grau de instrução; elas ocupam apenas 37% dos cargos de gerência e correspondem a 16% dos cargos de vereadores eleitos em 2020 e, se for preta, pobre e trans, a condição é muito, muito pior, no entanto não se trata de uma condição (IBGE/gênero).

É uma história
Receio que já cheguei na terra devendo algo para alguém, o qual não posso dar nem a mim mesma na imaginação: um corpo-baú de mil segredos retalhados, era assim que eu censurava aquela pureza infantil, a sexualidade, os desejos, os sonhos e a beleza inefável, até que em súbito descontrole no meio da rua gritei.

O grito
A hora se separou da avenida, o céu se abriu e o rio corria dentro da cidade paralisada. Os desconhecidos me olhavam com nojo. Alguém perguntou com açoite: ela é doida? Pois foi o grito sujo que me salvou, foi ele que atravessou inflamado o meu corpo e fez tudo parar por um instante; o grito libertou a palavra sufocada que me fizera prisioneira até aquele dia.

O ovo
Num suspiro, o ovo espatifou-se no ar e o relógio rodou absoluto. Fui assaltada por lembranças: a infância, a vó e a fogueira junina. Tudo que existe é palavra, mito, símbolo e história.

Feminismo poético
E foi assim que nasceu o feminismo poético que me alucina até hoje. Se calar é grave. Eu bem que poderia ter respondido: Não, ela ama a vida! Sou uma contraventora do amor, não o amor sentimental romântico, mas o amor energia, genuíno de um coração que pulsa pela viva como o tic-tac do relógio.

A palavra e a carne
Descobri que a palavra liberta a alma. Uma alma liberta luta com o vigor de uma ave que desafia a gravidade para se manter unida aos ares. O grito também é uma navalha que corta a carne e, no entanto, cura o animal ferido.

Os anjos caídos
A verdade da razão é que sou uma mulher, mas o que é uma mulher? Como saberei, se não sou inteiramente livre para viver os meus próprios ciclos, se me negam o direito ao voo? Sem ser em si estarei [eu] vivendo? Ora, viver não é mesmo uma loucura? Quem estaria endemoniado, então, se todos se encontravam no jardim antes dos anjos caírem?

As flores murcham
Depois de certa idade, não antes de me ferir – pois até mesmo na primavera flores murcham –, compreendi que a loucura dilacera o próprio corpo e depois sai costurando no húmus os pedaços invisíveis que o capital destruiu.

O livro mágico
Se me contaram por livros como me tornei louca e bruxa, não seria através de uma nova fábula que se contaria a verdade sobre o corpo louco da mulher? Existiria no mundo um livro mágico que despertasse o poder da fêmea em gestação?

A mulher de mil nomes
Não tenho mais medo de submergir nas profundezas. Em liberdade, o corpo político da mulher cura os traumas do casamento, da procriação, do estupro, do aborto, da prostituição, do salário injusto e de outras violências. O corpo intuitivo liberta a fêmea arquetípica, a mulher dos mil nomes. Livre, o corpo sábio vira raiz e semente, é o ciclo e assim é a vida.

O pacto
Quebrar o pacto, recolher as cinzas, refazer o caminho, atualizar o debate, construir novas pautas, revigorar os ciclos com novos ritmos e ritos, costurar a mulher contemporânea numa nova mitologia integralmente de gênero, provocar eventos milagrosos possuídas de si e livres do demônio da máquina que nos mata todo dia.

O livro é livre
O livro é livre. Meu corpo é um livro que sente e fala. Do meu livro já colhi sete histórias, cada história uma mulher, cada mulher três mistérios, cada mistério um livro com sete histórias, cada história uma mulher, cada mulher três mistérios e cada mistério em um livro, com sete histórias, cada história uma mulher, cada mulher três mistérios e cada mistério em um livro com sete histórias, cada história uma mulher, cada mulher três mistérios e cada mistério em...