Minha mãe

Minha mãe

Todo mundo nasce de uma mãe. No fim, somos todos filhos e filhas e é assim que o milagre da vida acontece.

Pérolas
Eis que, no início de uma primavera cruviana, a minha mãe escureceu, gélida. Uma parte da alma dela queimou no mesmo raio que atingiu o corpinho do meu irmão, depois de uma brincadeira de bola no campinho de futebol perto de casa. A alma da mãe que pertence ao filho foi embora. Nesse dia ela não teve lágrimas nos olhos, era outra coisa, como pérolas secas que não caem, não caem. Foi com susto que recebi essa fotografia do Marcos Vicentti que cobre a página que ora escrevo

Espelho
Meu rosto é igualzinho à foto do meu irmão morto.

Fatalidade
A tempestade daquela tarde de julho causou uma tragédia na minha família. Meus pais caíram em terrível e abalado sofrimento. Meu pai era ambulante; minha mãe limpava chão. Não tinham dinheiro para pagar o funeral do menino. Pela primeira vez subiram as escadarias do Palácio, também era a primeira vez que pediam alguma coisa a alguém no mundo que até então desconheciam: a cidade e suas alcovas.

Trovoadas chamam as lembranças até hoje. Cobria-se os espelhos para se proteger dos raios.

A cacimba
Tinha uma cacimba na frente da minha casa, era tão pobre aquele lugar para se ter jardim com flores. Tudo para nós era impossível. A justiça parece que não fora feita para os pobres. Minha mãe ficou vazia de tudo e passou a cultivar rosas brancas dentro de latas. O cheiro das rosas é o de sempre. Ela adoeceu severamente dos nervos. Um dia furou a própria mão com a ponta da faca afiada e não sentiu dor, porque já estava ferida. Foi uma espécie de loucura não sentir o corpo inflamado.

O rosto
Dizem que todos os dias as camadas da nossa pele se renovam. Toda manhã ela renascia e, se isso acontecia, é porque alguma coisa morria na noite anterior. Nunca mais seus pés tocaram o chão, era como se seu corpo todo fosse feito de nuvens. Minha mãe foi se desnudando, desnudando o rosto, até perder a identidade. O rosto é identidade? Por que seu rosto estava escondido? É doloroso demais para uma pessoa ser ela mesma? Quem era a minha mãe antes do infortúnio? O que ela escondia depois?

Agora mesmo
Essa história não morre na minha cabeça, se passa agora mesmo, não importa quando é esse agora mesmo. É como um sonho acordado que secretamente é feito de símbolos inexplicáveis. Em criança, eu era mais compreensiva, aceitava tudo como uma fatalidade natural. Hoje, não. Pobres vivem à mingua. A única coisa que não nos tiram é o nosso próprio nome e, mesmo assim, é tão difícil ser eu, olhar para o meu rosto e ver o rosto do meu irmão. Para meu pai, meu irmão era seu caboco.

O Irmão
Meu irmão seria a salvação da família depois que meus pais saíram do seringal para morar na cidade. Era um garoto de educação refinada, virtuoso nos gestos e habilidoso com as palavras, inteligente, calculava de cabeça, fazia dinheiro com trabalho e gentileza. Era romântico, um dia chegou em casa com um rádio. Era tanta doçura nos seus lábios.

O luto
Minha mãe tem hoje 80 anos e nunca parou de sonhar com anjos. É que no céu não tem adulto. Lembro-me de abrir os olhos de madrugada e dar com os olhos nos olhos dela me olhando firme, sem piscar, com tanto amor que doía, o coração dela nunca parou de sangrar por dentro. De vez em quando os olhos se liquefazem como espelhos d’água, mas o que tem dentro ainda são pérolas.

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A primeira e segunda versões de “A Madona de Portlligat” de Dalí de 1949, que retrata Gala como a mãe de Cristo, Fundação Gala-Salvador Dalí, VEGAP, Barcelona, 2018.

Tavó
Os mais antigos do bairro Seis de Agosto conheceram a mulher de mais idade daquela época, sentada numa cadeira de palha, com o pescoço mole pendendo para baixo, balançando as pernas já finas pelo tempo. Tinha mais de 90 anos, com certeza; seu nome era prosaico: Tavó. Numa tentativa de consolo à minha mãe, a velha acenou, lhe dizendo alguma coisa com palavras tão primitivas: esse menino não era desse mundo. Pensei, depois de muito tempo: os anjos nunca morrem.

Caboco
Escrevi um poeminha para meu irmão. Dele, Rodolfo Minari @iranimsailé compôs uma canção que está disponível no álbum “Flor do Astral”: https://www.youtube.com/watch?v=C8DkvCTAuac

No seringal
o primogênito leva o nome de caboco
Caboclo da mistura das raças
preto com índio
filhos de nordestinos
caboco da mistura de cor

Quando o pai chama
com altives
- Meu Caboco!
Está dizendo com doçura
- Olha aí uma porção de mim
solta no terreiro