Por que as mulheres desejam um amante?

Por que as mulheres desejam um amante?

Depois da leitura de um livro, resta lustrar as nuances do que se leu, aquelas coisas que não estão propriamente escritas, mas que despertam um “por que”. Às vezes uma palavra reza a missa inteira, quem escreve sabe. Outras vezes se lê coisas que só acontecem com a gente, dentro daquela história. É a porta no muro deixada pela mão que escreve. Quem lê corre riscos. Comigo aconteceu assim, com Quem Ama Escuta, de Betty Milan: “O meu procedimento, enquanto escritora, é, por um lado, análogo ao do romancista. Ao contar a história de madame Bovary, Flaubert...”. 

Em cena
Ao lançar o romancista na cena, Betty me abriu uma porta. Fui obrigada a reler a trágica paixão de uma mulher adúltera. Emma é uma típica francesa do século 19. Flaubert criou, com sua visão romanesca, a imagem da insatisfação crônica humana, posteriormente batizada de bovarismo pelo filósofo francês Jules de Gaultier. Emma carrega em si o arquétipo da mulher adúltera.

Indagar
Antes de começar uma leitura, devemos indagar, então perguntei, curiosa: por que as mulheres desejam um amante? A matéria prima das histórias de Betty Milan vem da escuta de seus consulentes. Quem Ama Escuta foi cerzido com retalhos de sentimentos, embora não seja somente isso. É comum a gente procurar nas leituras, além de estímulos psicológicos, o sensualismo, as alegrias infindáveis e suas variáveis. O segredo da leitura é ser capturado por ela como quem penetra a mão na água na tentativa de agarrá-la, enquanto o punho cerrado permanece vazio no copo cheio. Em Quem Ama Escuta, entrei desajeitada pela porta dos fundos, mas me foi igualmente divertido. Uma história de verdade é feita em camadas de pedra e vento. Quando se lê com os sentidos, se escuta com a alma. É bom.

Olho de vidro
Não falarei do livro em si, mas daquilo que não estava aparentemente escrito. É o mesmo exercício de olhar as imagens nas nuvens, a gente fica com aquela plumosa sensação íntima de vozes no escuro. Quem Ama Escuta é um tribunal de oralidades sem culpa ou julgamento ou condenação. Vi, no correr das letras, espelhos e luzes tão delicadas que pareciam olhos de vidro. 

A grande trama humana
O livro é uma abertura e só se sabe que está dentro dele quanto lhe roubam as máscaras e a história se apossa de nós com tanta graça e veemência a ponto de desejar seu fim. Sou fraca para fortes emoções. É cada tipo de leitura: pictórica, delirante, tediosa, enfadonha, frustrante, enfim. Sou daquelas que espera com curiosidade a temerosa surpresa do fim, todavia, a satisfação da curiosidade não basta. O anseio da grande trama humana pede mais. Sempre tive medo de dizer adeus quando se fecha uma grande escritura. Tem tantos segredos num livro. Saber demais me assusta, meu cérebro não suporta guardar segredos.

Leitura
Tem um tipo de leitura que só se faz à noite, quando se deita. Entre mim e o livro, o poço, a morte e a salvação. De súbito, o inesperado acontece, a gente passa do lado de leitor para o de ouvinte. Num instante, o leitor se encontra com a grande obra sem tocar na mão de quem a escreveu. É um estado de suprema liberdade e resignação. É o poderoso silêncio oco com seus ecos vibrantes. Aliás, quando se torna uno com a obra, a história acontece no instante em que se lê, como um sussurro de vida que sempre existiu.

Betty, Emma e o romancista
Ler é um exercício diletante. Quem lê procura uma experiência. Não se vai a um passeio sem procurar diversão, não é mesmo? Eu procuro o retumbar de cada estação, as intrépidas paixões, os milagres, a magia. Um dia desses, abri aleatoriamente um livro e vi uma mulher olhando no espelho as suas rugas, feliz consigo mesma; então, passou batom vermelho nos lábios (um pouco caídos pela idade), perfumou-se de flores cítricas porque aquele era o seu cheiro úmido. Depois a imitei, mas não passei batom, no entanto chorei um pouco por me ver tão bonita.

O segredo do artista
Como se escreve uma história? Flaubert se resignou em uma fazenda e passou cinco anos escrevendo a história de Madame Bovary. Trabalhava cerca de 14 horas por dia. Segundo se conta, escrevia e reescrevia inúmeras vezes apenas um parágrafo, num processo lento, doloroso e agonizante de um homem doente e frustrado com o jeito de vida do seu tempo. Era o início da nascente sociedade de consumo, o ápice de uma revolução e a crise da aristocracia do seu país. O romancista rebela sua própria guerra interior e procura destruir o sistema que molda a sociedade burguesa pela traição no casamento. Flaubert balançou as estruturas da época, explorou todos os clichês do romantismo dando vida à mulher adúltera com seu destino trágico. 

A amante
Flaubert teve uma amante (Collet) enquanto escrevia sua obra prima. Conta-se que ele usou a intimidade de amante para conhecer as mulheres. Quem conhece uma conhecerá a todas? O romancista escreveu inúmeras cartas de amor, cujos trechos da relação amorosa são transcritos em detalhes na obra. Há quem diga que ele era um pervertido.

A criação literária
O romancista falava de dentro do pensamento de Emma para que nos sentíssemos como se fôssemos ela. Foi uma inovação. O livro foi censurado, obviamente. A tragédia do desejo dominou a razão. As convenções da mulher casada, de virgem a esposa, foram abaladas pela amante atormentada. Na trama, Emma cumpre sua sina num dia claro de outono. Com doçura e encanto se entrega sem remorso ao amante. É o início da sua loucura. Loucura?

Por que as mulheres desejam um amante? 
Por que as mulheres desejam um amante? por necessidade de completude? pelo instinto natural de encontrar a sexualidade? para ser mais do que a rotina de esposa dominada pelo marido? para sentir a vida, o mundo? para ser livre? Emma detestava o marido que sequer a ouvia, senti o abandono como se o mundo estivesse parado, mas ela acontecia. As coisas não acontecem nas coisas em si, mas nas tensões provocadas pelas intenções das coisas que se entrelaçam no ar, como pernas entrelaçadas na cama. 

A ilusão do amor romântico
A vida pessoal incomum do autor sugere que o amor romântico é ilusório: amor e felicidade não duram. Tom Jobim disse, numa de suas canções, que “é impossível ser feliz sozinho”. Ouvi de um seminarista que é impossível viver acompanhado quando não se sabe viver só. 

Gosto de hóstia na boca
Gosto de escrever, embora não me dê bem com os verbos. Agora, por exemplo, sem sono, escrevi: “hoje amanheci chovendo. quando eu era cega chorava água de poesia. amar fora de perigo”. Secretamente faço versos com essas frases soltas para me libertar. Nunca experimentei uma hóstia, dizem que não tem gosto de nada. Seria o gosto do nada a nossa libertação? O nada seria como ter uma garrafa cheia de vento. O gosto do nada é ensosso e embrulha o estômago. Este ano irei votar para presidente do Brasil com o gosto de hóstia na boca.

Mulher é coisa proibida 
Dizem que escrever liberta a alma. Emma, em Flaubert, procurava um ideal inalcançável. O prazer erótico com a vida não está somente no ato sexual, mas começa antes e nunca mais se acaba. A visão do homem cego e deformado dos delírios de Emma me diz intimamente que a mulher é coisa proibida. Por natureza, a mulher é em si uma coisa proibida, foi assim que nos fizeram, ou não?