Super-Homem, a canção

Super-Homem, a canção

“Sensibilidades” está tocando com afeto os educadores. Recebi uma contribuição e pedido do professor Marcos Inácio (@marcosi) para apresentar o retrato da mulher na composição da música popular brasileira. Todavia, ele alerta: a exceção justifica a regra. Leci Brandão (1944), uma das poucas compositoras musicais, reproduziu a inferioridade e subordinação da mulher no revelador título “Antes que eu volte a ser nada”. Mas a alma feminina foi exaltada com a sensibilidade de Gil, no seu deleitoso Super-Homem, a canção. O professor apresenta o programa “É cantando que a gente se entende” na rádio Difusora Acreana e Pindorama (https://radiopindorama.com.br/).

A eletricidade da vibração
Em “Água Viva”, Clarice Lispector nos ensina que não se escuta música, sente-a na vibração do som. Ela escuta música assim: “apoio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração. Substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos”.

Antes de tudo, ela é uma mulher
Acontece que poucas e raras mulheres saíram da obscuridade em matéria de criação. Camille Claudel, por exemplo, foi surripiada por Rodin e, como íntima resposta à dádiva da escultora, mandaram-na para o hospício, foi dada como louca em seu esplendor, passou para o lado de lá e essa transfiguração é o segredo do artista que não se pode contar, a não ser no domínio da própria arte. A loucura de uma mulher se confunde com a crueza da razão e sensibilidade feminina. A arte liberta o animal que está preso.

Captura_de_Tela_2022-01-11_às_18.41.42.pngCamille Claudel aos 20 anos de idade (1864 -1943). Imagem capturada da internet. (imagem 3: Sakountala, escultura em mármore, 1905 – museu Rodin, Paris).

A matéria é feita de som
A arte é do domínio último da razão. É o belo por natureza, o belo que não é bonito nem feito, apenas perfeito, como uma pedra bruta. A jornalista Socorro Camelo (@socorrocamelo) me disse uma vez que a matéria é feita de música e tinha razão. A música é da categoria divina. Se a gente silencia por breves instantes a mente, escutamos uníssono o som do nosso próprio corpo. São acordes harmônicos incessantes.

A vida imita a arte? Veja a genialidade de Marília
Marília Mendonça escreveu uma bela ópera sertaneja sobre a mulher contemporânea. Revelou-nos. Em seus cinco acordes, a “Troca de Calçada” nos revira pode dentro. O refrão é na primeira pessoa, em tom maior, mais aberto, quando a personagem entra em cena e ganha voz. A primeira parte e a do meio da música é a outra, em terceira pessoa, em tom menor, fechado, triste e introspectivo. Todo mundo passa por ela, de um jeito ou de outro. Seremos todas prostitutas? Marília fora generosa. A riqueza de Marília não fora apenas dela. Marília é estrela maior.

Captura_de_Tela_2022-01-11_às_18.43.44.png Marília Mendonça (1995-2021). Imagem capturada da internet

Manifesto político na música
A musa é inspiração. A música expressa, de forma poética e com rara beleza, o que se passa numa sociedade: cultura, política, economia, religião, costumes que predominam. Porém, é forçoso e doloroso saber que as mulheres, fora do mito, retratam uma trágica realidade de violência, abusos, preconceitos, discriminações, sem disfarçar a crueza e dureza em versos e belezas melódicas.

Ó abre alas, que eu quero passar
O mundo moldado pelos homens serve ao seu próprio usufruto. Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935) conseguiu despontar, foi a primeira a reger uma orquestra no Brasil. Chiquinha envolveu-se com política, lutou pela abolição da escravatura e pelo fim do monarquismo. Era independente e fumava em público, coisa proibida a uma mulher de sua época. Outras despontaram no pós-guerra de 1945 e, depois disso, contam-se nos dedos as mulheres compositoras.

Captura_de_Tela_2022-01-11_às_18.45.11.pngChiquinha Gonzaga. Imagem capturada da internet

Gênero nas composições
O professor Marcos Inácio põe em questão: O olhar masculino, com toda a carga que a cultura patriarcal e machista introjetou na sociedade, é que iria filtrar e reproduzir as relações de poder e de gênero, que estão expressas nas composições. Ele nos presenteia revelando o lado machista de 28 composições, muitas delas clássicas e cantadas por nós em prosa em verso.

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