E AÍ PTOLOMEU?

E AÍ PTOLOMEU?

Sou adversário do governador Gladson Cameli. Isso não é novidade pra ninguém. Faço parte da diminuta Bancada de Oposição ao seu governo na Assembleia Legislativa do Estado do Acre. Apesar de lhe fazer duras críticas, sendo respondido com virulência por seus assessores e jornalistas que atuam a soldo, nunca o tratei com desrespeito ou deslealdade. Eu o respeito como pessoa e como autoridade constituída que é. Gostando ou não, ele é o governador do Acre, eleito pelo povo do meu estado e, como tal, é também o meu governador.

Por ocasião da recente Operação Ptolomeu, deflagrada pela Polícia Federal (PF), com autorização do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e que tem como um dos investigados o próprio governador, além de integrantes da equipe de governo e empresários, devo fazer algumas considerações:

Sempre defendi a correta aplicação dos princípios do devido processo legal, do contraditório, da ampla defesa e da presunção de inocência. E sempre fui crítico da espetacularização da atividade policial e do processo judicial. A garantia da correta aplicação destes princípios é o que desejo, tanto para aliados quanto para adversários.

Mas, no caso da Operação Ptolomeu, há um fato importante: ela foi autorizada pelo STJ, que é por demais criterioso ao avaliar a robustez das provas de materialidade e dos indícios de autoria, o que demonstra a aplicabilidade, ao presente caso, do velho ditado de que, onde há fumaça, pode haver fogo. Além disso, há um fato irrefutável: em toda a história do Estado do Acre, a PF nunca precisou entrar no Palácio Rio Branco, na Casa Civil, no escritório de governo ou na residência de um governador. Sem contar a visita às empresas da família e às casas de parentes próximos.

Não se trata, portanto, de fazer prejulgamentos, de agir de forma vil e leviana como, tantas vezes, nossos adversários agiram contra nós, quando éramos a Situação. Mas, não é de hoje que a Oposição na ALEAC vem alertando o governador sobre indícios de corrupção em seu governo. A ele foram dados dezenas de alertas, sobre os supostos casos de corrupção que estariam acontecendo, possibilitando-o agir e tomar providências para coibir práticas ilícitas. Para a infelicidade dele próprio, ele não as tomou.

Apesar disso, não desejo que aconteça com Gladson o que aconteceu com Dilma ou com Lula: foram vítimas da execração pública e do linchamento moral, decorrente de um prejulgamento midiático, orquestrado por adversários e supostos aliados que, a despeito de não conseguirem lhes derrotar nas urnas, tomaram de assalto setores das Polícias, do Ministério Público e do próprio Poder Judiciário e, com apoio de segmentos do empresariado nacional e da mídia corporativa, utilizaram-se do aparato de Estado, promoveram perseguições políticas e julgamentos iníquos, a partir de processos fraudados, com provas e delações forjadas, a ponto de retirá-los do poder e das disputas eleitorais.

Nesse sentido, da bancada oposicionista, composta por adversários leais (e não por inimigos), o governador não tem nada a temer. Dentre nós, ninguém deseja o mal a ele: ninguém o quer morto ou afastado de seu cargo. Sentimento diferente de alguns de seus aliados, esses sim, verdadeiros inimigos, que o querem ver pelas costas.
Fato é que, diante de tantos indícios, não queremos que Gladson seja reeleito. Mas, não desejamos que seu atual mandato seja interrompido. Queremos derrotá-lo nas urnas, no debate público, segundo as regras eleitorais vigentes, no interior de um processo democrático pleno. No tapetão, jamais.

Daniel Zen é Doutorando em Direito (UnB). Mestre em Direito, com concentração na área de Relações Internacionais (UFSC). Professor Auxiliar, Nível 1 (licenciado), do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas (CCJSA) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Contrabaixista da banda de rock Filomedusa. Colunista do portal de jornalismo colaborativo Mídia Ninja. Deputado Estadual, em segundo mandato, pelo PT/AC. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..