Uma exortação à esquerda do Acre

Uma exortação à esquerda do Acre

O acreano é, como o brasileiro, majoritariamente conservador e de direita. Se, no Brasil, isso é fruto de séculos de colonialismo e escravidão - e causa do racismo, do machismo, da homofobia, da misoginia, do preconceito de classe, da intolerância e de tantas outras formas de discriminação a partir dos quais, dentre outros fatores, surgiu o bolsonarismo - aqui no Acre isso é fruto de décadas de coronelismo e barracão.

No Acre, que detém o segundo menor PIB dentre os estados de nosso país, não há uma casta a quem possamos chamar de elite - comercial, industrial, imobiliária, financeira ou agrícola. Os mais abastados, porém, desprezam os mais humildes tanto quanto os membros da elite brasileira desprezam os mais pobres, como se estes não fossem essenciais para a manutenção do status quo daqueles.

O desejo de boa parte dos menos favorecidos, por sua vez, não é, via de regra, se emancipar, mas sim, tornarem-se sujeitos à imagem e semelhança de seus opressores. Querem, ao mesmo tempo, alguém que lhes provenha (o coronel e seu barracão) e, se puderem - eles próprios - empunhar o mesmo chicote que lhes açoita contra os seus pares, o farão com muito gosto. Como no velho ditado, o sonho do oprimido é tornar-se o opressor.

Sendo assim, pode-se dizer que a sequência de vitórias eleitorais e de governos progressistas ou de esquerda no Acre se deveu muito mais aos nomes dos postulantes aos cargos (e aos seus vínculos com as famílias tradicionais de nossa terra) do que à ideologia de suas respectivas legendas políticas.

Nossos governos progressistas e de esquerda, no Brasil e no Acre, conseguiram alcançar muitos avanços, mas, não rompemos com as estruturas fundantes do nosso atraso econômico, social, cultural e político. Trabalhamos fortemente na inclusão econômica (e fomos bem sucedidos nisso), mas não na emancipação cultural. Não alteramos praticamente nada da estrutura tributária regressiva, que está na gênese das desigualdades sociais e portanto, na manutenção da lógica e da tradição colonialista de nosso país. E, do ponto de vista político, nós tutelamos os movimentos sociais e cooptamos as suas lideranças para os nossos projetos de governo, ao invés de batalharmos, ao lado deles, para avançarmos na consciência de classe.

Além disso, a maioria do povo vota no aqui e no agora. A memória eleitoral existe, mas, dura pouco. Atualmente, faz mais efeito a cantilena de quem destina e faz liberar uma emenda parlamentar (cuja execução é obrigatória) do que a trajetória de quem muito realizou no passado. Os feitos desse mesmo passado já viraram paisagem. Como no ditado popular, bocado comido é bocado esquecido. Não que eu defenda isso ou que isso seja bom. Mas, é o que é. Como diria Chicó, o célebre personagem de Ariano Suassuna, "só sei que foi assim". E, infelizmente, é assim.

É em virtude desse quadro estruturalmente desfavorável que, mais do que nunca, nossas grandes lideranças progressistas e de esquerda não podem se cansar e nem se dar por vencidas. Precisamos continuar disputando eleições, mas também, como antes, o imaginário e os sonhos das pessoas. Não podemos nos quedar aos nossos desejos pessoais ou nos contentar com a comodidade de uma meia-dúzia de mandatos, individualmente conquistados.

Precisamos conseguir refletir sobre os erros do passado para, ao aprender com eles, não os repetirmos no presente e no futuro. E que saibamos fazer, aqui no Acre, como Lula, no Brasil: livre de qualquer legítimo rancor que pudesse nutrir contra seus algozes, em virtude das injustiças por ele sofridas, Lula tem sido a razão da esperança e, portanto, o motor da retomada. Sigamos o seu exemplo.

*Daniel Zen é doutorando em Direito (UnB). Mestre em Direito, com concentração na área de Relações Internacionais (UFSC). Professor Auxiliar, Nível 1 (licenciado), do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas (CCJSA) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Contrabaixista da banda de rock Filomedusa. Colunista do portal de jornalismo colaborativo Mídia Ninja. Deputado Estadual, em segundo mandato, pelo PT/AC. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..