Avesso às redes sociais e à internet: a história de Pelé, o camisa 10 do comércio de revistas no Acre

Avesso às redes sociais e à internet: a história de Pelé, o camisa 10 do comércio de revistas no Acre

Atrás de uma pilha de revistas, livros e discos, Antônio Augusto de Melo (70), o Pelé, mostra com orgulho seu celular antigo sem qualquer sinal de internet. É o reflexo de quem não está nem aí para a tecnologia, a modernidade. Seus momentos mais felizes são entre os mais de dois mil exemplares em um pequeno espaço em sua banca, a Banca do Pelé, na Praça Povos da Floresta, na avenida Getúlio Vargas, Centro de Rio Branco.

Desde 1972, Pelé é a principal referência no ramo de bancas de revistas na capital. Oitavo entre os 11 filhos do casal potiguar João Felipe de Melo e Maria Anastácia de Melo que migrou de Mossoró (RN) para o Acre no início dos 1940 como soldados da borracha, ele é casado com Irani Santos Melo com quem teve três filhos.

Pelé é acreano, nasceu em Rio Branco e foi testemunha ocular de acontecimentos históricos. Ele rememora com nostalgia de uma capital pacata que tinha como principal atrativo as praças, época em que até paquerar era um tabu.

WhatsApp_Image_2021-08-28_at_20.37.41.jpegEu ouvi alguém dizer que o livro vai desaparecer, o livro físico. Isso é uma brincadeira de mau gosto. Não, as coisas estão nos livros. E se amanhã der uma pane nesses celulares, faltar internet, energia, fica todo mundo desolado, sem saber como caminhar? Estão se adaptando demais a essa tecnologia. (Foto: Luciano Tavares)

"Eu estava jogando uma bola no início de noite quando ouvi os fogos. E eu chego. Fui lá para a casa do coronel Fontenelle de Castro e perguntei a alguém o que era aquilo e responderam: "O Acre agora não é mais território vai passar a Estado". Minha infância foi aqui no Centro da cidade, 1962, 1963... Então a gente tem uma memória nesses clubes aqui, os times de futebol, o estado do Acre, o centrão do estado do Acre sempre foi muito bonito e eu acompanhei isso na minha infância. A Rio Branco de hoje é muito diferente. Aquela Rio Branco que era tranquila em qualquer espaço e qualquer lugar você tinha os atrativos e podia frequentar. Hoje nós estamos sabendo que tem um circo na cidade, mas você não pode estar presente, marcar presença por causa de tanta violência, tanta coisa. A nossa Rio Branco dos anos 60, anos 70 nos dá muita saudade."

Enquanto mostra livros, enciclopédias, revistas e um disco antigo coberto de poeira de Noel Rosa, Pelé recorda com enorme ar de romantismo de uma Rio Branco de relações familiares e amizades sólidas. No meio da conversa, o pequeno celular simples em sua mão toca. A representante comercial de uma operadora de telefonia insiste em lhe oferecer pacote de internet. Ele diz: "Não, não tenho interesse!". Pelé não usa WhatsApp, não acessa internet, não tem conta no Facebook, Instagram e Twitter.

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"Não me interessa de forma alguma. Eu quero entender o que significa o cidadão viver no auge da tecnologia, como sobreviver, pois nem energia elétrica eu utilizo aqui. Eu trabalho durante o dia. Não desencorajo ninguém a utilizar, mas pra mim não tem sentido eu me tornar uma cobaia desse instrumento. Eu comparo isso a um vício, as pessoas vão retornar outra vez às revistas, mas é claro que no momento as pessoas preferem sim ler no celular, mas eu já encontro algumas pessoas que já me procuraram pedindo gibi, um livro, dizendo que quer alguma coisa para folhear. Eu ouvi alguém dizer que o livro vai desaparecer, o livro físico. Isso é uma brincadeira de mau gosto. Não, as coisas estão nos livros. E se amanhã der uma pane nesses celulares, faltar internet, energia, fica todo mundo desolado, sem saber como caminhar? Estão se adaptando demais a essa tecnologia. Não quero ser rústico, mas nós somos ainda muito criança. Colocam como se fosse uma coisa essencial e não é. Toda e qualquer informação pra mim do ser humano estão nos livros. Quanto mais antigo o livro melhor ainda para estudar."

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De zagueiro a comerciante

Antes da vida no comércio, Pelé jogou em vários times na época do futebol amador no Acre: Independência, Andirá, Atlético Acreano, São Francisco e América. Porém, diferentemente do Rei do Futebol, o Pelé do Acre era zagueiro.

Pelé caminha com dificuldade. Resultado de um deficiência na perna esquerda. Tem a ver com o desgaste dos tempos de futebol e com a genética, segundo ele.

Seu contato com a bola começou ainda na escola. "Eu ia para escola e gostava de jogar futebol."

WhatsApp_Image_2021-08-28_at_20.37.57.jpegSaí daqui sem um trocado no bolso, mas eu queria saber o que era uma banca de revista. Quando eu vi, eu disse: 'É um mundo'", conta (Foto: Luciano Tavares)

Em 1972 quando virou comerciante, ele conta que pouco sabia sobre o significado de lidar com a venda de revistas e teve a ideia de ir a São Paulo conhecer uma banca.

"Eu vi essa Getúlio Vargas, aqui onde nós estamos, no inverno a lama, no verão a poeira. Eu alcancei tudo isso aqui quando tudo era mato e poucas residências. Saí daqui sem um trocado no bolso, mas eu queria saber o que era uma banca de revista. Quando eu vi, eu disse: 'É um mundo'", conta.

Nos anos 1990, a Banca do Pelé chegou a vender 100 exemplares da revista Placar em um só dia. O movimento diário chegava a R$ 3 mil, 4 mil. Hoje, porém, Pelé vende algo em torno R$ 50, R$ 100. Mas diz estar feliz por trabalhar com o que gosta.

"É um dinheirinho que dá para tomar uma cervejinha, um almoço. Peço a Deus sempre muita humildade e saúde. Isso aqui é a minha vida", encerra.

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