Da barreira do preconceito no início da carreira ao reconhecimento: a história de Nilda Dantas

Da barreira do preconceito no início da carreira ao reconhecimento: a história de Nilda Dantas

Nilda Dantas, a rainha do rádio

No reino mágico do rádio há uma rainha: Nilda Dantas. Poeta, escritora, frasista, radialista, jornalista e fotógrafa nas horas vagas, ela é sozinha um capítulo da história do rádio acreano. Integra um seleto grupo de pessoas reverenciáveis.

Nilda Dantas Pires surgiu como radialista em 1967 na extinta Rádio Novo Andirá. Filha de Emídio de Brito Pires, um carpinteiro e servidor público, e da auxiliar de enfermagem Raimunda Dantas Pires, já falecidos, ela conta que seu sonho era ser balconista ou datilógrafa, mas o complô do destino a colocou, aos 17 anos, nas ondas sonoras dos concorridos programas de calouros.

Em visita a um desses programas, em 1966, o então deputado federal Francisco Wanderley Dantas, que cinco anos depois em 1971 viraria governador do Acre, ficou impressionado com o talento e voz de Nilda Dantas. Foi a partir de uma sugestão do parlamentar ao diretor da emissora, J. Conde, que Nilda começou a trilhar sua vida profissional no rádio.

WhatsApp_Image_2021-09-18_at_13.38.05.jpegNilda em um Carnaval de rua na avenida Getúlio Vargas em frente ao antigo Cine Rio Branco, hoje O Formigão, nos anos 1970

"Ao ouvir minha voz em uma das vindas a Rio Branco, o então deputado Francisco Wanderley Dantas falou com o J. Conde que era o diretor e também o José Lopes para saber se eu não queria fazer um teste para ser locutora e foi assim que eu entrei para o rádio."

Os tempos eram outros. A década de 1960 foi marcada por profundas transformações políticas e sociais em diferentes setores. A música, reflexo de momento de uma sociedade, trazia conotações de protesto. Era um período de confrontos, rebeldia. Ditadura Militar no Brasil, de um lado, a partir de 1964, e surgimento no mundo de movimentos diversos, entre eles o feminista contemporâneo. Era um desafio para uma mulher trabalhar em uma emissora de rádio, um meio majoritariamente ocupado por homens. "Era um Clube do Bolinha", diz Nilda ao relembrar a carga de preconceitos que sofreu no início da carreira.

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"Tive muito apoio do Cícero Moreira e do Campos Pereira. Essas duas pessoas me ajudaram muito no início da minha carreira. Eu acredito até que foi um complô do destino. Eu enfrentei muito preconceito, muito bullying, muita disputa, muita perseguição dos próprio colegas, porque o rádio era considerado o "Clube do Bolinha" no final da década 60, época em que eu entrei."

Destaque no rádio local, em 1980, a convite do radialista Campos Pereira, Nilda foi para a TV Acre. Na emissora, ela assumiu as funções de âncora e repórter do jornal da afiliada da Rede Globo no Acre.

"Mais recentemente, 2012, 2013, eu apresentei como âncora o programa "Fala, Secretário" que era exibido pela TV Aldeia", rememora.

WhatsApp_Image_2021-09-18_at_13.38.46.jpegNilda e Reginaldo Cordeiro, O Rei do Brega

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Espaço do Povo

Nilda Dantas começou a trabalhar na Difusora Acreana no início dos anos 1970. Na emissora, ela apresenta desde o ano 2000 o Espaço do Povo, um programa de variedades que vai ao ar de segunda a sexta-feira a partir das 8 horas.

A dedicação de Nilda é a mesma desde o primeiro dia em que entrou pela primeira vez em um estúdio para conduzir seu próprio programa nos anos 1960.
Às 6h30, uma hora e meia antes de começar o programa, ela chega à emissora para produzir o roteiro com seleções musicais, curiosidades, previsões astrológicas e biografias.

WhatsApp_Image_2021-09-18_at_13.39.21.jpeg"Eu adoro fotografia. Nas horas vagas faço fotos e vou guardando para me preparar para concursos"

"Não foi eu quem dei esse título (Espaço do Povo). Quando eu comecei a apresentá-lo em 2000, ele já tinha esse nome, e durante esse período eu fui moldando o programa como eu gostaria que fosse, como se fosse um almanaque, até porque eu queria agradar a todos os seguidores de música, de assuntos diversos. Eu faço do meu programa um espetáculo diário com entrevistas, atendendo pedidos musicais, inclusive produzo campanhas culturais. Uma delas me levou a Brasília para receber o certificado de "Jornalista Amiga da Criança - Jaca."

WhatsApp_Image_2021-09-18_at_13.42.40.jpegNilda recebe premiação ao lado dos jornalistas Francisco José e Silvio Martinello no Prêmio de Jornalismo Jorge Said

O rádio ontem e hoje

Em meio aos desafios da comunicação na era digital, o rádio luta para manter seu legado e ao mesmo tempo viver o presente, o momento em que tudo converge para o mundo virtual.

Para Nilda Dantas, comunicar pelo rádio hoje na era digital é bem mais fácil.

"Antes era mais sacrificoso. A gente se virava nos 30 para obter conteúdo para levar aos nossos ouvintes. Eu comprava muita revista Contigo, essas de fotonovelas de antigamente traziam muitas informações. E também um livro que serviu muito de norte para minha criatividade foi uma revista chamada Seleções. Eu também comprava essa revista. Agora, o horóscopo do dia que quase todo programa de rádio tinha, eu usava dos jornais locais."

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Ela entende que a proposta de migrar o AM para o FM é importante, pois vai resultar em qualidade para o ouvinte.

"Vamos ter uma melhor qualidade pra oferecer para o ouvinte que é o nosso maior beneficiado, pois a importância do rádio para essas comunidades distantes é algo grandioso. Nós prestamos através do rádio um serviço social onde muitas vezes o poder público não vai, não chega. As pessoas não tem acesso às informações, a não ser através do rádio. Por isso essa minha paixão em ter me capacitado pra continuar no rádio e me atualizar sempre."

Momento inusitado

Nilda relembra de inúmeros fatos inusitados em sua vida no rádio, mas um deles é mais marcante.
Para atender seus ouvintes, ela anunciava adoção de criança em seu programa. E dava certo. Ocorre que ela teve que encerrar esse tipo de apelo ao ser alertada por um servidor da Justiça.

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"Aconteceram muitas situações inusitadas. Uma delas foi que uma pessoa me pediu para anunciar que tinha uma criança para ser adotada, e eu botei no rádio. Aí um colega da gente adotou a criança. Depois alguém ouvindo me procurou e eu anunciei outra vez que tinha uma pessoa querendo doar uma criança, e um senhor que já tinha uns quatro filhos adotivos, era um comerciante do Mercado dos Colonos, foi ao meu encontro na rádio, eu fiz o contato, não sei quem é a criança, não sei mais, já tem muitos anos... A coisa inusitada foi que eu recebi uma visita de alguém do Juizado de Menores, que me chamou muito educadamente e delicadamente e disse que eu não podia fazer isso, anunciar criança para ser adotada no meu programa."

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Festivais, livros, fotografia e costura

Nilda ocupa a cadeira 26 da Academia Acreana de Letras. Ela é autora de três livros: Quase Nua (2000), Devora-me (2008) e Saturitas (2015).

"Eu, durante todo esse período que estive no rádio, inclusive, fiz um curso de Letras para que eu melhorasse mais meu conteúdo para os meus contos que são publicados em vários livros na literatura acreana, inclusive nos dois volumes, em várias antologias, livros meus de poesias. Eu tive essa consciência. Outra coisa que eu também tinha consciência é de um curso de línguas, especificamente o espanhol, porque nós vivemos na fronteira e o curso de espanhol nunca foi matéria exigida para os nossos alunos. Também fiz curso de espanhol."

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Nas horas vagas, ela gosta de fotografar. Comprou uma máquina, fez curso de fotografia para eternizar a vida em cores. Mas vai além. É uma vida de múltiplas atividades e hobbies.

"Eu adoro fotografia. Nas horas vagas faço fotos e vou guardando para me preparar para concursos. Eu também nas horas vagas produzo meus contos, meus poemas e também exercito os meus conhecimentos através de terapias holísticas. Eu tenho cursos em massoterapia com especialidade em quiropraxia, que são as manobras que tratam dos benefícios da coluna. Trabalho também com ventosa terapia, que é a aplicação de ventosas para melhorar a circulação sanguínea, eliminar dores musculares, e também fiz um curso técnico de acupuntura e a minha especialidade é acupuntura auricular. Outra coisa que eu também gosto de fazer nas horas vagas é costurar"

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Uma mulher de alma festiva

Nilda também atuou em vários palcos teatrais e festivais. Das sete peças de teatro, a mais recente foi em 2016. E desde 1993 participa do Festival Boca de Mulher.

"Nos anos1980 eu fui intérprete de sambas de enredo na avenida na escola de samba Mocidade Independente em Rio Branco, na Floresta e também Caciques da Floresta", relembra.

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