A defesa do fim da escala de trabalho 6x1, atualmente em debate no país, ganhou um novo capítulo no Acre após a presidente da Associação Comercial, Industrial, de Serviço e Agrícola do Acre (Acisa), Patrícia Dossa, afirmar que a mudança pode provocar desemprego e aumento de preços. Em resposta, a professora de História, ativista social e secretária de Mulheres do PT do Acre, Neide Lopes, publicou um posicionamento nas redes sociais no qual contesta os argumentos do setor empresarial e associa a resistência à proposta a um padrão histórico de oposição à ampliação de direitos trabalhistas.
A declaração da presidente da Acisa foi feita durante entrevista ao portal ContilNet, na transmissão do Carnaval 2026, quando alertou que a eventual alteração da jornada pode obrigar empresas a rever custos e estruturas operacionais. Segundo ela, empresários teriam que contratar novos funcionários ou investir em mecanização, o que poderia levar a demissões e aumento de preços ao consumidor. “Vai ter reflexo lá na frente. O empresário vai ter que dar um jeito. Ou contrata outras pessoas ou mecaniza, e isso pode levar ao desemprego, porque muitas empresas vão substituir pessoas por máquinas”, afirmou. Ela também avaliou que a mudança poderia elevar custos operacionais e ser repassada ao consumidor final.
Apesar das preocupações, a dirigente empresarial reconheceu que o modelo atual é desgastante. “A gente sabe que é exaustivo e que muitas pessoas estão adoecendo. Quem não quer ter mais folga? Mas precisa ser muito bem pensado para não criar um problema maior depois”, declarou, ao defender cautela e diálogo antes de qualquer decisão sobre o tema, que está em discussão no Congresso Nacional.
A manifestação de Neide Lopes surge como contraponto direto a essa posição. Em texto publicado nas redes sociais, ela afirma que a reação contrária ao fim da escala 6x1 repete argumentos historicamente utilizados para barrar avanços sociais. “A direita que hoje se levanta contra o fim da escala 6x1 é herdeira direta de uma tradição histórica: a de defender privilégios às custas do sofrimento da maioria. Não é exagero. É padrão”, escreveu.
Para a secretária de Mulheres do PT do Acre, a discussão atual não pode ser dissociada de um contexto mais amplo de disputas sobre direitos trabalhistas no Brasil. Ela estabeleceu um paralelo com o período da abolição da escravidão e com outras conquistas sociais posteriores. “Quando o Brasil discutia o fim da escravidão, os mesmos argumentos ecoavam: ‘vai quebrar a economia’, ‘não é a hora’, ‘o país não aguenta’. Sempre que se propõe reduzir exploração, a elite entra em pânico”, afirmou.
Neide também destacou o impacto cotidiano da escala 6x1 sobre trabalhadores e suas famílias, argumentando que o modelo compromete a qualidade de vida e o acesso a direitos básicos. “A escala 6x1 é cruel. É a normalização do cansaço extremo. É a mãe que não vê o filho crescer. É o trabalhador que não tem tempo de estudar, descansar ou viver. É gente vivendo para sustentar um sistema que nunca a prioriza”, declarou.
A ativista também questionou o argumento econômico apresentado por setores empresariais, afirmando que a oposição à mudança está ligada à preservação de margens de lucro e não necessariamente à proteção do emprego. “Ser contra o fim da 6x1 não é ‘opinião econômica’. É escolha política. É escolher manter o povo exausto para garantir margens de lucro confortáveis”, escreveu.
O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou ainda mais relevância após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluir oficialmente o tema entre as prioridades do governo federal para 2026. Em mensagem enviada ao Congresso Nacional na abertura do ano legislativo, Lula afirmou que “nosso próximo desafio é o fim da escala 6x1 de trabalho, sem redução de salário”, destacando que o modelo atual compromete o tempo de descanso e convivência familiar dos trabalhadores. O presidente também classificou a mudança como parte de uma agenda voltada à valorização do trabalho e à melhoria das condições de vida no país.
O modelo 6x1, no qual o trabalhador atua seis dias consecutivos com um dia de descanso, é comum em setores como comércio, serviços e indústria, especialmente em funções com baixa remuneração e alta rotatividade.
Na avaliação de Neide Lopes, a resistência à mudança segue um padrão histórico observado em outros momentos de ampliação de direitos trabalhistas. “Toda conquista trabalhista enfrentou resistência feroz da direita. Foi assim com a abolição. Foi assim com férias. Foi assim com o 13º. Foi assim com a Constituição de 1988. Sempre disseram que o país iria quebrar. O que quebrou, na verdade, foi o argumento deles diante da força da luta popular”, afirmou.
Ao encerrar sua manifestação, a secretária de Mulheres do PT do Acre classificou o debate como uma decisão sobre o modelo de sociedade que o país pretende consolidar. “A história é clara: quem sempre foi contra ampliar direitos acabou ficando do lado errado. O Brasil precisa decidir: vai repetir os discursos que defendiam a escravidão em nome da economia ou vai ter coragem de romper com essa herança de exploração? Porque dignidade não é privilégio. É direito”, concluiu.
