Líder tergiversou sobre se relatório das urnas pode colocar em xeque eleição de parlamentares do PL
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, evitou reconhecer o resultado da eleição que alçou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Palácio do Planalto pela terceira vez.
Em sua primeira entrevista coletiva desde que ocorreu o mensalão, escândalo que acabou com sua prisão, o dirigente partidário condicionou o reconhecimento da derrota de Jair Bolsonaro (PL) ao relatório que o Ministério da Defesa apresentará sobre as urnas eletrônicas.
"Vamos ter que esperar o relatório amanhã. Temos diversos questionamentos que fizemos ao TSE [Tribunal Superior Eleitoral], vamos esperar essas respostas", disse.
A Defesa anunciou que encaminhará para a corte, na quarta-feira (9), o relatório do trabalho de fiscalização do sistema eletrônico de votação, realizado pelos militares.
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, partido que recebeu o maior número de votos para a Câmara dos Deputados em 2022 - Pedro Ladeira - 17.nov.21/Folhapress
Valdemar disse ainda que os militares "vão trazer alguma coisa". "Não tenho dúvida disso, porque senão já tinham apresentado [antes], liquidado o assunto".
O dirigente partidário foi questionado por jornalistas se, ao não reconhecer a eleição de Lula, não poderia colocar em xeque também a vitória dos mais de 100 parlamentares do PL.
Valdemar tergiversou. Primeiro, ele disse que "lógico que valeu" a eleição que consagrou seu partido como a maior bancada do Congresso. Em seguida, reconheceu que "pode ser que" a eleição de sua bancada fique ameaçada, a depender do relatório.
Ao longo do mandato de Bolsonaro, o Ministério da Defesa foi usado pelo presidente para amplificar os ataques contra o sistema eleitoral brasileiro.
Um dos instrumentos para isso foi o trabalho de fiscalização do processo de votação empreendido pelos militares, a partir da presença da Defesa na Comissão de Transparência Eleitoral do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Inicialmente, a Defesa havia informado ao TSE que enviaria o relatório da fiscalização após o término da última etapa do procedimento, em meados de janeiro ou início de fevereiro. Nesta segunda, no entanto, a pasta informou que antecipará a entrega do documento, sem explicar o motivo da mudança nos planos.
Desde a confirmação da eleição de Lula, Bolsonaro tem sido recluso, tido poucas agendas e conversado com poucas pessoas.
Seu primeiro pronunciamento demorou 45 horas para acontecer, não citou a derrota, nem questionou as urnas. Depois, só fez mais uma aparição, para pedir que seus apoiadores deixem de bloquear rodovias.
"A gente sente no coração [uma derrota dessas]", afirmou Valdemar, sobre a postura de Bolsonaro.
Ele disse ainda que demorou alguns dias para ficar mais abatido, mas que o baque finalmente chegou.
"Antes de ontem comecei a sentir, me abateu, porque você perder uma eleição dessa, num embate desse, é uma tristeza. Então acho que é por isso que o Bolsonaro tem se manifestado menos", completou.
Diante da frustração, Bolsonaro se isolou completamente. Não quis a companhia de ministros ou integrantes da campanha. Na noite de domingo, esteve com Braga Netto (PL), general da reserva e seu vice na chapa.
Ministros foram para suas casas e uma parte dos integrantes do comitê bolsonarista acompanhou a apuração na produtora da campanha, no Lago Sul —região nobre da capital federal.
Após a proclamação do resultado, o chefe do Executivo não atendeu a ligações de ministros e aliados. Ele falou brevemente com o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, segundo o próprio magistrado contou no domingo a jornalistas.
Ao menos dois ministros chegaram a ir para o Alvorada, mas foram barrados na entrada. Recluso, Bolsonaro foi dormir, e as luzes da residência oficial foram apagadas por volta de 22h.
Um interlocutor que conversou com Bolsonaro diz que ele estava esperando "esfriar a cabeça", ainda muito decepcionado com a derrota.
Há, contudo, outra explicação: ele queria informações sobre a auditoria da votação conduzida pelos militares —ao longo do processo eleitoral, a participação do Ministério da Defesa na comissão de transparência do TSE foi instrumentalizada por Bolsonaro para reforçar seus ataques golpistas contra as urnas eletrônicas.
Segundo relatos feitos à Folha, Bolsonaro perguntou sobre o assunto já na segunda (31) após as eleições, ao ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira.