Há uma sabedoria antiga que mora nos detalhes que a gente costuma esquecer. Na célebre Farsa de Inês Pereira, escrita no século XVI, Gil Vicente imortalizou com humor afiado o ditado popular: “Mais quero um burro que me leve do que um cavalo que me derrube”.
A frase atravessou os séculos, mas parece que o mundo fez questão de não aprender a lição.
Hoje, a vida virou uma corrida maluca para selar cavalos selvagens. Entre compromissos financeiros sufocantes e noites de sono roubadas, aceita-se pagar um preço alto demais apenas para exibir o bem do ano, a marca da moda ou o símbolo de prestígio da vez.
Cada vez mais, o objeto deixa de ser comprado pela utilidade ou pelo afeto. Compra-se para a plateia. Compra-se para o like — a foto estrategicamente enquadrada no volante, o bem de consumo posto em exposição. É o fetiche da mercadoria na sua forma mais sutil e cruel: o empenho exaustivo de vida para adquirir o status que vai impressionar quem sequer nos conhece.
No fundo, é a ilusão de achar que a importância de uma vida se mede pelo chaveiro ostentado no cinto, pelo peso da chave que se solta sobre a mesa ou pelos ornamentos que se exibem para os outros. É o “ter” estrangulando o “ser”. E assim a gente vai povoando o cotidiano com rotinas exaustas, reféns do próprio luxo, com o receio constante de cair do cavalo que se escolheu montar.
Quando vejo essa vertigem das aparências, minha memória faz o caminho de volta. Viajo no tempo e me vejo aos doze anos.
No interior, ter uma bicicleta era o sonho de consumo de qualquer criança. Até ali, a rotina para ir à escola era caminhar sob o sol forte ou ir de carona na garupa de um amigo. Ter a própria condução não era vaidade; era o passaporte para a liberdade.
Lembro do dia em que minha mãe comprou uma bicicleta mais moderna para ela. A antiga, usada, velhinha e simples, acabou passando para mim. Não importava que não fosse nova. Para aquele menino, ter a própria bicicleta era realizar um sonho — e eu cuidava dela com carinho e ciúme, como se fosse a minha primeira namorada.
Lavei, lubrifiquei a corrente, cuidei da sela com uma capa nova. Coloquei enfeites no guidão e adereços coloridos nos raios das rodas. Eu não queria exibir nada para ninguém. Queria apenas cuidar do meu mundo.
Quando o sol baixava, eu montava no meu tesouro e ganhava as ruas. No início da noite, o ponto de encontro era a praça do coreto. Entre os bancos de concreto e o perfume das árvores, eu e meus amigos nos reuníamos para brincar. E a nossa graça era essa: sentir o vento no rosto, ultrapassar um ao outro, o cabelo desalinhado e a liberdade simples de pertencer àquele lugar.
Aquela bicicleta virou a extensão do meu corpo. Ia comigo para todo canto: era o meu transporte para ir ao comércio do meu pai, o caminho para a igreja, a parceria para as tardes no campo de futebol. E quando a idade avançou e precisei me desfazer dela, confesso que doeu. Relutei. Não era fácil perder um pedaço de mim.
Hoje, muitos anos depois, olho para trás e compreendo. Naquele tempo, sem saber, eu já tinha o único reconhecimento que realmente importa: o afeto de casa, a presença dos amigos e a alegria simples de existir. Eu não precisava ostentar nada para ser alguém.
A cultura atual, ao contrário, tenta cobrir esse vazio de pertencimento acumulando aparências e trocando a paz por aplausos efêmeros. Mas a felicidade nunca esteve na coleção de promessas bancárias; ela cabia todinha em um par de rodas girando na penumbra da praça.
A gente não precisa de um cavalo de raça para provar que chegou a algum lugar. Às vezes, tudo o que a alma pede é a simplicidade de uma bicicleta usada, a tranquilidade do dever cumprido, o sono sossegado e a paz de quem vive em harmonia com o próprio tempo, sem precisar de aplausos para saber quem é.
Entre o luxo que derruba e a leveza que leva, eu fico com o vento no rosto.
Emylson Farias
Delegado de Polícia





