Rio Branco, AC, 1 de setembro de 2026 08:17
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The Affair serie: como a Showtime criou um dos dramas de relacionamento mais corajosos da televisão americana

The affair serie representa o tipo de televisão de prestígio que a Showtime construiu como identidade ao longo dos anos 2000 e 2010, com séries que exploravam território dramático que as redes abertas raramente tentavam por questões de censura e de apetite de audiência. The Affair, ao lado de Dexter, Homeland e Billions, confirma que a Showtime havia encontrado uma voz editorial específica, adulta, moralmente ambígua, sem a distância protetora da ironia ou o consolo de personagens inequivocamente corretos.

Como a série explorou a memória como narrador não-confiável

The Affair usa a psicologia da memória como motor narrativo de uma forma que vai além do truque de estilo. A pesquisa contemporânea em neurociência demonstra que memórias são reconstruídas cada vez que são acessadas, incorporando novas informações e vieses do presente no registro do passado, e a série usa esse conhecimento como fundamento para o sistema de narrativa dual que a define. Quando Noah lembra que Alison tomou a iniciativa, ele pode estar genuinamente convencido disso, não porque está mentindo, mas porque o remorso e a necessidade de justificativa que ele carrega moldaram como a memória foi reprocessada ao longo do tempo.

Essa leitura psicológica transforma a série de um thriller de traição convencional num estudo sobre como as pessoas constroem a própria inocência a partir de matéria-prima que as colocaria numa posição muito mais incômoda se fosse examinada sem distorção.

The Affair se passa principalmente em Montauk, na extremidade de Long Island, um ambiente que combina a tradição dos Hamptons como destino de verão de nova-iorquinos abastados com uma sensação de isolamento e estranheza que contribui para a atmosfera de fora-do-tempo que o relacionamento de Noah e Alison necessita para existir. A chegada de Noah como veranista de classe alta ao restaurante onde Alison trabalha cria uma hierarquia econômica que a série examina com cuidado, usando a classe como componente do desejo e da dinâmica de poder que o relacionamento carrega.

A trilha sonora de Fiona Apple e o que ela acrescenta

A música tema de The Affair, composta e performada por Fiona Apple, é um dos trabalhos musicais mais bem integrados à identidade de uma série televisiva dos últimos anos. A canção captura a mistura de desejo, melancolia e inevitabilidade que o romance de Noah e Alison representa, e a voz específica de Apple, com seu fraseado incomum e sua intensidade contida, encontra a mesma ambiguidade emocional que a estrutura narrativa da série busca criar.

O impacto do formato dual sobre os atores

Filmar The Affair exigia dos atores algo que a televisão raramente pede, interpretar o mesmo personagem em duas versões sutilmente diferentes dentro do mesmo episódio, com mudanças de figurino, de postura, de tom de voz e até de nível de agressividade dependendo de quem estava narrando aquela cena. Ruth Wilson descreveu o processo como interpretar duas personagens que compartilham nome e biografia mas que têm personalidades distintas.

Essas diferenças precisavam ser suficientemente sutis para que o espectador não as percebesse como truque óbvio, mas suficientemente claras para que a discrepância entre as memórias fosse detectável. O equilíbrio exigia colaboração intensa entre atores, diretores e departamento de figurino, com decisões sobre o comprimento de um vestido ou a intensidade de uma maquiagem carregando significado narrativo.

A escolha de Montauk como cenário principal foi tão importante para The Affair quanto qualquer decisão de casting. A vila na ponta leste de Long Island tem uma identidade dividida entre comunidade pesqueira de trabalhadores e destino de veraneio de nova-iorquinos ricos, e essa fratura de classe é o terreno sobre o qual todo o drama se constrói.

Alison pertence ao Montauk permanente, com um marido cuja família mantém um rancho há gerações e com um trabalho de garçonete que a coloca a serviço dos veranistas. Noah pertence ao Montauk temporário, chegando com a família para passar o verão na casa dos sogros ricos. O desejo entre os dois carrega desde o primeiro momento essa assimetria econômica que a série nunca deixa o espectador esquecer.

Joshua Jackson e a reinvenção de um ator

Joshua Jackson como Cole Lockhart teve em The Affair a oportunidade de demonstrar um alcance dramático que os papéis anteriores em Dawson’s Creek e Fringe não haviam exigido. Cole é um homem cuja vida inteira foi determinada por perdas que ele não escolheu, e Jackson construiu o personagem com uma contenção emocional que tornava cada rara explosão genuinamente perturbadora.

A quinta e última temporada de The Affair, lançada em 2019, ampliou o escopo temporal ao incluir um arco futurista que explorava as consequências a longo prazo dos eventos das temporadas anteriores. Para muitos fãs, essa expansão foi a parte mais inesperada do programa, mas ela está em linha com a ambição da série de explorar como escolhas feitas num verão em Montauk se propagam por décadas de vida. A disponibilidade completa da série no streaming permite que o espectador avalie por si mesmo se a conclusão justificou a ambição.

A trilha de Fiona Apple e a estética de Montauk trabalham juntas para criar uma atmosfera de fora do tempo que o relacionamento central necessita, com a vila costeira funcionando como espaço onde as regras da vida cotidiana dos personagens ficam suspensas. Essa suspensão é o que torna crível que dois adultos com vidas estabelecidas arrisquem tudo por algo tão incerto.

A série foi filmada em locações reais de Long Island durante cinco anos, e a comunidade de Montauk desenvolveu uma relação ambígua com a produção, entre o benefício econômico e a irritação com a imagem que o programa projetava da vila. Esse atrito entre ficção e lugar real acompanha praticamente toda produção ambientada em comunidades pequenas.