Rio Branco, AC, 5 de setembro de 2026 13:45
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Ela enfrentou o machismo, fez história ao volante no Acre e, 34 anos depois, retorna para testemunhar a renovação do transporte em Rio Branco

Antes de existir uma frota moderna, ônibus com ar-condicionado e a promessa de um novo momento para o transporte coletivo de Rio Branco, uma mulher precisou enfrentar uma barreira muito maior: o preconceito.

Em 1992, Jovem Ferreira Ferro Menezes, atualmente com 61 anos, entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a dirigir um ônibus do transporte coletivo da capital acreana.

Na época, o volante era praticamente um território masculino. A presença de uma mulher no comando de um coletivo provocou resistência, comentários e até pressão para que sua contratação não acontecesse.

Mas ela persistiu. E não apenas conseguiu a vaga. Conquistou os passageiros.

Trinta e quatro anos depois, Jovem voltou a Rio Branco. Atualmente morando em Barra do Garças (MT), onde continua trabalhando como motorista profissional, ela veio especialmente à capital acreana para acompanhar a transformação do transporte coletivo e parabenizar o prefeito Alysson Bestene pela chegada de novos ônibus para atender a população.

Jovem começou sua história dirigindo um ônibus em uma época em que uma mulher ao volante de um coletivo ainda era vista como exceção. Agora, retorna justamente quando Rio Branco se prepara para receber uma nova frota.

A história começou na Viação Aquirí.

Jovem foi contratada em 1992 por iniciativa de Clendes Vilas Boas, que ocupava uma função de gerência na empresa. Ele conta que enfrentou resistência interna para manter a decisão.

Houve colegas tentando fazê-lo desistir. Vieram críticas e até insinuações sobre um suposto interesse pessoal na contratação. Clendes não recuou. “Eu sempre acreditei na força feminina”, relata.

Jovem foi escalada para o ônibus de prefixo 110, na linha Manoel Julião. Era o início de uma experiência que acabaria se tornando um marco no transporte público acreano. Nos primeiros tempos, Jovem fazia aproximadamente quatro ou cinco viagens e chegava a transportar cerca de 600 passageiros.

O ônibus frequentemente lotava. E havia um detalhe que chamava atenção: passageiros chegavam a esperar especificamente pelo coletivo conduzido por ela, mesmo quando outros ônibus da linha passavam pelo local.

A explicação estava no modo como ela trabalhava. Jovem tinha atenção especial com idosos. Esperava que os passageiros estivessem acomodados antes de movimentar o ônibus. Também mantinha cuidado com pedestres e procurava transformar o trajeto em uma experiência mais segura e respeitosa.

Aos poucos, o que começou como desconfiança virou reconhecimento. Ela deixou de ser apenas “a mulher que dirigia ônibus”. Passou a ser motorista.

A contratação de Jovem teve outro efeito. Segundo Clendes Vilas Boas, depois dela, outras 44 mulheres foram contratadas para trabalhar no transporte coletivo. “Jovem foi um diferencial que teve no transporte”, afirma.

Para ele, a pioneira mostrou que as mulheres poderiam ocupar aquele espaço com competência. Com o passar dos anos, porém, a presença feminina voltou a diminuir. Hoje, apenas 15 mulheres conduzem ônibus em Rio Branco

Para Clendes, a renovação da frota pode representar uma nova oportunidade para ampliar a presença feminina no transporte coletivo de Rio Branco.

A chegada dos novos ônibus, portanto, não representa apenas uma mudança nos veículos. Para quem acompanhou essa história desde o início, pode ser também uma chance de escrever um novo capítulo na participação das mulheres ao volante.

“Quem sabe eu volto?”

Aos 34 anos daquela história, Jovem não esconde a vontade de continuar contribuindo com o transporte. Ela fala em voltar ao Acre, caso surja a oportunidade, para compartilhar sua experiência, treinar motoristas e até voltar a dirigir. “Quem sabe eu volto?”, diz.

A possibilidade ganha ainda mais significado diante da renovação do sistema. Para Jovem, os novos ônibus representam conforto e dignidade para quem depende diariamente do transporte público. E foi justamente por isso que ela fez questão de vir pessoalmente a Rio Branco para parabenizar o prefeito Alysson Bestene pela iniciativa.

Existe uma fotografia invisível nessa história. De um lado, está o ônibus 110, de 1992, quando Jovem precisou vencer o machismo para assumir o volante. Do outro, estão os novos coletivos que começam a desenhar um novo capítulo do transporte público da capital.

No meio desse caminho está a mesma mulher. A primeira. A que ouviu críticas e continuou. A que entrou no ônibus quando quase nenhuma mulher ocupava aquele lugar. A que transportou centenas de passageiros pelas ruas de Rio Branco. A que abriu caminho para outras 44. E que agora retorna à cidade para ver novos ônibus chegando.

Jovem não voltou apenas para olhar uma frota nova. Voltou para reencontrar uma parte da própria história. Porque algumas pessoas passam pelo transporte. Outras fazem parte dele. Jovem Ferreira fez os dois. E, em 1992, colocou Rio Branco em movimento.