O que deveria ser o novo cartão-postal de Brasiléia acabou se transformando em uma das imagens mais incômodas da cidade. Anunciada como uma espécie de “nova Gameleira”, em referência ao tradicional espaço turístico de Rio Branco, a Orla do Rio Acre foi planejada para recuperar uma área histórica destruída pelas grandes enchentes, criar um espaço de lazer, fortalecer o turismo e movimentar a economia local.
O projeto, porém, está longe de cumprir a promessa feita à população. Orçada inicialmente em R$ 16.617.537,11, a obra teve ordem de serviço assinada em novembro de 2023 pelo então governador Gladson Cameli. O empreendimento foi apresentado como uma intervenção estratégica para ligar a parte alta à parte baixa de Brasiléia, com contenção de barrancos, calçadão, quiosques, áreas de lazer e estrutura voltada ao turismo.
A previsão divulgada pelo próprio governo era de que a obra fosse concluída em setembro de 2024.
Não foi.

Mais de dois anos com a obra travada
O último dado oficial detalhado encontrado aponta que a execução chegou a 51,04% antes da paralisação. Segundo o Deracre, os trabalhos estão parados desde abril de 2024, depois que houve interrupção do fluxo financeiro do convênio federal. O órgão afirma que o investimento total é de aproximadamente R$ 16,7 milhões, oriundos de emenda parlamentar do senador Márcio Bittar.
Na prática, pouco mais da metade da intervenção foi executada.
Pela proporção informada pelo próprio governo, 51,04% de uma obra de R$ 16,617 milhões representam aproximadamente R$ 8,48 milhões em serviços correspondentes ao percentual executado. Restaria, matematicamente, uma parcela equivalente a aproximadamente R$ 8,14 milhões para chegar aos 100%.
Isso, entretanto, não significa que esses valores correspondam exatamente ao dinheiro já pago e ao dinheiro ainda disponível. Execução física, empenho, repasse e pagamento são etapas diferentes da execução de uma obra pública. O próprio governo atribui a paralisação à falta de regularização financeira do convênio federal.

O dinheiro chegou? E quanto ainda falta?
É justamente nesse ponto que a história da orla ganha contornos mais complexos.
O anúncio oficial de 2023 falava em R$ 16,617 milhões para a obra. Em 2024, comunicações oficiais passaram a mencionar um investimento de aproximadamente R$ 18 milhões, incluindo recursos de diferentes parceiros.
Já em 2026, o Deracre voltou a trabalhar com a cifra de R$ 16,7 milhões e informou que a continuidade depende da regularização do fluxo financeiro do convênio federal.
O órgão estadual afirma ter acionado a Representação do Governo do Acre em Brasília (Repac) para tratar do problema junto ao Ministério das Cidades e buscar a regularização necessária para a retomada.
Também foi elaborado um novo relatório técnico sobre as condições da área e sobre os serviços executados antes da paralisação. O documento foi encaminhado à instituição financeira responsável pelo contrato.
Ou seja: a obra tem dinheiro anunciado, tem contrato, tem execução parcial, mas não tem conclusão.

E o barranco?
O problema ficou ainda mais evidente com a passagem do tempo.
A área às margens do Rio Acre passou a sofrer novamente com processos de erosão. O próprio Deracre reconheceu que o período prolongado sem continuidade dos serviços pode ter influenciado nas condições encontradas no local.
O governo afirma, por outro lado, que a proteção da margem foi executada conforme o projeto aprovado, utilizando o sistema conhecido como bolsacreto, formado por mantas preenchidas com concreto para reforçar o barranco.
O Deracre também lembra que as margens dos rios do Alto Acre estão sujeitas ao fenômeno conhecido como “terras caídas”, provocado pela dinâmica das águas e pelos processos naturais de erosão.
É justamente aí que está uma das contradições mais visíveis da obra: uma intervenção criada para proteger a margem do rio e transformar aquela área em espaço turístico está há anos incompleta, enquanto a própria margem continua sofrendo os efeitos da erosão.

A promessa de uma nova Gameleira
Quando foi lançada, a obra foi apresentada com ambição muito maior do que simplesmente construir um calçadão.
O projeto previa uma transformação urbana de uma das áreas mais simbólicas do município, inspirada na Gameleira de Rio Branco. A proposta incluía contenção, acessibilidade, ciclovia, escadarias de acesso ao rio, áreas de convivência e espaços destinados ao turismo.
Na época, o governo dizia que a intervenção recuperaria uma parte importante do centro histórico destruída pelas enchentes de 2012 e 2015 e ajudaria a gerar emprego e renda.
Brasiléia, afinal, é uma cidade de fronteira e recebe fluxo de pessoas que seguem em direção à Bolívia e ao Peru. A própria justificativa oficial para a obra destacava o potencial turístico e econômico da região.
Mas a promessa de transformar a área em um dos principais pontos turísticos da cidade continua esperando pela conclusão.
O que diz a Prefeitura de Brasiléia
A Prefeitura de Brasiléia, ainda na gestão da então prefeita Fernanda Hassem, tratava o projeto como uma obra estratégica para o município.
Em novembro de 2024, quando a intervenção ainda era divulgada como avançada, a prefeitura afirmou que a orla tinha como objetivo embelezar a cidade, fortalecer o turismo, gerar oportunidades econômicas e oferecer um espaço seguro à população.
A gestão também anunciou outra intervenção às margens do Rio Acre, na Rua Marechal Rondon, com investimento de R$ 8,79 milhões, provenientes de emenda da ex-deputada Vanda Milani e parceria com Estado e município. A própria prefeitura apresentou o projeto como um futuro “novo cartão postal” de Brasiléia.
Hoje, a Prefeitura é comandada por Carlos Armando de Souza Alves, o Carlinhos do Pelado, eleito para o mandato 2025–2028.
Nas publicações recentes localizadas no portal oficial do município, porém, não há uma manifestação específica e atual da Prefeitura explicando a paralisação da primeira etapa da orla, o cronograma de retomada ou quanto dos recursos previstos já teria sido efetivamente recebido.
A explicação mais recente e objetiva sobre a situação continua sendo a do Deracre: a obra está paralisada desde abril de 2024 e depende da regularização financeira do convênio federal.
Do cartão-postal ao cenário de abandono
É justamente essa transformação que chama a atenção de quem vive em Brasiléia.
Moradores ouvidos para esta reportagem descrevem a área como um espaço que deveria representar a cidade para quem chega, mas que hoje transmite uma sensação oposta.
A expectativa era de que o visitante encontrasse uma área revitalizada às margens do Rio Acre, com estrutura para caminhar, contemplar o rio, consumir nos quiosques e conhecer um dos pontos históricos do município.
O que ficou, porém, foi uma obra incompleta.
Em vez de um novo cartão-postal, a margem do rio passou a carregar as marcas da paralisação, do desgaste e da erosão.
E há uma ironia difícil de ignorar: uma obra concebida justamente para combater a degradação das margens e devolver vida turística ao centro de Brasiléia está há mais de dois anos sem conseguir chegar ao fim.
A conta que ainda não fechou
O projeto nasceu com a promessa de entregar uma transformação de mais de R$ 16,6 milhões. Mais de dois anos depois da paralisação, pouco mais da metade da execução havia sido realizada.
O governo diz que precisa regularizar o fluxo financeiro federal. A área, enquanto isso, continua exposta à dinâmica do Rio Acre.
E a população permanece esperando pela entrega de um espaço que, quando anunciado, foi tratado como uma obra capaz de mudar a paisagem, recuperar uma área histórica e criar um novo polo turístico para Brasiléia.
Por enquanto, a “nova Gameleira” do Alto Acre continua sendo uma promessa pela metade. A obra existe, uma pequena parte dela foi feita, milhões foram anunciados, mas o cartão-postal prometido ainda não foi entregue.





