A possibilidade de o El Niño atingir intensidade “muito forte” até o fim de 2026 colocou a Região Norte no centro das atenções das autoridades responsáveis pelo monitoramento dos recursos hídricos. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) já preparou um plano específico para enfrentar os possíveis impactos do fenômeno, com ações que serão mantidas até março de 2027.
De acordo com a ANA, as projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam probabilidade de 100% de permanência do El Niño entre setembro e novembro de 2026 e superior a 80% de continuidade até o trimestre de março a maio de 2027. Os modelos também apontam mais de 90% de chance de o fenômeno alcançar intensidade “muito forte” ainda no segundo semestre deste ano.
Para o Norte, o cenário projetado é de redução das chuvas, temperaturas mais elevadas e diminuição das vazões dos rios. A ANA alerta para a possibilidade de níveis abaixo da média histórica e de situações críticas já a partir de outubro, com possíveis reflexos sobre a navegação, o abastecimento público e a geração de energia.
Acre aparece em situação de atenção
No Acre, os sinais de agravamento da seca já aparecem nos dados oficiais. Segundo a atualização mais recente do Monitor de Secas, divulgada pela ANA, 100% do território acreano apresentava algum grau de seca em agosto de 2026.
O levantamento aponta ainda que a situação se agravou entre maio e julho, com o retorno de áreas classificadas como seca moderada e seca grave. Segundo a ANA, essa foi a condição mais severa registrada no Acre desde dezembro de 2024 e, em agosto, o estado apresentou a maior severidade da seca entre os estados brasileiros.

O quadro também avançou em outros estados da Região Norte. No Amazonas, por exemplo, a área atingida pela seca passou de 60% para 94% do território entre julho e agosto, enquanto a parcela classificada como seca moderada aumentou de 8% para 50%.
A redução do nível dos rios é uma das principais preocupações para a Região Norte. A ANA prevê o acompanhamento sistemático da vazante dos rios amazônicos diante da possibilidade de vazões abaixo da média histórica.
A preocupação não se limita à navegação. Níveis muito baixos podem afetar o transporte de pessoas e mercadorias, o abastecimento de comunidades ribeirinhas e urbanas e o funcionamento de estruturas de geração de energia instaladas na região.
O monitoramento inclui importantes bacias e empreendimentos, como os rios Madeira e Xingu e as usinas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, além de Belo Monte e Tucuruí, no Pará.
Além da redução das chuvas, o El Niño pode contribuir para temperaturas mais elevadas e aumento da evaporação. No Norte, a combinação entre calor e menor volume de precipitação pode aumentar a deficiência hídrica e elevar o risco de queimadas.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já havia apontado que a combinação de temperaturas acima da média e precipitações abaixo do normal em áreas do Norte e Nordeste poderia elevar o potencial para incêndios nos meses seguintes.
Diante do cenário, a ANA estruturou um plano de preparação que prevê reuniões de avaliação das condições hidrometeorológicas, salas de acompanhamento e, caso a situação se agrave, a instalação de salas de crise.
A agência também poderá adotar medidas regulatórias extraordinárias em situações de escassez hídrica, incluindo restrições de captação e regras especiais para a operação de reservatórios.
A estratégia prevê ainda a publicação de boletins mensais sobre a evolução do El Niño, em parceria com instituições como Inpe, Inmet, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Censipam e Defesa Civil Nacional.
Para o Acre, o cenário exige atenção especial. Com todo o território estadual já sob algum grau de seca em agosto e a possibilidade de o El Niño permanecer até o início de 2027, o comportamento das chuvas e dos rios nos próximos meses será decisivo para o abastecimento, a atividade econômica, a navegação e o risco de incêndios.
O plano da ANA tem caráter adaptativo e poderá ser atualizado conforme a evolução do fenômeno e a mudança das condições hidrológicas no país.





