Rio Branco, AC, 24 de setembro de 2026 22:08
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A última charge de Braguinha: Acre perde um dos seus grandes cronistas do riso, da ironia e da vida

Francisco Braga, o “Braguinha” das charges que transformaram o cotidiano acreano em desenho, palavra e memória, morreu deixando uma obra que permanece nas páginas da imprensa e na lembrança de quem conviveu com seu talento

Há pessoas que passam por uma cidade. E há pessoas que, de algum modo, passam a fazer parte da memória dela.

Francisco Braga foi uma dessas pessoas.

O Acre se despede de um dos personagens que ajudou a construir a memória da imprensa acreana com traços, palavras, ironia e uma maneira muito própria de enxergar o mundo. Cearense de nascimento, Braga chegou a Rio Branco em 1993 e encontrou no Acre não apenas um lugar para viver, mas uma espécie de território afetivo onde se tornou chargista, cartunista, jornalista, cronista e, sobretudo, contador de histórias.

A notícia de sua morte, vítima de um câncer no estômago, encerra uma trajetória marcada pelo humor, pela irreverência e pela capacidade de transformar acontecimentos aparentemente banais em pequenas peças de memória.

Braguinha não desenhava apenas pessoas ou acontecimentos. Desenhava o espírito de uma época.

Sua passagem pela imprensa acreana deixou marcas em jornais, redações e na memória de colegas que compartilharam com ele o cotidiano muitas vezes caótico — e quase sempre fascinante — das redações. Em entrevista publicada pela ContilNet, Braga contou que chegou ao Acre vindo do Ceará, depois de uma passagem pelo Piauí, e que foi justamente em Rio Branco que se tornou chargista.

A relação com o Acre foi tão profunda que, mesmo depois de deixar o estado, ele continuou retornando às suas lembranças.

Em 2007, deixou Rio Branco e seguiu para São Paulo e, posteriormente, para o Rio de Janeiro. Anos depois, voltou ao Acre para lançar um de seus livros. “Essa terra maravilhosa me deu bons momentos inesquecíveis”, disse ele ao recordar sua passagem pelo estado.

Um homem que fazia rir para dizer coisas sérias

Braga entendia a charge como instrumento de comunicação, crítica e manifestação. Para ele, o desenho não era apenas uma brincadeira. Era também uma forma de dizer aquilo que muitas vezes o texto convencional não conseguia dizer.

Em uma entrevista, afirmou que a charge poderia — e deveria — ser utilizada para manifestações políticas e sociais, lembrando a importância do trabalho de chargistas durante a ditadura militar brasileira.

Essa compreensão acompanhou sua trajetória.

Jornalista profissional, chargista, cartunista, designer, poeta e cronista, Braga também publicou os livros “Crônicas do Cartunista Francisco Braga” e “História Desenhada – 10 anos de charges do Braga”, reunindo parte de sua produção e de sua passagem pela imprensa e pela cultura acreana.

Seu trabalho chegou também ao reconhecimento profissional. Em 2006, recebeu o Prêmio José Chalub Leite de Jornalismo, na categoria relacionada à charge, com o trabalho “Oh, Xapuri”, inspirado em uma polêmica envolvendo a poda de árvores na Praça de São Sebastião, em Xapuri.

O Acre que ficou dentro dele

Mesmo morando no Rio de Janeiro, Braga continuou escrevendo sobre o Acre.

Nas crônicas mais recentes, revisitava personagens, jornalistas, artistas, bares, ruas, redações, histórias e acontecimentos que ajudaram a formar sua própria cartografia afetiva.

Era como se tivesse levado o Acre consigo.

Em uma de suas crônicas, ao recordar a chegada a Rio Branco, em 1993, descreveu o estranhamento diante da friagem amazônica e recuperou, com humor, personagens e situações vividas nos primeiros anos na cidade.

Em outra, voltou ao passado para narrar suas lembranças da imprensa acreana e de antigos companheiros de redação.

E continuou produzindo até 2026. Pouco mais de um mês depois, escreveu sobre Hélio Melo, lembrando o privilégio de ter conhecido o artista acreano e descrevendo-o como uma presença magnífica que a vida permitiu conhecer.

Talvez haja algo de profundamente simbólico nisso.

Braga passou a vida registrando a memória dos outros. Agora, é a sua própria memória que passa a ser registrada.

Fica o desenho

A morte interrompe a presença física, mas não consegue apagar aquilo que foi transformado em memória.

E Francisco Braga deixou muita memória.

Ficam os desenhos. Ficam as charges. Ficam os livros. Ficam as crônicas. Ficam as histórias contadas nas redações. Ficam os amigos. Ficam os personagens que ele imortalizou com poucos traços. Fica, sobretudo, uma maneira de olhar para o mundo — crítica, debochada, sensível e profundamente humana.

Para quem conheceu Braga, talvez seja impossível imaginar sua ausência sem lembrar imediatamente de algum desenho, alguma história ou alguma frase dita com aquele humor que parecia ser uma de suas formas favoritas de respirar.

O Acre perde um chargista.

A imprensa perde um contador de histórias.

Os amigos perdem um companheiro.

Mas a memória, essa, não publica a última edição.

Enquanto houver alguém olhando para uma velha charge de Braguinha, rindo de uma de suas histórias ou lembrando de sua passagem por uma redação de Rio Branco, ele continuará, de algum modo, conversando com o Acre.

Porque alguns homens partem.

Outros deixam traços.

E há aqueles que deixam os dois.

Francisco Braga deixa os traços.

E eles permanecem.