Talvez uma das falas mais humanas do debate da TV Acre desta terça-feira não tenha sido sobre números, obras ou promessas. Foi sobre uma realidade que existe dentro de milhares de casas: a dificuldade de uma mulher conciliar estudo, trabalho, filhos e família.
Durante o debate, ao ser questionada por Alan Rick sobre sua formação acadêmica, a governadora e candidata Mailza Assis afirmou que concluiu Pedagogia e relatou as dificuldades que enfrentou até conseguir terminar uma graduação. Disse que chegou a ingressar na Universidade Federal do Acre, passou por outro curso e estudou Direito por dois anos e meio, mas que trabalho, filhos e outras responsabilidades interferiram nessa trajetória.
Independentemente da disputa eleitoral — e os questionamentos sobre a documentação devem ser esclarecidos pelas instituições competentes — existe outro aspecto dessa fala que merece atenção.
A repercussão entre as mulheres
Depois da publicação, começaram a aparecer comentários de pessoas que se reconheceram naquele relato.
Uma mulher escreveu: “Eu me emocionei porque sei a luta que é ser mãe, trabalhar e buscar concluir o curso superior.”
Outra disse: “Sou mulher, mãe atípica e trabalho. Enfrentei vários desafios para concluir minha graduação.”
Uma terceira contou que conseguiu estudar, mas que sua própria mãe somente realizou esse sonho quando a filha já tinha 15 anos.
E até homens trouxeram a história das próprias mães. Um deles escreveu que sua mãe criou cinco filhos e abriu mão de muitas coisas para dar oportunidades a eles.



Percebam o que aconteceu
A discussão começou em torno da formação acadêmica de uma candidata e acabou tocando numa questão muito maior: o preço que muitas mulheres pagam para construir uma carreira e conquistar um diploma.
Porque homens e mulheres podem enfrentar dificuldades para estudar. Mas existem obstáculos que, historicamente, recaem de maneira desproporcional sobre as mulheres: gravidez, maternidade, cuidado dos filhos e, muitas vezes, a maior parcela das responsabilidades domésticas.
Para muita gente, abandonar temporariamente uma faculdade pode parecer fracasso.
Para uma mãe que precisa escolher entre assistir à aula e cuidar de um filho, pode significar apenas sobrevivência e prioridade.



O debate eleitoral deve, sim, cobrar documentos, propostas, resultados e explicações de todos os candidatos. Questionar faz parte da democracia.
Mas aquela fala de Mailza produziu algo que vai além da própria candidata: fez muitas mulheres olharem para a própria história.
Mulheres que começaram e pararam.
Que tentaram novamente.
Que trabalharam durante o dia e estudaram à noite.
Que cuidaram dos filhos enquanto tentavam construir o próprio futuro.
E talvez seja justamente por isso que tantos comentários repetem a mesma ideia: “Eu sei o que é isso. Eu vivi isso.”


No fim, existe uma reflexão que ultrapassa qualquer eleição:
nem todo caminho interrompido representa desistência. Às vezes, representa alguém que precisou cuidar de todo mundo antes de conseguir voltar a cuidar dos próprios sonhos.
Willamis Franca, jornalsita do Notícias da Hora





