O Acre acaba de produzir uma das mais inquietantes contradições de sua política recente. As mulheres são maioria entre os eleitores acreanos: são 317.377 eleitoras, o equivalente a 52% do eleitorado do Estado. Ainda assim, a partir de 2027, nenhuma mulher ocupará uma das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa do Acre.
O número chama atenção, mas a pergunta é ainda maior: como a maioria de quem vota pode continuar tão distante dos espaços onde as decisões são tomadas?
Não seria correto afirmar que as mulheres deixaram de votar em mulheres. O voto é secreto, e os resultados não permitem identificar o gênero de quem escolheu cada candidato. Tampouco cabe defender que uma mulher deva votar em outra simplesmente por ser mulher.
A questão é mais profunda: por que a força numérica das mulheres nas urnas ainda não se transforma em representação política proporcional?
No Acre, essa diferença ficou evidente. As três deputadas da atual legislatura — Antonia Sales, Maria Antônia e Michelle Melo — disputaram a reeleição, mas não retornarão à Aleac. O Estado terá, portanto, uma Assembleia Legislativa formada exclusivamente por homens.
Isso nos obriga a olhar para além do dia da eleição.
A participação feminina na política depende também dos partidos, da estrutura das campanhas, do acesso a recursos, da formação de lideranças e de oportunidades reais para que candidaturas de mulheres sejam competitivas. O próprio Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC) já chamou atenção para a distância entre a presença feminina no eleitorado e sua representação nos cargos eletivos.
Mas o Acre oferece, ao mesmo tempo, um contraponto.
Na Câmara Municipal de Rio Branco, a representação feminina deverá crescer após a eleição de vereadores que deixarão o Legislativo municipal para assumir cadeiras na Assembleia Legislativa: serão quatro vereadoras na próxima legislatura, o dobro da composição atual. Isso mostra que o cenário não é uniforme e que as mulheres conseguem, sim, conquistar espaços de decisão.
E há ainda um capítulo importante que permanece em aberto.
No segundo turno, duas mulheres estarão no centro da disputa por um cargo majoritário no Acre: Maísa Assis, candidata à reeleição ao governo, e Jéssica Salles, sua candidata a vice-governadora.
Agora, a pergunta ganha outra dimensão.
Depois de uma eleição para o Legislativo que deixou a Aleac sem nenhuma mulher, será que o eleitorado acreano escolherá duas mulheres para comandar o Executivo estadual?
É preciso esperar as urnas.
Sem antecipar resultados, sem transformar o gênero em critério obrigatório de escolha e sem atribuir às eleitoras uma responsabilidade que os dados não permitem medir.
Mas uma coisa já pode ser dita: a eleição ainda não terminou, e a fotografia política do Acre também não está completa.
O segundo turno dirá se a ausência feminina no Legislativo será acompanhada — ou não — por uma presença feminina no comando do Estado.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes reflexões desta eleição.
As mulheres são maioria entre aqueles que escolhem. Agora, o Acre mostrará quantas mulheres estarão entre aquelas que governam.
A resposta estará nas urnas.
E, desta vez, talvez a pergunta não seja apenas quem venceu.
Será também quantas mulheres o Acre decidiu colocar no poder.




