Rio Branco, AC, 10 de outubro de 2026 12:25
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O que sobrou da felicidade

​O café no copo descartável já tinha esfriado há muito tempo. Ele rodava o copo de plástico devagar entre os dedos, os olhos fixos na mesa, sem encarar nada em particular. Estávamos ali na Delegacia da Mulher, aqui mesmo em Rio Branco.

​Já passava das sete da noite, mas aquela ocorrência não ia embora com o fim do plantão. Meu colega delegado — que já viu de tudo nessa vida de distintivo — desabafou com uma voz fina, quase um sussurro de quem tenta engolir um nó seco na garganta. Falou da frieza dos depoimentos, da postura quase natural do agressor e do silêncio assustado de duas garotinhas sentadas num banco de madeira. Um policial da reserva. Alguém que um dia vestiu a farda para proteger.

​Ele tentava processar o absurdo do que acabara de investigar: um policial que tirou a vida da mãe daquelas meninas, uma mulher indefesa, bem diante dos olhos das duas filhas — duas crianças de apenas três e sete anos de idade. Um crime que rompeu de uma só vez o laço da maternidade, o dever da farda e a infância daquelas garotas.

​— A gente estuda o direito, cumpre o protocolo, assina o inquérito… mas nós somos de carne e osso — ele disse, olhando para o vazio da sala. Em casa, esperava por ele uma filha recém-nascida.

​— Como é que a gente volta para casa, olha para o berço da própria filha e dá um abraço na família depois de ver o chão de uma casa ser arrancado desse jeito?

​Fiquei com aquele silêncio pesado martelando no peito. É uma dor que vem de longe, que parece entranhada nas raízes da nossa terra e do nosso povo. A gente olha para a história do nosso Acre e enxerga a sombra antiga do seringal. Nas colocações de centro, no meio da mata fechada, o corte da seringueira não tirava só o leite da árvore; talhava também um patriarcado duro, onde a mulher aprendia desde menina a resignação, o silêncio e o servir. Criaram-se gerações de irmãs, mães e filhas sob a ordem da submissão.

​A gente tende a achar que essa dor é um atraso só nosso, uma poeira presa às margens dos nossos rios, e que basta caminhar para longe para esquecer o peso da terra. Mas o feminicídio não respeita fronteiras nem pede licença aos mapas. Ele viaja na bagagem dos que partem.

​Foi assim com a nossa conterrânea Glória Perez. Ela deixou o Acre ainda jovem, levada pelos caminhos da vida até o Rio de Janeiro. Poderia parecer que, ao cruzar o país e alcançar o centro urbano mais reluzente do Brasil, ela teria se abrigado longe daquela brutalidade antiga do interior.

​Mas a ilusão da distância caiu por terra de forma trágica. O pesadelo que levou a vida de sua filha, anos mais tarde, provou que esse machismo tétrico e essa dominação violenta não têm endereço fixo, sotaque ou geografia: são uma teia espalhada pelas veias de todo o Estado brasileiro.

​Essa marca é do país inteiro. O Brasil que hoje chora o feminicídio é o mesmo em que a mulher só conquistou o direito elementar de votar em 1932, no governo Vargas. Durante toda a República Velha, enquanto os homens decidiam os rumos da nação, a mulher era tratada como uma sombra sem voz, sem escolha e sem cidadania. Uma cultura inteira construída para tratar quem dá a vida como objeto ou posse.

​Aquelas palavras do meu colega e a imagem das duas menininhas continuaram martelando na minha cabeça. Foi impossível não lembrar das palavras de Glória Perez em um depoimento marcante, onde ela desabafa sobre o assassinato da filha.
​Na lembrança das palavras dela, toda essa construção histórica e a dor vivida na delegacia se encontraram num só ponto. Ver uma mãe falar da filha arrancada é ver a anatomia de um golpe que nunca cicatriza.

​O que ouvi ela dizer batia forte no coração. Em cada frase dita por aquela mãe, Glória expôs as entranhas daquilo que a violência produz:

​— Não tem como virar a página para a existência de um filho. Quando se mata uma pessoa, mata-se tudo o que ela poderia ter feito em vida.

​Fez uma pausa dolorosa e continuou:

​— Mata-se o futuro. As pessoas que estariam ao nosso lado e que foram sumariamente excluídas desse convívio. Os netos que não virão, os Natais que teríamos juntos… A plenitude que se acaba e a felicidade que passa a ser, até o fim dos dias, uma felicidade pela metade.
​O feminicídio não é só o disparo ou o golpe no instante do crime. É a ausência que se prolonga pelas décadas. É a cadeira que sobra na mesa de domingo, o abraço de Ano Novo que fica suspenso no ar, o portão da frente que nunca mais vai se abrir com o riso de quem chegava.

​E quando o dia amanhece, a gente olha para o nosso parlamento estadual e percebe como o fantasma de 1932 continua rondando as urnas: nenhuma mulher eleita na nova composição. Nenhum rosto feminino na tribuna para falar da dor, do medo, do amparo e da vida de suas iguais. O patriarcado que mata dentro de casa é o mesmo que apaga a mulher dos espaços onde se decide o futuro.

​Nós, homens e mulheres de coração e distintivo, continuaremos atendendo aos chamados, colhendo depoimentos e lavrando os autos. Mas enquanto o país continuar carregando essa herança secular de posse e o poder público continuar cego para esse vazio de vozes femininas, continuaremos a ver famílias inteiras recolhendo os cacos do que sobrou — tentando aprender a respirar numa terra de felicidades cortadas ao meio.

​Emylson Farias
Delegado de Polícia