A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) mobilizou uma equipe especializada para investigar relatos sobre a presença de indígenas isolados na comunidade Santa Cruz, zona rural de Jordão, no interior do Acre. As informações chegaram ao órgão na terça-feira, 20, e incluem imagens que indicariam a entrada de indígenas em uma propriedade da região.
Segundo relatos divulgados anteriormente, dois indígenas teriam entrado em uma residência na Fazenda Rosa Branca e levado alimentos não perecíveis e utensílios domésticos. O episódio provocou preocupação entre moradores diante da possibilidade de conflitos.
Em nota, a Funai informou que servidores da Frente de Proteção Etnoambiental Envira já estão em campo para levantar informações, conversar com moradores e identificar possíveis rotas de deslocamento do grupo. A equipe integra o Serviço de Qualificação e Localização de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato e foi mobilizada após o órgão tomar conhecimento dos registros.
Os trabalhos fazem parte de uma expedição de monitoramento territorial iniciada em 14 de outubro na região do alto rio Muru. A atividade busca atualizar informações sobre a movimentação de povos isolados, identificar fatores de risco e orientar as comunidades locais sobre a necessidade de respeitar os territórios tradicionalmente ocupados por esses grupos.
De acordo com a Funai, os técnicos também vão procurar vestígios materiais na localidade para compreender os deslocamentos e reunir elementos que ajudem a identificar a origem étnica do grupo. O órgão não confirmou, na nota, a identidade dos indígenas mencionados nos relatos.
A presença desses povos nas cabeceiras dos rios do Vale do Envira já foi registrada em outras ocasiões. O antropólogo Terry Aquino afirmou que indígenas isolados foram vistos em novembro de 2023 na aldeia Segredo do Artesão, na Terra Indígena Kaxinawá da Praia do Carapanã. Em 2012, também houve relatos de passagem nas proximidades das aldeias Mutum e Nova Esperança, na Terra Indígena Rio Gregório.
Aquino explicou que grupos da etnia Mashco Piro, do Peru, percorrem áreas próximas às cabeceiras dos rios Juruá, Jordão e Envira. A identificação do grupo citado no episódio atual, no entanto, depende da apuração em andamento.
A secretária extraordinária dos Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, também havia informado que seria organizada uma força-tarefa com representantes do movimento indígena para visitar a área. Segundo ela, a secretaria ainda não tinha recebido comunicação oficial da Funai quando se pronunciou sobre o caso.
A Fundação ressaltou que o monitoramento na região ocorre de forma contínua, com equipes distribuídas em bases de proteção nos rios Xinane, Jordão e Humaitá. O órgão afirmou ainda que a política de não contato e o respeito à autodeterminação dos povos isolados são diretrizes centrais da atuação estatal, assim como a proteção de seus territórios tradicionais.
Leia a íntegra da nota da Funai:
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por meio da Coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental Envira (CFPE-EVA), informa que tomou conhecimento, no dia 20 de outubro, de relatos e imagens que sugerem o ingresso de indígenas isolados na Comunidade Santa Cruz, localizada na zona rural do município de Jordão (AC).
As informações preliminares foram transmitidas à CFPE-EVA por servidores da Base de Proteção Etnoambiental (BAPE) D’Ouro, vinculada à Unidade Avançada II (Jordão), com base em registros fotográficos e de vídeo capturados por sistemas de monitoramento de propriedades locais.
Diante do ocorrido, a CFPE-EVA mobilizou imediatamente uma equipe do Serviço de Qualificação e Localização (SEQLII). Os servidores já realizavam, desde o dia 14 de outubro, uma expedição regular de monitoramento territorial na calha do alto rio Muru, abrangendo comunidades ribeirinhas situadas no entorno da área de ocupação tradicional da Referência nº 115 (Isolados/Cabeludos do Humaitá).
Essa atividade de rotina busca atualizar dados sobre a dinâmica territorial de povos em isolamento, mapear pressões ou fatores de risco e sensibilizar a população regional sobre a importância de respeitar os limites desses territórios. Com o suporte operacional do Serviço de Proteção Etnoambiental (Seprote) e da Unidade Avançada II, os técnicos deslocaram-se até a localidade para dar início aos protocolos institucionais de acompanhamento.
A equipe da Funai realiza o levantamento de informações com os moradores da área e promove ações de sensibilização sobre as diretrizes protetivas do órgão. Nos próximos dias, os trabalhos de campo concentrarão-se na busca e qualificação de vestígios materiais deixados na localidade e na investigação de possíveis rotas de deslocamento. O procedimento é indispensável para aprimorar as informações sobre a identidade étnica do grupo.
A Funai reafirma seu compromisso com a proteção dos direitos dos povos indígenas isolados e de recente contato. O monitoramento e a vigilância territorial seguem de forma contínua no extenso complexo que abrange as cabeceiras dos rios Tarauacá, Muru e Envira, por meio da atuação conjunta de suas frentes especializadas e das equipes lotadas nas BAPEs das Unidades Avançadas I (Xinane), II (Jordão) e III (Humaitá).
Por fim, o órgão destaca que a política de não contato, o respeito à autodeterminação e a garantia da exclusividade do uso das terras tradicionais permanecem como as principais diretrizes do Estado brasileiro para a salvaguarda dessas populações.





