Rio Branco, AC, 21 de julho de 2026 08:29
Home / CIDADES / Outras notícias / Hepatites virais podem evoluir por anos sem sintomas; infectologista alerta para a importância do diagnóstico precoce

Hepatites virais podem evoluir por anos sem sintomas; infectologista alerta para a importância do diagnóstico precoce

No Julho Amarelo, especialista esclarece os principais mitos sobre a doença e explica quem deve fazer os testes, mesmo sem apresentar sinais.

A Região Norte concentra uma das maiores cargas de hepatites virais do Brasil, com destaque para as infecções pelos vírus B e Delta, que apresentam alta circulação na Amazônia. Estados como Rondônia, Acre e Amazonas estão entre as áreas de maior ocorrência da hepatite B no país, enquanto a hepatite Delta — que só infecta pessoas já contaminadas pelo vírus B — concentra mais de 73% dos casos nacionais na região.

Apesar da alta incidência, um dos principais desafios no enfrentamento das hepatites virais é o diagnóstico tardio. Muitas pessoas convivem durante anos ou até décadas com a infecção sem apresentar sintomas, permitindo a evolução silenciosa de danos ao fígado, como cirrose e câncer hepático.

Durante o Julho Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre as hepatites virais, a infectologista e docente do curso de Medicina da Afya São Lucas, Rayra Almeida, alerta para a importância da testagem, da vacinação e da prevenção. Segundo a especialista, o desconhecimento ainda é um dos principais obstáculos para o controle da doença.

É mito ou verdade que as hepatites virais sempre apresentam sintomas?

Mito. As hepatites virais frequentemente são assintomáticas, especialmente nas fases iniciais ou nas infecções crônicas. Quando sintomas ocorrem na hepatite aguda, podem incluir mal-estar, fadiga, anorexia, náuseas, vômitos, diarreia (hepatites A e E), dor no quadrante superior direito ou epigástrica, icterícia, urina escura e fezes claras. Entretanto, muitas pessoas com hepatite B ou C crônica permanecem sem sintomas por anos ou décadas, até que desenvolvam complicações como cirrose ou câncer de fígado.

É verdade que uma pessoa pode conviver com hepatite por anos sem saber? Quem deve fazer o teste, mesmo sem sintomas?
Verdade. As hepatites B e C podem permanecer assintomáticas por anos ou décadas, causando danos progressivos ao fígado sem que a pessoa perceba. Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas no mundo vivam com hepatite B ou C crônica.

As recomendações de triagem incluem que todos os adultos com 18 anos ou mais devem fazer triagem para hepatite B e hepatite C pelo menos uma vez na vida.

Devemos lembrar também das Pessoas com fatores de risco adicionais como histórico de infecções sexualmente transmissíveis, múltiplos parceiros sexuais, uso de drogas injetáveis, pessoas privadas de liberdade ou ex-presidiários, histórico de hepatite C, exposição ocupacional a sangue. Além disso, qualquer pessoa que solicite o teste deve recebê-lo, independentemente de divulgar fatores de risco.

É mito ou verdade que compartilhar alicates de unha, lâminas de barbear e outros objetos de uso pessoal pode transmitir hepatites?
Verdade. As hepatites B, C e D são transmitidas por exposição a sangue infectado. Objetos cortantes ou perfurantes de uso pessoal, como alicates de unha, lâminas de barbear, escovas de dente e equipamentos de manicure, podem conter resíduos de sangue e representam risco de transmissão se compartilhados. Por isso, esses objetos devem ser de uso individual e não compartilhados.
É verdade que abraço, beijo, aperto de mão, copos e talheres transmitem hepatites virais?

Mito. As hepatites B, C e D são transmitidas por exposição a sangue infectado, não por contato casual. Abraços, beijos, apertos de mão, compartilhamento de copos, talheres ou alimentos não transmitem essas hepatites. A hepatite A e E são transmitidas pela via fecal-oral (água ou alimentos contaminados), não por contato social casual. O convívio social normal com pessoas que têm hepatite é seguro.
É mito ou verdade que existe vacina para todas as hepatites? Quais hepatites podem ser prevenidas pela vacinação?

Mito. Não existem vacinas para todas as hepatites virais.

As Vacinas disponíveis no Brasil pelo SUS são para Hepatite A o qual são seguras e eficazes, com 95-100% de proteção e imunidade duradoura e Hepatite B vacinas altamente imunogênicas, com mais de 90% de proteção e persistência imunológica por até 35 anos.
Porém, não temos vacina disponível para Hepatite C e Hepatite D. A prevenção contra Hepatite D ocorre através da vacinação contra hepatite B, pois o vírus D só infecta pessoas já infectadas pelo vírus B.

É verdade que, quando não diagnosticadas e tratadas, as hepatites podem evoluir para cirrose e câncer de fígado?
Verdade. As hepatites B e C crônicas podem evoluir para cirrose e carcinoma hepatocelular (câncer de fígado) quando não diagnosticadas e tratadas. A cirrose está presente em mais de 80% dos pacientes com câncer de fígado, e pacientes com cirrose de qualquer etiologia têm aproximadamente 2% de risco anual de desenvolver câncer hepático. Níveis elevados de DNA viral, status HBeAg e presença de cirrose são preditores importantes do risco de câncer de fígado. O tratamento antiviral para hepatites B e C reduz significativamente o risco de câncer hepático, embora pacientes com cirrose continuem com risco persistente. O diagnóstico precoce e tratamento efetivo antes do desenvolvimento de fibrose substancial ou cirrose podem prevenir o câncer de fígado, tornando-o uma das malignidades mais preveníveis.

É mito ou verdade que apenas pessoas com comportamentos considerados de risco podem contrair hepatites virais?
Mito. Embora certos comportamentos aumentem o risco de hepatites, qualquer pessoa pode contrair hepatites virais. As hepatites A e E são transmitidas pela via fecal-oral através de água ou alimentos contaminados, podendo afetar qualquer pessoa exposta. As hepatites B, C e D, embora mais comuns em grupos de risco (uso de drogas injetáveis, exposição ocupacional, múltiplos parceiros sexuais), também podem ser transmitidas por exposições não intencionais a sangue contaminado, procedimentos médicos ou odontológicos inadequadamente esterilizados, transmissão vertical (mãe para filho) e outras situações. Por isso, as recomendações atuais incluem triagem universal de todos os adultos, independentemente de fatores de risco conhecidos.

Qual é o principal mito sobre hepatites que gostaria de esclarecer para a população neste Julho Amarelo?

O principal mito a esclarecer é que muitas pessoas acreditam que as hepatites virais sempre causam sintomas e só afetam pessoas com comportamentos de risco. Porém, a realidade é que as hepatites B e C frequentemente são silenciosas por anos ou décadas, causando danos progressivos ao fígado sem sintomas aparentes. Milhões de pessoas vivem com hepatite crônica sem saber. Além disso, qualquer pessoa pode contrair hepatites, não apenas aquelas com comportamentos considerados de risco. Por isso, a triagem universal de todos os adultos é agora recomendada, e o diagnóstico precoce seguido de tratamento pode prevenir complicações graves como cirrose e câncer de fígado.