Rio Branco, AC, 21 de julho de 2026 18:42
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Café coado, sem açúcar e em moderação: a combinação que pode favorecer o coração

Durante décadas, o café foi tratado com desconfiança por parte da medicina. A cafeína chegou a ser vista como uma possível ameaça ao coração, especialmente por sua relação com aumento da pressão arterial e palpitações. Uma revisão de evidências científicas publicada pela Associação Norte-Americana do Coração, porém, ajuda a redesenhar esse cenário: para a maioria dos adultos saudáveis, o consumo moderado da bebida não parece elevar o risco cardiovascular e pode estar associado a benefícios para o coração.

A quantidade, no entanto, continua sendo determinante. A análise aponta que a ingestão diária de até 400 mg de cafeína — valor que pode equivaler, dependendo do preparo e do tamanho da xícara, a cerca de três ou quatro cafés — é considerada segura para a maior parte dos adultos saudáveis. Em determinados estudos, o consumo moderado apareceu relacionado a menor ocorrência de doenças cardiovasculares, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral (AVC).

A conclusão não transforma o café em remédio nem autoriza o consumo indiscriminado. O que os estudos sugerem é uma relação entre a bebida, quando consumida de forma moderada, e determinados indicadores favoráveis de saúde. A associação também depende da forma como o café é preparado e, sobretudo, do que é acrescentado à bebida.

O café filtrado e o instantâneo, consumidos sem grandes quantidades de açúcar, cremes e xaropes, aparecem entre as opções mais favoráveis. Já bebidas energéticas exigem cautela. Em pouco volume, elas podem concentrar doses elevadas de cafeína e outros estimulantes, aumentando a possibilidade de efeitos adversos sobre a pressão arterial e o ritmo cardíaco.

A diferença está também na composição do café. A cafeína é apenas uma das substâncias presentes na bebida. O grão reúne compostos bioativos, como os ácidos clorogênicos, pertencentes ao grupo dos polifenóis e associados a propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Outros componentes também podem contribuir para os efeitos observados em pesquisas sobre metabolismo e funcionamento dos vasos sanguíneos.

É justamente essa combinação que impede uma interpretação simplista sobre a bebida. O café não deve ser analisado apenas como uma fonte de cafeína. Seus efeitos dependem de um conjunto de substâncias presentes na bebida e da maneira como ela é preparada e consumida.

O problema pode estar no que vai para a xícara

O hábito brasileiro de adoçar o café também entra na equação. Uma bebida originalmente de baixa carga calórica pode se transformar em uma preparação com excesso de açúcar e gordura quando recebe grandes quantidades de xaropes, cremes, chantilly ou outros ingredientes.

Nesse cenário, o benefício potencial associado ao café pode ser diluído por hábitos alimentares menos saudáveis. O problema, portanto, não está necessariamente na bebida em si, mas na transformação do café em uma espécie de sobremesa líquida, consumida repetidamente ao longo do dia.

A relação com o diabetes tipo 2 também aparece nas evidências analisadas. O consumo habitual de café sem excesso de açúcar foi associado, em alguns estudos, a menor risco de desenvolvimento da doença. Os pesquisadores, contudo, ressaltam que ainda há questões a serem esclarecidas e que parte das evidências disponíveis é baseada em estudos observacionais.

A forma de preparo é outro fator que pode alterar os efeitos metabólicos do café. Métodos que não utilizam filtros de papel, como a prensa francesa, o café turco e algumas formas de expresso, preservam substâncias como cafestol e kahweol.

Esses compostos estão associados ao aumento do colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, sobretudo quando o consumo é frequente e elevado. O filtro de papel, por outro lado, retém grande parte dessas substâncias.

Para pessoas que já apresentam colesterol elevado, a escolha pelo café filtrado pode ser uma medida simples para reduzir a exposição a esses compostos. Isso não significa que outros métodos precisem ser completamente eliminados, mas o modo de preparo passa a ter importância maior dentro de uma estratégia de controle cardiovascular.

A relação entre café e coração também não é igual para todos. A velocidade de metabolização da cafeína varia conforme fatores genéticos, idade, metabolismo, medicamentos utilizados e condições de saúde.

Enquanto algumas pessoas conseguem consumir várias xícaras sem apresentar efeitos perceptíveis, outras podem desenvolver ansiedade, tremores, palpitações ou dificuldade para dormir após pequenas quantidades.

As evidências disponíveis também não indicam que o consumo moderado aumente, de forma geral, o risco de fibrilação atrial. Em alguns estudos, o consumo habitual chegou a ser associado a uma menor ocorrência desse tipo de alteração do ritmo cardíaco. Doses elevadas de cafeína, contudo, podem favorecer palpitações e outras alterações em pessoas mais sensíveis.

A recomendação, portanto, precisa ser individualizada. Pessoas com hipertensão não controlada, arritmias sintomáticas, distúrbios do sono ou maior sensibilidade à cafeína podem precisar limitar o consumo mesmo dentro dos níveis considerados seguros para a população geral.

No fim, a mensagem da revisão é menos uma autorização para beber café sem limites do que uma mudança na forma de olhar para a bebida. Para a maioria dos adultos saudáveis, o café moderado pode integrar uma rotina de hábitos favoráveis à saúde cardiovascular. Mas não substitui exercício físico, alimentação equilibrada, controle da pressão arterial, acompanhamento do colesterol ou tratamento médico.

Entre o excesso e a restrição desnecessária, a ciência parece apontar para uma terceira via: o café pode permanecer na rotina, desde que a quantidade, o preparo e a resposta individual sejam levados em consideração.