Ex-governador diz que aumento da violência no Acre ocorreu em meio à expansão de organizações criminosas pela Amazônia e critica falta de uma ação coordenada nas fronteiras
O ex-governador do Acre, médico infectologista e professor Tião Viana, afirmou que seu governo alertou repetidamente o governo federal sobre o avanço das facções criminosas na Amazônia e os riscos de aumento da violência no Estado. A declaração foi feita nesta quinta-feira, 23, durante participação no podcast Papo Informal
Questionado sobre as críticas de que as facções criminosas, como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), teriam chegado ao Acre durante sua gestão, Tião Viana reconheceu o crescimento dos indicadores de violência, mas afirmou que o fenômeno fazia parte de um processo mais amplo de expansão das organizações criminosas por diferentes estados brasileiros.
“O que se disser dos indicadores de violência no meu governo é verdade. Seja a oposição, seja o governo, não tem problema quanto a isso. Só que a verdade tem que ser plena, ela não pode ser parcial”, declarou.
Segundo o ex-governador, a expansão das facções ocorreu simultaneamente em estados como Rondônia, Amazonas, Pará e Mato Grosso, além de outras regiões do país. Na avaliação dele, a intensificação do combate ao crime no Rio de Janeiro teria contribuído para a movimentação das organizações criminosas em direção a outras áreas do território nacional.
Tião Viana afirmou que o avanço das facções provocou aumento nos homicídios e no número de prisões por tráfico de drogas durante sua gestão. De acordo com ele, mais de 4 mil pessoas foram presas por envolvimento com o tráfico.
O ex-governador disse ter alertado o governo federal por mais de 20 vezes sobre os riscos da expansão do crime organizado e defendeu a criação de um sistema nacional de segurança pública semelhante aos modelos existentes nas áreas de saúde e educação.
Segundo Viana, a proposta incluía a integração entre União, governos estaduais e municípios, além de cooperação com países vizinhos. Ele também defendeu o reforço da presença das Forças Armadas nas regiões de fronteira da Amazônia.
“Nós precisamos desse potencial das Forças Armadas na Amazônia. Vamos trazer 300 mil homens para as fronteiras”, afirmou, ao citar a concentração de efetivos militares em outras regiões do país.
Para o ex-governador, a aparente redução dos índices de violência observada atualmente não significa necessariamente que o problema tenha sido resolvido. Segundo ele, a convivência entre grupos criminosos rivais e a ausência do Estado em determinadas áreas podem criar uma sensação de estabilidade que, na realidade, esconderia um cenário de tensão.
“Isso vai estourar daqui a pouco de maneira terrível”, alertou.
Tião Viana também chamou atenção para o impacto econômico do tráfico de drogas no Acre. Segundo ele, o Estado apreende apenas uma pequena parcela das drogas que circulam pela região e afirmou que o dinheiro proveniente do crime organizado pode estar por trás de parte do crescimento patrimonial observado em determinados setores da sociedade.
“Não é só corrupção do dinheiro público, não. É esquema de droga também”, declarou.
O ex-governador ainda defendeu que o debate sobre segurança pública seja conduzido com transparência e sem manipulação de dados. Para ele, os números da violência precisam ser apresentados de forma clara para que a população compreenda a dimensão real do problema.





