Não porque eu goste de campanha, de santinho, de carreata ou daquele interminável desfile de promessas que reaparece a cada quatro anos. Gostaria porque, aparentemente, é somente quando o eleitor se prepara para votar que alguns políticos descobrem que o povo existe — e, mais impressionante ainda, que quase todos os problemas têm solução. É nessa época que surgem as fórmulas mágicas.
O candidato conhece a solução para a saúde, para a educação, para a segurança, para o desemprego, para o transporte, para a agricultura, para a infraestrutura e, se bobear, até para o calor de Rio Branco. Tudo parece simples. Basta eleger a pessoa certa.
O discurso vem embalado em frases bonitas, planos grandiosos e compromissos que parecem caber perfeitamente em qualquer palanque. O problema é que, passada a eleição, muitas dessas certezas desaparecem com a mesma velocidade com que surgiram.
E é justamente aí que começa a verdadeira reflexão. Durante a campanha, o candidato aprende rapidamente a pronunciar palavras que o eleitor gostaria de ouvir: mudança, renovação, oportunidade, desenvolvimento, dignidade, trabalho, saúde e esperança.
Nada disso é ruim. Pelo contrário.
Uma democracia saudável precisa de projetos, propostas e esperança. O problema começa quando a promessa substitui o planejamento e quando o discurso passa a ser mais importante do que a capacidade de executar aquilo que foi prometido.
Há candidatos bem-intencionados, evidentemente. Seria injusto colocar todos no mesmo saco. Existem pessoas que entram na política movidas pela vontade legítima de contribuir, corrigir problemas e melhorar a vida coletiva. Mas também existe o outro lado.
A política, infelizmente, ainda atrai quem enxerga o cargo público como oportunidade pessoal, vitrine de poder ou caminho para preservar privilégios. E são esses personagens que ajudam a alimentar a má fama da classe política.
O cidadão olha para Brasília, para as assembleias legislativas, para as câmaras municipais e para os governos e, muitas vezes, chega à conclusão de que todos são iguais. Não são. Mas alguns fazem questão de parecer.
Talvez a parte mais desconfortável dessa conversa seja reconhecer que a responsabilidade não está apenas nos políticos. Também precisamos falar sobre nós, eleitores.
Somos nós que entregamos o voto. Somos nós que escolhemos quem terá poder para administrar bilhões de reais, definir políticas públicas, nomear equipes, fiscalizar contratos e decidir prioridades.
Por isso, eleição não deveria ser um concurso de simpatia. Não deveria vencer quem grita mais alto, quem distribui mais abraços, quem faz a carreata mais barulhenta ou quem produz o vídeo mais emocionante para as redes sociais.
Voto não é prêmio. Voto é responsabilidade. E talvez devêssemos fazer uma pergunta simples antes de escolher um candidato: o que essa pessoa fez quando não precisava do meu voto? Essa pergunta vale ouro.
Porque é fácil aparecer no bairro quando a urna está se aproximando. Difícil é estar presente quando não há fotografia, palanque ou equipe de comunicação registrando. É fácil prometer um hospital. Difícil é explicar de onde virá o dinheiro, qual será o prazo, quem vai executar, quanto custará e como o serviço será mantido depois de inaugurado.
É fácil prometer emprego. Difícil é explicar quais setores serão estimulados, quais investimentos serão atraídos, quais obstáculos serão removidos e como o resultado será medido. É fácil dizer que vai mudar tudo. Difícil é começar por aquilo que realmente precisa ser mudado.
A política do “agora vai”
Existe uma espécie de tradição eleitoral no Brasil: a cada eleição, o futuro parece começar novamente. O candidato apresenta um projeto como se nada tivesse sido feito antes. O adversário afirma que tudo está errado. O eleitor é convidado a acreditar que, dessa vez, finalmente encontraremos o caminho definitivo para o desenvolvimento.
Mas uma sociedade não se transforma a cada quatro anos. Transformação exige continuidade. Uma escola não melhora apenas porque mudou o prefeito. Um hospital não funciona melhor porque mudou o governador. Uma estrada não fica pronta porque houve uma eleição.
Políticas públicas precisam sobreviver aos mandatos. Governos passam. O Estado permanece. Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre fazer política e fazer campanha.
Gostaria, eu, este escriba, de uma população que não entregasse um cheque em branco depois de apertar alguns números na urna eletrônica.
Porque votar é apenas o primeiro ato. Depois dele, começa uma tarefa que deveria durar quatro anos: acompanhar, fiscalizar, questionar e cobrar.
No fim das contas, talvez seja justamente essa a maior diferença entre um eleitor e um espectador. O espectador assiste à política. O eleitor participa dela. E uma democracia verdadeiramente madura não precisa de promessas a cada quatro anos. Precisa de cidadãos atentos durante todos os quatro anos.





