Sentado numa cadeira no fundo de casa, olho para o céu de Rio Branco. Manto limpo, absurdamente estrelado. Lá no alto, a luz solitária de um avião rasga a noite em silêncio. Não sei de onde vem nem para onde vai. Ele passa flutuando no sossego de quem não enxerga a poeira e as dores daqui de baixo.
Dá uma inveja quase confessável dessa ignorância.
Às vezes acho que a nossa angústia vem de enxergar demais. O homem que não entende a engenharia cínica do mundo sofre o cansaço do corpo, mas dorme em paz. Já quem descobre como as engrenagens de fato funcionam perde o sossego para sempre. A verdade não traz consolo; traz um dever moral incômodo de não conseguir mais olhar para o lado.
Nesta noite, a voz do meu pai voltou a ecoar no quintal, me contando dos meus tios, Oscar e Francisco.
Os dois eram os mais velhos. Carregavam nos ombros a dupla missão de sustentar a família e comprar a liberdade de todos nós contra a opressão do dono do seringal. Naquele tempo, o homem simples já nascia devendo ao barracão. A única alforria possível era no suor.
Madrugada fechada, duas da manhã, eles já estavam de pé. Encaravam o sereno da madrugada no meio da mata, ajustavam a poronga na cabeça — aquela lâmpada artesanal que clareava o escuro — e ganhavam a estrada de seringa. Cortavam árvore por árvore na precisão da faca, sem parar, até o limite exato das forças físicas. Depois voltavam colhendo o látex balde por balde, para só então encarar a fumaça tóxica da defumação. Dormiam cedo, exaustos, só para no dia seguinte repetir tudo de novo.
Fazer tudo sempre igual não era conformismo; era uma guerra sagrada. Foi no manejo da faca e na lida paciente ao lado da mata que eles conseguiram liquidar a conta do barracão, libertar a família daquelas amarras e abrir caminho para que os mais novos pudessem ir para a cidade trabalhar e estudar. A dor deles tinha um sentido.
Meus tios não conheciam a teoria das estruturas econômicas, mas eram vítimas diretas delas. O patrão do seringal era só a ponta visível de uma engrenagem maior que mantinha o homem simples preso à miséria.
O que me apavora é perceber que essa engrenagem não acabou; ela só trocou de roupa. Hoje, o nosso povo continua oprimido, agora guiado por outras porongas e acorrentado a novas dívidas invisíveis.
A tragédia do nosso tempo é que, se homens como Tio Oscar e Tio Francisco estivessem vivos e quisessem ser a voz dessa gente — se quisessem ser os representantes legítimos de quem sofre na pele a dor da comunidade —, eles enfrentariam um muro quase intransponível.
Esse muro não é a Política. Ela é a arte do bem comum, o caminho real para transformar realidades e garantir que as pessoas vivam com dignidade. O problema nunca foi ela, mas o poder econômico que se assenta no trono e sequestra essa ferramenta sagrada.
Saber que nos grandes centros do país, como São Paulo ou Rio de Janeiro, uma candidatura a vereador chega a movimentar R$ 5 milhões declarados no papel — sem contar o que corre por fora — me dá um nó na garganta. Fico imaginando a dinheirama que se lança pelo país adentro para ocupar uma cadeira de deputado estadual ou na Câmara Federal.
O dinheiro apequenou a disputa. A honestidade do braço, a sola do sapato gasta na poeira e a palavra dada olho no olho foram humilhadas por montanhas de valores invisíveis.
Não sou ingênuo. Sei que a estrutura sempre jogou contra o homem simples. Desde o voto de cabresto até as atas fraudadas a bico de pena na República Velha, a decisão sempre foi empurrada para os salões do andar de cima.
Mas o que hoje me estarrece é o cinismo escancarado desse festival de cifrões. O dinheiro que amarra a representatividade e soterra a política é, no fim das contas, o nosso próprio dinheiro — o suor do povo transformado em recursos para financiar o banquete dos mesmos de sempre.
Diante disso, a pergunta que me sobra no silêncio do quintal é dolorosa: quem vivia com mais paz? Quem tinha o sono mais tranquilo? Meus tios, no Brasil real da lida, ou nós, engolidos por essa engenharia cínica?
Às vezes penso que a ignorância da estrutura era um santo remédio para eles. Se tivessem a clareza de como a armadilha era desenhada para aprisioná-los, não sei se teriam forças para levantar às duas da manhã, de segunda a segunda, e encarar aquele regime de sofrimento.
A diferença é que a dor deles tinha um propósito sagrado: a libertação. Eles eram mais inteiros porque acreditavam na honra do próprio trabalho. Já a nossa dor de hoje é a perplexidade de ver a verdadeira Política ser esmagada pelo balcão dos negócios.
A consciência nos tira o sossego da cegueira, mas nos devolve o direito de não nos anestesiarmos. Não sei onde essa engrenagem vai dar, mas sei que manter a alma desperta é o único jeito de honrar o suor dos meus tios, preservar a dignidade do que somos e seguir de pé — plenamente humano.
Emylson Farias
Delegado de polícia





