Carinho não se fatia
Como pão de padaria
Separaram pai e filha
Com caneta muda e fria
Quando a lei corta o espaço
E rouba a paz de um abraço
A dor vira companhia
O prato à minha frente era o retrato mais comum e mais exato do acolhimento: arroz, feijão, batata frita, carne macia, ovo frito. A fome vinha de horas de estrada e de bloqueios pelo caminho. Comi, repeti. Forrei o estômago de conforto numa mesa de família do interior, minutos antes de enfrentarmos o que nos aguardava a poucos quilômetros dali.
Na sala de audiências, o ambiente nos engolia. A juíza tirava e botava a tampa de uma caneta estilo Bic, num ritmo ansioso, enquanto a tela exibia a intransigência da outra parte, do outro lado da conexão de vídeo. Um amigo que a vida sentara na cadeira de cliente pedia, com a voz embargada, que a magistrada repetisse a explicação, porque o nervosismo não o deixava entender o que era dito.
O ar refrigerado tinha a frieza própria dos prédios públicos. Sob meus dedos, um papel dobrado em dois, onde eu desenhava, com a caneta emprestada pelo segurança, algumas linhas soltas e um boneco de palitinhos. E na boca, o gosto metálico da impotência engolida a seco.
A juíza e a promotora não eram algozes. Havia empatia no olhar delas, uma humanidade contida. No meu sentir, a magistrada errara nas liminares, e o erro do começo, somado à frieza da tela e ao que entendi por má vontade do outro lado em conversar, foi fechando as portas uma a uma — até sobrar um calendário que fatiava a convivência.
E foi ali vendo morrer na mesa o acordo que eu tentava costurar e sentindo o sistema esmagar a menina e esmagar aquele pai que confiava em mim que o sangue subiu e atropelou a liturgia e os anos de postura contida porque a injustiça quando bate de frente e machuca quem está do teu lado rasga qualquer manual de etiqueta jurídica e eu perdi a paciência pela primeira vez na carreira e ergui a voz rompendo o ar estéril da sala para dizer alto Então a gente vai com tudo pra cima.
Pra cima tinha endereço: a outra parte. E tinha tradução: guarda, pensão e tudo o mais — só que agora quem exigia éramos nós.
Na volta, o carro tinha um único som: a voz daquele pai, desabafando sem parar. Atravessamos um túnel verde na estrada, as copas fechadas por completo sobre o asfalto, sem passagem para um só raio de sol. Era lindo. Era sombrio. O túnel pairava sobre nós, anunciando um temporal que desabava apenas do lado de dentro.
Ao chegarmos, fomos direto para o abraço de quem nos aguardava. O amparo que recebeu rompeu a represa que ele segurava desde o fórum, e o homem desabou a chorar, dizendo palavras baixas. Eu também busquei o meu abraço.
Entramos todos e conversamos longamente. Tentamos trazer racionalidade à mesa, ajudá-lo a conviver com o que estava decidido, a se manter de pé.
Mas, naquela noite, o sistema ocupava uma cadeira entre nós.
André Fabris é escritor e advogado na Região Metropolitana de Porto Alegre.