Há dores que o tempo não consegue apagar e amores que nem mesmo a morte é capaz de interromper. Há quase 30 anos, Moizaira dos Santos Almeida transforma a saudade em flores, cores e gestos de carinho no Cemitério São João Batista, em Rio Branco. Neste Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira, 2 de novembro, a produtora rural voltou ao local para cuidar dos túmulos da mãe, Rita, e da filha, Moiziane, que morreu aos oito meses de vida, em 1993. Uma tradição que atravessou décadas e se tornou uma das mais emocionantes demonstrações de amor entre as histórias que marcam a data.
Moradora da Estrada de Sena Madureira, no quilômetro 22, Moizaira não espera o Dia de Finados chegar para demonstrar sua dedicação. Na véspera, já está no cemitério, limpando, organizando e preparando cada detalhe. Os túmulos recebem pinturas, flores e enfeites cuidadosamente escolhidos. Nada é feito por acaso: cada cor tem uma lembrança, cada detalhe carrega um significado.
Para ela, visitar o cemitério não é apenas uma tradição, mas uma forma de continuar exercendo o cuidado de mãe e filha, mesmo diante da ausência física de quem tanto ama.

“Eu tenho um cuidado especial porque a minha filha aqui. Mãe gosta de dedicar aos filhos, mesmo depois de mortos. Eu venho, arrumo, venho um dia antes para deixar tudo preparado. Minha mãezinha também está aqui, então eu me dedico a ajeitar tudo”, contou.
A decoração dos túmulos é um capítulo à parte nessa demonstração de afeto. O lilás e o amarelo eram as cores preferidas de sua mãe. Já o rosa foi incorporado em homenagem à filha, que morreu ainda bebê. A combinação transforma os espaços em pequenos jardins coloridos, destoando da sobriedade que normalmente caracteriza os cemitérios.
“Minha mãe gostava muito de lilás e amarelo. Minha filha também era criança, então eu coloco rosa, amarelo e lilás. É tudo muito colorido”, explicou.
A escolha das cores também está relacionada à maneira como Moizaira compreende a memória e a espiritualidade. Ela acredita que os entes queridos que partiram podem, de alguma forma, visitar os familiares. Por isso, faz questão de que os túmulos estejam sempre bonitos e bem cuidados.
“Eu penso que, quando elas vêm visitar, vão encontrar tudo bonitinho, perfeito. No ano passado, fiz uma decoração de Natal que ficou muito linda. A cada ano vou mudando as cores e preparando alguma coisa diferente”, relatou.

O gesto de carinho, entretanto, não se restringe à mãe e à filha. Moizaira contou que, somente na véspera do Dia de Finados deste ano, cuidou de nove sepulturas de familiares, entre elas as do pai, da irmã, de primos e tios. É uma missão que ela assumiu ao longo da vida e que pretende continuar cumprindo enquanto tiver condições.
A dedicação exige esforço. Aos 30 anos de tradição somam-se as dificuldades físicas e os problemas de saúde. Hipertensa e diabética, ela reconhece que enfrentar o sol forte e passar horas realizando a limpeza e a ornamentação dos túmulos não é tarefa simples. Ainda assim, não abre mão de estar presente.
“Eu faço isso todos os anos. Mesmo com o sol quente, venho com todo amor e carinho. Sou hipertensa, tenho diabetes e, às vezes, minha pressão fica alta, mas saio daqui satisfeita porque fiz o que tinha que fazer”, afirmou.
Questionada sobre o que a mantém firme nessa rotina, Moizaira resumiu o sentimento em palavras simples, mas carregadas de significado: amor, dedicação e saudade. A dor da perda continua presente, especialmente em uma data que faz reviver lembranças e ausências. Mas, para ela, cuidar dos túmulos é também uma maneira de manter viva a ligação com quem partiu.
No momento mais emocionante da conversa, ao ser perguntada sobre o que gostaria de dizer à filha, caso pudesse transmitir uma mensagem naquele instante, a produtora rural não escondeu o sentimento. “Eu digo para ela que a mãe ama muito. E amo minha mãe também. Muito amor, muito carinho. É isso que dedico a elas”, declarou.





