A crise do transporte coletivo de Rio Branco deixou de ser apenas um problema de mobilidade urbana para se transformar em um dos maiores desafios políticos enfrentados pela gestão do prefeito Alysson Bestene. Com apenas 30 ônibus circulando para atender uma demanda diária superior a 150 mil passageiros, o sistema opera muito abaixo da capacidade necessária, multiplicando filas, atrasos e a indignação da população. Em meio ao agravamento do cenário, a Câmara Municipal passa a ser pressionada a assumir protagonismo no debate, enquanto cresce a cobrança por respostas concretas da Prefeitura e da RBTrans.
Foi nesse contexto que o vereador André Kamai (PT) anunciou a apresentação de um requerimento para convocar o superintendente da RBTrans a comparecer ao Legislativo e detalhar quais medidas emergenciais estão sendo adotadas para minimizar os impactos da redução da frota durante o período de transição do sistema.
Para o parlamentar, a população não pode continuar enfrentando horas de espera sem conhecer qual é o plano do município para restabelecer a normalidade do serviço.
“O que esperamos é que a Prefeitura apresente soluções concretas. Existem alternativas, como a locação de veículos disponíveis no mercado ou até mesmo a utilização da frota da antiga empresa, caso haja viabilidade jurídica. Quem precisa explicar isso são os técnicos da RBTrans e o setor jurídico da Prefeitura. O que não pode acontecer é a cidade viver uma crise sem que ninguém saiba qual é o caminho para superá-la”, defendeu.
Além de cobrar o Executivo, Kamai fez uma autocrítica ao papel desempenhado pelo próprio Legislativo ao longo dos anos. Segundo ele, a atual situação não pode ser atribuída exclusivamente à administração municipal, uma vez que decisões estruturantes envolvendo o transporte coletivo passaram pela aprovação dos vereadores em diferentes legislaturas.
“A Câmara também é responsável pelo cenário que vivemos hoje. Todas as mudanças feitas no sistema ao longo dos últimos anos passaram por esta Casa e receberam aprovação. Portanto, o Legislativo precisa assumir sua parcela de responsabilidade e participar da construção das soluções, e não apenas acompanhar a crise de longe”, afirmou.
Apesar da cobrança, a possibilidade de o requerimento prosperar é considerada remota. A Câmara entra em recesso parlamentar nesta quinta-feira e a base de apoio do prefeito possui maioria suficiente para barrar a convocação ainda na fase de tramitação. Caso isso ocorra, a discussão deverá ser adiada justamente no momento em que o transporte coletivo enfrenta seu período mais delicado.
Enquanto o debate político se intensifica, quem depende dos ônibus continua pagando o preço da crise. Relatos de passageiros que aguardam entre duas e três horas nos pontos tornaram-se frequentes. Trabalhadores chegam atrasados ao emprego, estudantes perdem aulas e consultas médicas são desmarcadas por falta de transporte, evidenciando os reflexos diretos da redução da frota na rotina da cidade.
A Prefeitura sustenta que o cenário é temporário e decorre da substituição da empresa responsável pela operação do sistema. Segundo o vereador Samir Bestene (PP), aliado da gestão municipal, a administração trabalha para transformar um modelo que, segundo ele, acumula problemas estruturais há pelo menos duas décadas.
De acordo com o parlamentar, um grupo técnico foi criado logo no início da atual gestão para estudar alternativas capazes de reestruturar o transporte coletivo. O resultado desse trabalho foi a contratação emergencial de uma nova operadora, que terá até 60 dias para implantar uma frota superior a 100 ônibus, todos equipados com itens como Wi-Fi e dentro de padrões mais modernos de operação.
“A transição naturalmente provoca dificuldades, mas ela faz parte de um processo de reconstrução do sistema. O prefeito Alysson Bestene está determinado a resolver um problema histórico que nenhuma gestão conseguiu enfrentar de forma definitiva”, afirmou.
Apesar do discurso otimista da base governista, especialistas em mobilidade urbana alertam que a credibilidade do novo modelo dependerá da capacidade da Prefeitura de reduzir rapidamente os impactos da transição. Até lá, o maior desafio do município será equilibrar o tempo da reorganização administrativa com a urgência de milhares de usuários que dependem diariamente do transporte coletivo para trabalhar, estudar e acessar serviços essenciais.
Mais do que uma crise operacional, o colapso do transporte público expõe fragilidades acumuladas ao longo de décadas de decisões administrativas, contratos questionados e ausência de planejamento de longo prazo. Agora, sob pressão popular e política, a gestão municipal terá de demonstrar que a promessa de reconstrução do sistema conseguirá, de fato, devolver à população um serviço capaz de atender uma capital que já não suporta esperar horas por um ônibus.




