Motoristas de transporte por aplicativo ( UBER ) que atuam no Aeroporto Internacional de Rio Branco denunciam um suposto esquema suborno e perseguição praticado por agentes da RBTrans, que, segundo eles, beneficiaria taxistas que operam no terminal. As acusações incluem suposto recebimento de propina por parte de agentes de fiscalização, aplicação de multas consideradas arbitrárias e tratamento desigual entre taxistas e motoristas de aplicativo.
As denúncias foram encaminhadas à reportagem por diversos condutores, que afirmam temer represálias e, por isso, pedem que suas identidades sejam preservadas.
Segundo um dos motoristas, a categoria convive diariamente com fiscalizações que, segundo ele, têm como único objetivo dificultar o trabalho dos aplicativos.
“A gente trabalha honestamente para sustentar nossa família, mas vive sendo perseguido. O cliente liga diretamente para buscar ele no aeroporto, mas mesmo assim somos abordados e multados. O passageiro tem o direito de escolher quem vai fazer o transporte, mas parece que querem impedir isso”, afirmou.
O motorista relata ainda que um grupo de ubers passou a monitorar a movimentação no aeroporto e gravou um vídeo que, segundo eles, mostraria um taxista identificado apenas como Railton entregando uma quantia em dinheiro a um agente da RBTrans.
De acordo com o denunciante, embora o vídeo não registre com clareza o conteúdo da conversa nem o momento exato da entrega do dinheiro, pessoas que acompanhavam a situação afirmam ter ouvido o taxista perguntar ao agente “quanto estava devendo naquela noite”, antes de entregar uma quantia em espécie.
Os motoristas sustentam que o pagamento teria como finalidade intensificar a fiscalização contra os veículos de aplicativo.
“Só queremos trabalhar”
Outro motorista afirma que apenas uma mesma equipe da RBTrans realiza fiscalizações no aeroporto, o que, segundo ele, reforça as suspeitas levantadas pela categoria.
“É sempre a mesma equipe. Se puxarem as imagens das câmeras do aeroporto, vão ver isso. Depois desse vídeo, ficou ainda mais estranho. Quem estava lá ouviu o taxista perguntando quanto devia naquela noite antes de entregar o dinheiro.”
Segundo ele, o episódio registrado pode representar apenas uma entre várias situações semelhantes.
“Se essa foi uma das vezes que conseguimos filmar, quantas outras podem ter acontecido sem ninguém perceber?”
O motorista também denuncia que os agentes impediriam os veículos por aplicativo de permanecerem nas proximidades do terminal, enquanto taxistas teriam liberdade para ocupar áreas onde existe sinalização proibindo estacionamento.
“A gente não tem nem um espaço adequado para esperar passageiros. Somos obrigados a ficar longe do terminal, enquanto os taxistas permanecem próximos ao desembarque. Quando um Uber para apenas para embarcar um cliente, logo aparece fiscalização e multa”, relatou.
Acusações de multas arbitrárias
Os denunciantes afirmam ainda que colegas teriam recebido diversas autuações consideradas injustificadas e relatam que agentes fariam ameaças de continuar aplicando multas até que os motoristas deixassem de atuar no aeroporto.
“Eles dizem que vão multar até o Uber desistir de trabalhar ali”, afirmou um dos condutores.
Os trabalhadores também alegam que passageiros seriam desencorajados por taxistas a solicitar corridas por aplicativo logo após desembarcarem no aeroporto.
Segundo os relatos, clientes seriam informados de que aplicativos não poderiam operar no local ou que somente os táxis estariam autorizados a realizar o transporte de passageiros.
Pedido de investigação
Diante das denúncias, os motoristas pedem a abertura de investigação pelos órgãos competentes para esclarecer os fatos.
Entre os órgãos citados pelos denunciantes estão a Polícia Civil, o Ministério Público, a direção da RBTrans e demais autoridades responsáveis pela fiscalização da administração pública.
Além da apuração das supostas irregularidades, os trabalhadores reivindicam a criação de um espaço exclusivo para embarque, desembarque e espera de veículos por aplicativo no Aeroporto Internacional de Rio Branco, semelhante ao modelo adotado em outros aeroportos brasileiros.
“A gente só quer trabalhar com dignidade. Somos pais de família, pagamos nossos impostos e queremos apenas exercer nossa profissão sem perseguição”, concluiu um dos motoristas.
A reportagem entrou em contato com o diretor da RBTrans, capitão do Corpo de Bombeiros Coltinho, e questionou a autarquia sobre um vídeo encaminhado à redação no qual um agente aparece supostamente recebendo uma quantia em dinheiro de um taxista.
Foi perguntado ao diretor qual é a posição oficial da RBTrans diante das imagens e se a Corregedoria ou a direção da autarquia pretendem instaurar procedimento para apurar a autenticidade do vídeo e a eventual conduta do servidor, caso sejam constatadas irregularidades.
Em resposta, o diretor afirmou:
“Sim, é possível nos posicionarmos, mas também é preciso que a denúncia seja formalizada por meio de documentos junto à Corregedoria. Já adianto que não compactuo com esse tipo de atitude ou situação.”
A declaração indica que a direção da RBTrans condiciona a abertura de uma apuração formal ao encaminhamento da denúncia à Corregedoria da autarquia, ao mesmo tempo em que o diretor afirma repudiar qualquer prática ilícita envolvendo servidores do órgão.
A reportagem também procurou o taxista citado pelos motoristas de aplicativo e questionou sobre o vídeo em que ele aparece supostamente entregando uma quantia em dinheiro a um agente da RBTrans.
Em resposta, o taxista negou qualquer irregularidade e afirmou que as acusações têm o objetivo de desviar o foco do que considera o verdadeiro problema: a atuação de motoristas que, segundo ele, realizariam transporte clandestino nas dependências do Aeroporto Internacional de Rio Branco.
Segundo o taxista, não existe perseguição por parte da RBTrans aos motoristas de aplicativo, mas sim fiscalização do cumprimento da legislação.
“Nós pagamos nossos impostos em dia e procuramos fazer tudo corretamente. O problema é que muitos ficam aliciando passageiros e fazendo corridas fora do aplicativo. Se fossem motoristas de aplicativo de verdade, aceitariam as corridas exclusivamente pela plataforma. O transporte clandestino é crime.”
Ele afirmou ainda que, quando as equipes de fiscalização chegam ao aeroporto, diversos veículos deixam o local, o que, em sua avaliação, demonstraria que os condutores estariam agindo de forma irregular.
Sobre a acusação de que teria pago propina a um agente da RBTrans, o taxista negou a versão apresentada pelos denunciantes.
“Onde é que um taxista vai pagar R$ 120 para uma equipe ir ao aeroporto fazer o trabalho dela? Isso não faz sentido.”
O taxista também convidou a reportagem a acompanhar a rotina de fiscalização no aeroporto e voltou a defender que a atuação da RBTrans ocorre para combater o transporte clandestino.
“Se eles não estão fazendo nada de errado, por que saem quando a fiscalização aparece? Isso não é perseguição. A RBTrans está apenas cumprindo o que a lei determina.”
Por fim, o taxista afirmou que ser pai de família não justifica o descumprimento da legislação e concluiu defendendo que o foco da discussão deve ser o combate ao transporte clandestino, e não as denúncias feitas contra os agentes de fiscalização.





