Mais do que o início de um mandato, os primeiros meses da gestão revelam a tentativa de construir uma identidade própria, baseada na presença constante nos bairros, na execução de serviços e na aproximação entre a Prefeitura e a população.
Na política, existe uma espécie de consenso silencioso: os primeiros cem dias dificilmente definem um governo, mas quase sempre revelam sua direção. É nesse curto intervalo de tempo que começam a surgir as prioridades administrativas, o estilo de liderança e, principalmente, a identidade de quem ocupa o cargo.

No caso de Rio Branco, os cem primeiros dias da gestão do prefeito Alysson Bestene parecem marcar exatamente esse momento de transição.
Mais do que iniciar uma administração, o prefeito enfrenta um desafio comum a todos aqueles que sucedem governos já consolidados: deixar de ser identificado apenas como continuidade para construir uma marca própria.
Não se trata de romper com o passado. Muito menos de negar aquilo que deu certo.

O desafio é outro
É imprimir personalidade a uma gestão que, inevitavelmente, será comparada durante todo o mandato com a administração anterior. E é justamente nesse aspecto que Alysson parece concentrar seus primeiros movimentos.
Desde os primeiros dias de governo, uma característica passou a se repetir quase diariamente: a presença constante nas ruas.
Enquanto boa parte da rotina administrativa acontece dentro dos gabinetes, Alysson transformou visitas a bairros, inspeções em obras, acompanhamento de equipes e conversas com moradores em parte permanente da agenda de trabalho.

Não se trata apenas de uma escolha de comunicação. Existe uma leitura política por trás desse comportamento.
Ao acompanhar pessoalmente os serviços públicos, o prefeito transmite uma mensagem clara tanto para a população quanto para sua equipe: a administração pretende ser medida pela capacidade de execução. Essa postura também altera a dinâmica interna da própria Prefeitura.
Quando o prefeito acompanha obras, cobra prazos e verifica resultados pessoalmente, a cultura administrativa tende a responder com maior velocidade. É uma forma de liderança baseada menos na formalidade dos despachos e mais na presença cotidiana.
Os reflexos desse modelo começam a aparecer justamente em uma área que costuma ser a primeira vitrine de qualquer governo municipal: a zeladoria urbana.

Nos primeiros cem dias de administração, a Prefeitura recuperou 12,5 km (quilômetros) de vias, retirou mais de 40,3 mil toneladas de entulhos, realizou serviços de limpeza, roçagem e manutenção em 33 bairros e ampliou as ações de conservação dos espaços públicos.
São números que, isoladamente, representam indicadores administrativos.
Mas, quando observados em conjunto, ajudam a explicar uma percepção que começa a ganhar espaço entre moradores: a de uma Prefeitura mais presente no cotidiano da cidade.
Esse talvez seja um dos principais ativos políticos construídos até aqui. Em vez de apostar exclusivamente em grandes anúncios, a gestão parece priorizar aquilo que o cidadão consegue perceber ao sair de casa.

Rua recuperada; Iluminação funcionando; Entulho retirado; Praças cuidadas.
São intervenções que dificilmente ocupam manchetes nacionais, mas que costumam influenciar diretamente a avaliação que a população faz de uma administração municipal.
Na infraestrutura, outro movimento merece atenção.
A parceria estabelecida com o Governo do Estado, por meio do Deracre, ampliou a capacidade operacional da Prefeitura e acelerou serviços considerados estratégicos para a mobilidade urbana.
A recuperação da malha viária avançou em diferentes regiões da cidade, beneficiando diretamente milhares de moradores e permitindo que obras aguardadas há anos começassem a sair do papel.

Na saúde, a estratégia adotada também buscou aproximar o poder público da população. As ações itinerantes levaram atendimento a diferentes comunidades, totalizando aproximadamente 27.217 procedimentos realizados apenas nos primeiros cem dias de governo.
Ao mesmo tempo, a administração iniciou investimentos voltados à melhoria da estrutura da rede municipal e ao fortalecimento da atenção básica.
Outra característica observada nesse início de gestão é a valorização dos espaços públicos. Projetos como a revitalização de áreas de convivência e a apresentação do novo mirante do Parque Chico Mendes demonstram uma preocupação que vai além da infraestrutura tradicional.
Existe uma tentativa de recuperar espaços de lazer, incentivar o turismo e fortalecer o sentimento de pertencimento da população em relação à cidade. Programas como o Viva + Rio Branco caminham na mesma direção.
Ao reunir diversos serviços públicos em um único local, a iniciativa levou cidadania, saúde, assistência social e lazer para comunidades que, muitas vezes, encontram dificuldades para acessar esses atendimentos.

Ao longo das duas primeiras edições, aproximadamente 200 crianças e adolescentes foram beneficiados com a Inclusão esportiva, assistidos por projetos parceiros de cultura e esporte.
Entretanto, talvez o aspecto mais interessante desses cem primeiros dias não esteja propriamente nas obras ou nos números. Está na construção de uma narrativa administrativa.
Alysson parece compreender que a população não avalia governos apenas pelos grandes projetos inaugurados ao final do mandato, ela observa também a capacidade do gestor de acompanhar o cotidiano da cidade. Nesse contexto, a presença física do prefeito torna-se um ativo político.

É uma estratégia que aproxima a administração das pessoas e reduz a distância tradicional entre gabinete e comunidade. Naturalmente, cem dias representam um período insuficiente para qualquer avaliação definitiva.
Problemas históricos da capital continuam exigindo soluções estruturais.
A recuperação completa da malha viária, o fortalecimento da rede de saúde, os investimentos em mobilidade urbana e os desafios relacionados ao crescimento da cidade permanecerão na agenda do governo pelos próximos anos, mas há um aspecto que já pode ser observado.
Alysson Bestene começa a consolidar um estilo próprio de governar. Não baseado em grandes discursos, mas na tentativa de fazer da presença constante, da cobrança por resultados e da execução cotidiana sua principal marca administrativa.

Na política, isso não é um detalhe. É identidade!
E identidade costuma ser um dos patrimônios mais importantes de qualquer governo.
Ainda é cedo para afirmar quais marcas permanecerão até o fim do mandato. Também seria precipitado transformar cem dias em um julgamento definitivo, mas esse primeiro capítulo da administração já permite uma conclusão.
Alysson Bestene parece compreender que administrar uma cidade não significa apenas anunciar obras ou elaborar projetos, significa ocupar as ruas com a mesma frequência com que se ocupa o gabinete.
Ouvir antes de decidir. Acompanhar antes de cobrar. Estar presente antes de aparecer.
Se essa estratégia produzirá o legado que o prefeito deseja construir, somente o tempo responderá.

Mas, ao final dos primeiros cem dias, uma percepção começa a ganhar forma.
Mais do que dar continuidade a uma administração, Alysson inicia o processo de construção de uma identidade política e administrativa própria. E, em política, poucas conquistas são tão importantes quanto deixar de ser visto apenas como sucessor para passar a ser reconhecido, efetivamente, como protagonista da própria história.
*Gleydison Meirelles é jornalista, articulista. Escreve sobre política, comunicação, comportamento e as transformações da sociedade acreana. Com experiência em redações, assessorias de comunicação e comunicação institucional, dedica-se à produção de textos de análise sobre política, comunicação, comportamento e cotidiano.





