Rio Branco, AC, 20 de agosto de 2026 03:24
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Quanto custa um deputado federal do Acre? A conta vai muito além do salário

Com salário de R$ 46,3 mil e uma estrutura que inclui assessores, cota parlamentar e benefícios, mandato de quatro anos movimenta milhões em recursos públicos

Quando o eleitor do Acre escolhe um deputado federal, não está escolhendo apenas quem vai ocupar uma das oito cadeiras destinadas ao Estado na Câmara dos Deputados. Está também colocando à disposição desse parlamentar uma estrutura inteira bancada pelo dinheiro público.

O salário é a parte mais conhecida dessa conta. Mas está longe de ser a única. Atualmente, um deputado federal recebe R$ 46.366,19 brutos por mês. Em quatro anos, considerando apenas 48 salários e sem reajustes, são cerca de R$ 2,23 milhões.

Só que o mandato não funciona com o deputado sozinho. Cada parlamentar dispõe de uma verba de gabinete de até R$ 165.806,07 por mês, destinada ao pagamento de salários de até 25 secretários parlamentares. Os salários desses servidores variam conforme a função e podem chegar a R$ 25.958,90.

Se todo o limite da verba de gabinete fosse utilizado durante 48 meses, seriam quase R$ 8 milhões destinados exclusivamente à estrutura de pessoal do mandato.

É dinheiro que não vai para o bolso do deputado, mas que faz parte do custo da máquina parlamentar.

O “cotão” também entra na conta

Há ainda uma das verbas mais conhecidas — e também mais discutidas — da Câmara: a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP).

No Acre, o limite mensal atual é de R$ 57.359,87. O valor não é igual para todos os estados porque leva em consideração, entre outros fatores, o preço das passagens entre Brasília e a Capital do Estado.

A cota pode ser utilizada para despesas como passagens aéreas, aluguel de veículos, combustível, manutenção de escritório, telefonia e divulgação da atividade parlamentar.

Se um deputado acreano utilizasse todo o limite durante quatro anos, a conta chegaria a aproximadamente R$ 2,75 milhões.

Mas há um detalhe importante: cota parlamentar não é salário.

O parlamentar não recebe os R$ 57 mil como renda pessoal. O recurso é destinado ao custeio de despesas autorizadas pela Câmara e, em muitos casos, funciona por meio de reembolso ou pagamento direto. Além disso, o saldo não utilizado pode ser acumulado dentro do mesmo ano, mas não passa de um exercício para o outro.

E onde entra a moradia?

Brasília também pesa no orçamento.

O deputado que não utiliza um dos imóveis funcionais da Câmara pode receber auxílio-moradia de R$ 4.253 por mês, mediante as regras estabelecidas pela Casa.

Também é possível complementar o valor do aluguel utilizando a cota parlamentar, dentro do limite previsto.

Se o auxílio-moradia fosse utilizado durante os 48 meses, representaria mais de R$ 204 mil.

Novamente, isso não significa que todos os deputados recebam esse valor durante todo o mandato. Há parlamentares que utilizam apartamentos funcionais e outros que não recebem o auxílio.

Fazendo as contas

É possível colocar esses números lado a lado para entender o tamanho da estrutura.

Em uma projeção simples de 48 meses:
Salários: aproximadamente R$ 2,23 milhões;
Verba de gabinete: até R$ 7,96 milhões;
Cota parlamentar do Acre: até R$ 2,75 milhões;
Total: aproximadamente R$ 12,94 milhões.

Se for acrescentado o auxílio-moradia durante os quatro anos, o valor chega a aproximadamente R$ 13,15 milhões.

Mas atenção: essa é uma projeção com base nos limites atuais, e não uma afirmação de que cada deputado efetivamente gastará todo esse dinheiro. Os valores podem mudar, e parte dos recursos pode não ser utilizada.

A própria Câmara mantém uma plataforma de transparência que permite consultar, deputado por deputado, quanto foi efetivamente gasto. Em 2026, por exemplo, os dados mostram diferenças consideráveis entre os parlamentares na utilização da cota e da verba de gabinete.

Quando a conta envolve os oito deputados do Acre

Agora imagine a mesma estrutura multiplicada pelas oito cadeiras que o Acre possui na Câmara. Uma projeção de aproximadamente R$ 13 milhões por mandato, multiplicada por oito parlamentares, leva a uma cifra na casa dos R$ 100 milhões ao longo de quatro anos.

É uma conta que chama atenção, mas que precisa ser interpretada corretamente. Isso não significa que R$ 100 milhões sejam entregues aos oito deputados.

Grande parte desse dinheiro é utilizada para pagar servidores, viagens, passagens, aluguel de veículos, combustível, escritórios e outras despesas relacionadas ao funcionamento dos mandatos.

Ainda assim, é dinheiro público. E dinheiro público precisa ser acompanhado. A pergunta não é apenas quanto custa. É fácil transformar o número em manchete: “um deputado custa milhões”.

Mas a discussão mais importante começa justamente depois desse número. O que o deputado entrega em troca dessa estrutura?

Quantas vezes participa das sessões? Como vota? Quais projetos apresenta? Em quais comissões trabalha? Quanto utiliza da cota parlamentar? Quantos assessores mantém? Quanto gasta com divulgação? Quais recursos consegue para o Acre? Fiscaliza o governo? Presta contas à população?

São essas perguntas que ajudam a separar um mandato atuante de uma cadeira ocupada. A Câmara oferece ao cidadão ferramentas para acompanhar essas informações. É possível consultar remuneração, gastos com cota parlamentar, verba de gabinete, viagens oficiais e outras despesas.

E as emendas parlamentares?

Outro ponto que costuma gerar confusão é colocar as emendas parlamentares dentro da mesma conta.

Não é correto.

As emendas são recursos indicados pelos parlamentares no Orçamento da União para financiar obras, serviços e ações públicas. Não representam remuneração do deputado nem dinheiro disponível para uso pessoal.

Por isso, não devem ser simplesmente somadas ao custo de manutenção do mandato. Mas também precisam ser fiscalizadas. Quem recebeu? Para onde o dinheiro foi? A obra saiu do papel? O equipamento foi comprado? O serviço chegou à população?

No fim, transparência não é apenas saber quanto um político ganha. É saber como cada real público colocado à disposição de um mandato é utilizado e qual resultado produz.

Mas talvez a parte mais importante dessa conta não esteja na calculadora. Está na urna. Porque o dinheiro usado para manter o mandato não sai do bolso do deputado. Sai dos cofres públicos. E quem paga essa conta é o cidadão.

Por isso, acompanhar o trabalho de um deputado não deveria ser uma tarefa restrita ao período eleitoral. O eleitor pode — e deve — acompanhar quanto o parlamentar recebe, quanto gasta, quem são seus assessores, onde estão os recursos e, principalmente, o que o mandato está fazendo com a confiança recebida nas urnas.