“Neste Brasil corrupção, pontapé bundão, puto saco de mau cheiro, do Acre ao Rio de Janeiro.”
Tom Zé escreveu isso como provocação, mas há músicas que, em vez de envelhecer, parecem adquirir novas camadas de significado. Unimultiplicidade é uma delas. A canção, composta por Tom Zé e Ana Carolina, nasceu como uma espécie de manifesto poético contra um país atravessado pela desigualdade, pelo oportunismo e pela velha prática de transformar o público em extensão dos interesses privados.
Quase duas décadas depois, seus versos continuam desconfortavelmente atuais. Não porque o Brasil seja exatamente o mesmo. Ele não é. Mudaram os partidos, os instrumentos de fiscalização, as instituições, as tecnologias, as formas de comunicação e até o vocabulário usado para descrever os velhos vícios da política.
Mas algumas engrenagens permanecem.
“Neste país de manda-chuvas
cheio de mãos e luvas
tem sempre alguém se dando bem.”
A política brasileira criou uma impressionante capacidade de modernizar a embalagem sem necessariamente reformar o conteúdo. O que antes podia aparecer como desvio de verba, favorecimento, caixa clandestino, funcionário fantasma ou apropriação de recursos públicos ganhou novas nomenclaturas, novos mecanismos e, em alguns casos, sofisticadas estruturas financeiras.
A chamada rachadinha talvez seja um dos exemplos mais didáticos dessa permanência. A prática consiste, em linhas gerais, na devolução de parte dos salários de assessores ou servidores ao parlamentar ou a pessoas ligadas a ele. A Câmara dos Deputados já registrou propostas para tratar a conduta como ato de improbidade administrativa, enquanto o Supremo Tribunal Federal julgou casos envolvendo a apropriação de remunerações de assessores.
E aqui está a ironia: aquilo que parece pequeno na escala de um gabinete pode revelar uma deformação gigantesca na compreensão do que significa exercer um mandato.
O dinheiro não é apenas dinheiro.
É salário de alguém. É orçamento público. É confiança do eleitor. É a ideia de que um mandato pertence à sociedade, e não ao mandatário.
No imaginário popular, a rachadinha muitas vezes aparece como uma espécie de “pequena corrupção”: um gabinete, alguns funcionários, depósitos, devoluções, favores.
Mas o fenômeno é maior do que a soma de suas parcelas. Ele pertence à mesma cultura política que, em diferentes momentos, produziu escândalos de proporções nacionais: o caso Collor-PC Farias, os Anões do Orçamento, o Mensalão, a Lava Jato, além das controvérsias envolvendo emendas parlamentares e mecanismos de distribuição de recursos públicos.
Não se trata de afirmar que todos esses episódios possuem a mesma natureza jurídica ou o mesmo mecanismo. Não possuem.
O ponto é outro: a recorrência do problema revela como a fronteira entre interesse público e interesse privado pode ser perigosamente relativizada quando as instituições são tratadas como instrumentos de poder pessoal.
E isso não nasceu ontem.
O Acre também tem seus fantasmas
No Acre, a história política guarda episódios que parecem pertencer a outro país — mas pertencem à nossa própria memória.
Um dos mais emblemáticos é o caso conhecido como “conta Flávio Nogueira”, relacionado a operações realizadas entre 1988 e 1990. Documentos judiciais e registros parlamentares descrevem a existência de contas fictícias utilizadas para movimentar temporariamente recursos públicos e realizar aplicações financeiras. O caso chegou a envolver valores estimados em aproximadamente US$ 1,18 milhão, segundo registros judiciais.
O detalhe é quase cinematográfico: o dinheiro saía, circulava pelo mercado financeiro por um curto período e retornava ao erário, enquanto os rendimentos das aplicações ficavam pelo caminho.
O principal voltava. O lucro desaparecia. E alguém, evidentemente, se beneficiava.
“Pego meu violão de guerra pra responder essa sujeira.”
Décadas depois, o episódio continua sendo uma advertência histórica. Em 2024, uma ação civil relacionada ao caso foi extinta por prescrição, encerrando judicialmente uma disputa que atravessou décadas.
A prescrição, entretanto, pode encerrar um processo. Não necessariamente encerra a memória.
Em 2013, o Acre voltou ao noticiário nacional com a Operação G7, deflagrada pela Polícia Federal para investigar suspeitas envolvendo empresários, agentes públicos e contratos de obras. A investigação colocou sob suspeita contratos públicos e provocou uma das maiores crises políticas daquele período.
Mas há uma parte da história que precisa ser contada com a mesma ênfase: a investigação não terminou em condenação dos acusados. A própria documentação pública registra que os réus foram absolvidos nas ações penais decorrentes da operação.
É uma distinção fundamental.
Investigar não é condenar. Ser alvo de uma operação não significa ser culpado. E jornalismo sério precisa resistir à tentação de transformar suspeita em sentença.
Ptolomeu: o passado encontra o presente
Se a conta Flávio Nogueira pertence à política acreana do final dos anos 1980, a Operação Ptolomeu colocou novamente o estado no centro de uma investigação de grande repercussão.
Segundo o Ministério Público Federal, a apuração envolveu suspeitas de organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitação.
O STJ recebeu denúncia contra o então governador Gladson Cameli e outros investigados. Posteriormente, em maio de 2026, o tribunal condenou Cameli a 25 anos de prisão por crimes relacionados ao esquema investigado. A defesa negou as acusações e sustentou, entre outros pontos, questionamentos sobre a validade das provas.
O dado mais importante, entretanto, talvez não esteja apenas no tamanho da pena ou nos milhões mencionados no processo.
Está na repetição da história.
Passam os governos. Passam os partidos. Passam os homens. Mudam os métodos.
Mas permanece a pergunta essencial: por que o Estado continua tão vulnerável àqueles que deveriam administrá-lo em nome da sociedade?
A política que se acostuma
Talvez seja essa a maior tragédia da corrupção brasileira: não apenas o dinheiro que desaparece, mas a capacidade de produzir indiferença.
Quando um escândalo acontece, há indignação.
Depois, vem a disputa política. Em seguida, as redes sociais. Depois, outro escândalo. E, finalmente, o esquecimento. Até que a próxima operação apareça.
A sociedade vai se acostumando com palavras que deveriam provocar espanto: “rachadinha”, “laranja”, “funcionário fantasma”, “superfaturamento”, “emenda”, “lavagem”, “contrato emergencial”, “dispensa”, “fraude”.
O vocabulário da corrupção vai ficando tão familiar que corre o risco de deixar de causar estranhamento. E esse talvez seja o momento mais perigoso.
Porque uma sociedade que se escandaliza menos diante do desvio passa a exigir menos de quem administra o dinheiro público.
É justamente aqui que Tom Zé volta a fazer sentido.
“Quero a unimultiplicidade, onde cada homem é sozinho, a casa da humanidade.”
A palavra é um paradoxo: unidade e multiplicidade convivendo na mesma ideia. Talvez seja essa a chave para pensar a política.
O mandato é individual, mas o dinheiro é coletivo. O parlamentar é uma pessoa, mas o cargo pertence à República. A decisão pode ser tomada por um homem ou uma mulher, mas suas consequências alcançam milhares.
Quando um agente público transforma o gabinete em extensão de sua vida particular, essa fronteira é destruída. E, quando o Estado passa a ser tratado como patrimônio de grupos políticos, a democracia deixa de ser uma casa comum e vira condomínio de poucos.
Do parlamento mirim ao Congresso
É por isso que a expressão “rachadinha” merece ser retirada do território da piada.
Não existe rachadinha pequena quando o princípio é grande.
Pode acontecer numa Câmara Municipal, numa Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional. Pode envolver poucos milhares ou milhões. Pode assumir a forma de salário devolvido, contrato direcionado, emenda desvirtuada ou qualquer outro mecanismo destinado a transformar recurso público em vantagem privada.
O tamanho pode mudar. A lógica, não.
No Congresso, casos recentes demonstram que o tema continua presente no debate institucional. Em 2025, o STF homologou acordo entre o deputado André Janones e a Procuradoria-Geral da República em investigação sobre rachadinha; no acordo, o parlamentar admitiu a prática e assumiu obrigações financeiras e de conduta. Em 2026, novas suspeitas envolvendo gabinetes parlamentares voltaram ao noticiário nacional.
É como se a velha política tivesse descoberto uma habilidade extraordinária: trocar de roupa sem necessariamente trocar de comportamento.
A herança que ninguém deveria querer
O Acre conhece essa história.
Conhece os escândalos antigos, as operações policiais, as denúncias, as disputas judiciais e as absolvições. Conhece também os personagens que desapareceram da política, os que retornaram, os que mudaram de partido e os que continuaram circulando pelo poder.
A história política não é uma coleção de santos nem um catálogo de criminosos.
É mais complexa.
Há acusações que não se confirmam. Há investigações que terminam em absolvições. Há condenações que atravessam décadas. Há processos que prescrevem. Há instituições que falham. E há outras que funcionam.
O papel da sociedade é não esquecer nenhuma dessas etapas.
Porque esquecer é permitir que a próxima geração repita o mesmo roteiro acreditando estar diante de uma novidade.
“Não tenho nada na cabeça, a não ser o céu, não tenho nada por sapato, a não ser o passo.”
Talvez o passo mais importante da democracia seja justamente esse: caminhar sem aceitar como normal aquilo que deveria continuar sendo intolerável.
A corrupção não é patrimônio nacional. A indignação contra ela também não pode ser propriedade de partido algum.
Se existe uma verdadeira “unimultiplicidade”, talvez ela esteja justamente nisso: gente diferente, pensamentos diferentes, partidos diferentes e ideologias diferentes unidos por uma mesma exigência — que o dinheiro público permaneça público.
Porque, no fim, a rachadinha não divide apenas salários.
Ela divide a sociedade entre quem paga a conta e quem acredita ter o direito de ficar com uma parte dela.
E talvez seja por isso que a letra de Tom Zé continue tão incômoda.
Ela não fala apenas de um Brasil de ontem. Fala de um Brasil que ainda está tentando decidir que país quer ser amanhã.





