Rio Branco, AC, 1 de agosto de 2026 17:17
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Doce Ilusão do Tempo

​Precisei interromper a marcha do relógio para lembrar como se respira. Estas são linhas escritas sem a urgência dos dias úteis, do chão ensolarado de Ribeirão Preto. Tirei uns dias de férias. Não para fugir do mundo, mas para conseguir olhá-lo de frente, sem a viseira da pressa que o cotidiano nos impõe.

​Sentado sob o sol ameno da tarde, vi a vida passar mansamente. Ou melhor: vi as pessoas passarem apressadas por uma vida que insistia em ser mansa. Andam cabisbaixas, com passos largos, olhos cravados nos próprios destinos, tratando cada calçada como um corredor de passagem. A aceleração do mundo moderno nos roubou o direito ao intervalo, a pausa necessária para reparar no invisível.

​Ao ver esse fluxo contínuo, a memória me pregou uma peça. Reencontrei, na mesma esquina, o jovem que chegou a esta mesma cidade aos 15 anos de idade. Ele vinha de Xapuri — uma terra onde as horas andam a pé, onde o tempo é largo e as pessoas ainda guardam o hábito bonito de se olharem nos olhos ao cruzar a rua.

​Nesses dias de pausa, uma lembrança veio me visitar com a força das manhãs antigas: a despedida na rodoviária de Xapuri, às seis da manhã. Meu pai, sentado sobre a sela de sua bicicleta, usava uma camisa preta de manga longa, com os punhos cuidadosamente dobrados. Entregou-me o pouco dinheiro que tinha em mãos, em cédulas contadas com esforço. Lembro do brilho d’água em seus olhos enquanto observava a porta do ônibus se fechar, levando o filho de 15 anos rumo ao desconhecido. Aquele pai parado na bicicleta foi a primeira e mais pura semente: ficou na poeira da estrada, ancorado na simplicidade, para que o filho pudesse caminhar.

​Para aquele garoto de 15 anos, a Ribeirão dos anos de colégio e faculdade parecia uma máquina gigante e veloz. Precisei trabalhar, a vida exigia. Fui jogado em uma engrenagem que media o valor humano pelo cumprimento de metas. E eu, com o ritmo de Xapuri entranhado no corpo, era sempre o último. Ficava registrado nos mapas indicativos da empresa, pregado na parede em praça pública interna: o meu nome lá, no último lugar.

​Aquele jovem sofria. Como quase todo jovem da minha geração, nascido na década de setenta, eu cresci sob a memória ainda viva dos maiores horrores do século vinte. O mundo tentava se reerguer das cinzas da Segunda Guerra Mundial, assombrado pelas atrocidades dos campos de concentração e pelas feridas de uma barbárie recente. Para nós, parecia lógico — e quase uma necessidade moral — acreditar que a humanidade tinha finalmente aprendido a lição. Cultivávamos a fé ingênua de que, depois de alcançar o fundo do abismo, o avanço civilizatório, a evolução ética e a compaixão cristã seriam um caminho sem volta, uma marcha natural do tempo.

​Foi com essa utopia nos ombros que cheguei à cidade grande. Eu acreditava que as transformações do mundo e a superação das nossas misérias humanas aconteceriam no mesmo ritmo da minha ansiedade, na mesma volta do ponteiro do meu próprio relógio. Por isso, a dor de ver o meu nome no último lugar do mapa de metas da empresa não era apenas o peso de um tropeço profissional. Era o choque de um jovem que não entendia por que as pessoas e as engrenagens ao seu redor continuavam tão frias e imperfeitas. Eu exigia uma evolução imediata de tudo e de todos — e sofria porque o mundo teimava em não andar na velocidade dos meus sonhos.

​E aqui reside o bonito paradoxo das férias: décadas depois, foi exatamente no coração desta cidade grande e apressada que vim buscar a calma da minha Xapuri.

​Enquanto todos correm, eu desacelero. O homem de 53 anos que hoje senta ao sol olha para aquele jovem com imensa compaixão. Hoje consigo enxergar o que ele não via: o progresso da humanidade não é um trem automático. O tempo, por si só, não melhora o mundo. A transformação não é mágica: ela exige o esforço consciente de cada um de nós para despertar os que ainda estão adormecidos e impulsionar a história.

​É aí que entra a utopia. Não aquela ilusão do garoto, mas esta de agora: ela não é para nos fazer esperar; é para não nos deixar acostumar. A nossa geração cresceu acreditando que a barbárie era matéria ultrapassada nos livros de história. No entanto, o tempo presente nos desmente de forma brutal. Assistimos, debaixo dos nossos próprios olhos e em tempo real, aos conflitos que rasgam a África, ao horror que devastou Gaza e a tantos outros massacres pelo mundo. É o choque de ver a dor humana se repetir como se nada tivéssemos aprendido.

​A nossa obrigação existencial é recusar a frieza desse conformismo e continuar lutando por todos. Pôr a semente no chão e resistir é o que nos mantém humanos diante do absurdo. Não temos a vaidade de achar que participaremos da colheita, mas morreremos semente — de pé, com a indignação viva no peito, como aquele pai na poeira da estrada, olhando o sol esquentar a pele e sem jamais abrir mão de caminhar.

​Emylson Farias
Delegado de Polícia