Rio Branco, AC, 26 de agosto de 2026 22:45
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Sheila Andrade defende saúde descentralizada, valorização de profissionais e integração do Acre durante Conversa Franca

Ex-secretária municipal de Saúde e candidata a deputada federal pelo Republicanos apresentou propostas para o setor, falou de sua trajetória e apontou gestão como um dos principais gargalos da saúde acreana

A saúde pública, a descentralização dos serviços, a valorização dos profissionais, o desenvolvimento econômico e o fortalecimento do interior foram alguns dos principais assuntos discutidos pela ex-secretária municipal de Saúde de Rio Branco Sheila Andrade (Republicanos) durante entrevista ao podcast Conversa Franca, apresentado pelo jornalista Willamis França.

Candidata a deputada federal nas eleições de 2026, Sheila apresentou parte das ideias que pretende defender durante a campanha e fez uma avaliação dos principais desafios enfrentados pelo Acre.

Com 35 anos de atuação na área da saúde, Sheila é servidora de carreira do Estado e possui especializações em áreas como Vigilância em Saúde Ambiental, Vigilância Sanitária e Vigilância em Saúde, além de mestrado em Saúde Pública e Meio Ambiente.

Cruzeirense, ela também relembrou suas origens no Vale do Juruá e afirmou manter uma forte ligação com a região.

Durante a conversa, uma das principais avaliações feitas pela candidata foi a necessidade de fortalecer a Atenção Primária à Saúde para reduzir a pressão existente sobre UPAs, pronto-socorro e hospitais.

Ao ser questionada por Willamis sobre onde estaria o problema, Sheila fez uma ponderação.

“Na realidade, o problema não começa na Atenção Primária. A solução começa na Atenção Primária”, afirmou.

Segundo ela, pacientes com diabetes, hipertensão e diversas outras condições podem ser acompanhados nas unidades básicas, reduzindo o risco de agravamento e evitando que problemas de menor complexidade terminem nas portas dos hospitais.

Para Sheila, o Estado precisa aumentar a cooperação com os municípios para que a Atenção Básica seja fortalecida e a rede funcione de maneira integrada.

“Se não conseguirmos desafogar as UPAs e os hospitais, qualquer discurso de resolver a saúde corre o risco de continuar sendo apenas discurso de campanha”, afirmou.

A ex-secretária também defendeu a descentralização dos serviços de média e alta complexidade.

Na avaliação dela, fortalecer hospitais e unidades regionais permitiria que moradores de municípios distantes deixassem de percorrer centenas de quilômetros até Rio Branco ou Cruzeiro do Sul para realizar exames, consultas e cirurgias.

Willamis citou, durante a entrevista, situações de pacientes do interior que precisam viajar para conseguir procedimentos relativamente comuns e questionou como uma deputada federal poderia colaborar com a mudança desse cenário.

Sheila reconheceu que a execução da política de saúde é responsabilidade do Poder Executivo, mas destacou que parlamentares federais possuem papel estratégico na destinação de emendas, articulação com ministérios e captação de investimentos.

“Não cabe ao deputado federal administrar o hospital, mas cabe ao parlamentar trabalhar para levar recursos e ajudar a estruturar os serviços”, resumiu.

Formação de médicos e profissionais para o interior

Outro ponto discutido foi a dificuldade de contratação de profissionais especializados.

Sheila relatou que, durante sua passagem pela Secretaria Municipal de Saúde, foram oferecidas dez vagas para médicos de família, mas apenas seis foram preenchidas.

Para a candidata, o Acre precisa criar mecanismos que estimulem profissionais formados no próprio Estado a permanecerem na região.

“Todos os anos formamos médicos e muitos vão embora porque não encontram incentivo para permanecer. Precisamos investir nesses profissionais e criar condições para que possam atuar também no interior”, afirmou.

O problema, segundo ela, torna-se ainda mais grave quando se trata de especialidades.

“Não adianta colocar apenas um cirurgião em determinada regional. É preciso anestesista, equipe, equipamentos e estrutura para que aquela cirurgia realmente aconteça”, explicou.

A candidata defendeu melhores condições de trabalho, estrutura hospitalar e valorização profissional como instrumentos fundamentais para interiorizar a saúde.

Experiência na Secretaria Municipal

Ao recordar sua passagem pela Secretaria Municipal de Saúde de Rio Branco, Sheila citou a reforma de 35 unidades e outras seis que, segundo ela, ficaram em construção durante sua gestão.

A candidata lembrou que assumiu a pasta em um dos períodos mais difíceis da história recente da saúde pública: a pandemia de Covid-19, simultaneamente a um cenário de alta incidência de dengue no Acre.

Segundo Sheila, problemas estruturais nas unidades dificultavam inclusive a organização dos fluxos exigidos durante a pandemia.

Como alternativa para reduzir a demanda reprimida de atendimento odontológico, a gestão implantou dez vans odontológicas.

A ex-secretária também destacou ações realizadas nas comunidades rurais.

“Conseguimos realizar atendimentos itinerantes em mais de 150 comunidades”, disse.

Segundo ela, serviços como ultrassonografia, atendimento odontológico e até pequenas cirurgias foram levados para áreas rurais da capital.

“Falta gestão”

Questionada por Willamis sobre qual considera hoje um dos principais problemas da saúde acreana, Sheila respondeu de maneira direta: gestão.

“Existem recursos federais, existem emendas parlamentares e existem repasses. Se o dinheiro existe e determinados serviços continuam não funcionando, precisamos discutir gestão e execução”, afirmou.

Durante o programa, Willamis lembrou casos em que recursos são destinados, mas obras ou procedimentos não são realizados.

Sheila defendeu maior sintonia entre bancada federal e Executivo estadual para que emendas deixem de permanecer apenas no orçamento e sejam convertidas em atendimento à população.

A candidata também afirmou não ser contrária à participação de organizações terceirizadas na prestação de determinados serviços de saúde, desde que exista fiscalização rigorosa do poder público.

“Independentemente do modelo, quem precisa ganhar é a população. Mas terceirização exige controle muito forte do Estado”, declarou.

Desenvolvimento econômico também entrou no debate

O programa foi além da saúde.

Willamis e Sheila também discutiram desenvolvimento econômico, agronegócio, produção regional e a integração entre o Acre e o Peru.

O jornalista defendeu que a nova bancada federal eleita em 2026 coloque a integração internacional entre suas prioridades, especialmente a possibilidade de ampliar a conexão da região de Cruzeiro do Sul com o mercado peruano.

Na avaliação de Willamis, o Juruá poderia deixar de ser visto como o ponto final da BR-364 e passar a ser encarado como uma porta de entrada para novos mercados.

“A gente precisa olhar para Cruzeiro do Sul não como o lugar onde a estrada termina, mas como o lugar onde uma nova rota pode começar”, afirmou.

Sheila concordou e afirmou que investimentos em infraestrutura poderiam beneficiar todo o Estado.

“Muita gente diz que o Acre é o fim do mundo. Eu acredito que podemos ser o começo de tudo”, afirmou.

A discussão passou ainda pelo potencial de produtos acreanos como café, farinha de Cruzeiro do Sul, açaí de Feijó, carne suína e produção avícola para alcançar novos mercados.

Para Sheila, ampliar a produção e atrair investimentos privados também tem reflexos indiretos na saúde.

Ela defendeu investimentos em saneamento básico, produção e geração de emprego como parte de uma política mais ampla de desenvolvimento.

“Eu sou defensora do SUS e a saúde será meu principal foco. Mas não existe saúde de qualidade sem saneamento básico, desenvolvimento e geração de renda”, declarou.

Política e participação feminina

Na reta final da entrevista, o debate chegou à participação das mulheres na política.

Willamis defendeu maior presença feminina nas eleições e ressaltou que as mulheres representam mais da metade do eleitorado acreano, apesar de ainda ocuparem proporcionalmente poucos espaços políticos.

Sheila afirmou que uma de suas motivações para disputar uma cadeira na Câmara Federal é justamente mostrar que as mulheres podem ampliar sua participação nas decisões sobre o futuro do Estado.

“Nós precisamos de mulheres preparadas, com suas próprias bandeiras e propostas. Muitas vezes o que precisamos é apenas da oportunidade de mostrar aquilo que somos capazes de fazer”, afirmou.

A candidata encerrou a entrevista defendendo maior participação dos próprios eleitores na fiscalização dos mandatos.

“Não basta votar. Precisamos escolher nossos representantes e depois cobrar. São quatro anos e dá para fazer muita coisa”, concluiu.